domingo, 27 de abril de 2008

Nós, os outros


Texto publicado originalmente em:
Revista Brouhaha - vozes na cultura potiguar
Natal-RN. Ano II - n. 3 - Janeiro/Março de 2006 - p. 78.

Num provável exercício de imaginação histórica, decidi sair de casa no sábado de uma manhã ensolarada qualquer. Depois de passar todo o semestre tentando mostrar aos alunos do curso de Turismo o que eu queria dizer com contato interétnico, eu mesma resolvi vivenciá-lo mais de perto por algumas horas e, graças a uma sucessão de eventos culturais, pude experimentar tal sentimento a poucos quilômetros de minha própria janela.

Em poucos minutos já me transportava no tempo e no espaço para a margem do Rio Potengi, um pouco antes da chegada dos primeiros estrangeiros a pisar no solo potiguar. Os primeiros habitantes do litoral tinham as mesmas feições que muitos de nós hoje em dia: não mediam mais do que 1,60 cm de altura, tinham uma coloração pardacenta e sem hábitos fixos, praticavam a caça de pequenos animais, a pesca e a coleta de frutos com instrumentos rudimentares preservados da ação humana unicamente por algumas camadas de areia das dunas.

Caminhando sobre largos bancos de terra, esses potiguares nativos foram se espalhando divididos em pequenos grupos que se comunicavam através de poucas variações da mesma língua, enquanto exploravam a região da extensa faixa litorânea. Queimados de sol, as mulheres não tinham longos cabelos, seus seios e ventres eram largos e quando jovens todos desenvolviam pernas e braços com músculos bem desenvolvidos.

Não se tem notícia de visitantes de outra nacionalidade antes dos franceses que comercializavam com os potiguares trocando um bibelô em toras de madeira. Fazia parte do interesse do nativo local provar um pouco do algo exótico trazido pelo latino europeu, se era dinheiro ou víveres ou tecnologia ou herança genética fortuita não se sabe. Se por mímica ou se por uma língua própria criada para tais finalidades, tampouco há notícia deixada em um diário nem documentos. O que se sabe é que, décadas depois tais táticas não favoreceram na convivência com os holandeses e por isso houve uma guerra localizada.

Quando os portugueses resolveram instalar-se oficialmente a população nativa já havia modificado muitos de seus hábitos, a fricção cotidiana de seres com ideais estranhos entre si não impediu a miscigenação racial. Um desses primeiros brasileiros que nasciam em solo potiguar se chamou Jerônimo e muitos de nós descendemos de uma maioria de outros desses, porém anônimos. Foi depois de um massacre localizado promovido por holandeses e nativos aliados que se instaurou de vez um governo maciço português que dominaria seguidamente por três séculos.

O trabalho ao qual era submetido o nativo indígena fora substituído pela mão de obra dos escravos negros que, durante as noites de sábado, se reuniam em uma roda para dançar, cantar e beber cachaça misturada com o açúcar escuro dos canaviais. A brincadeira tomava todas as redondezas dos engenhos e durava a noite inteira, enquanto na casa grande se tocava o violão com algum acompanhamento de voz. Não ia até tarde, pela manhã os trabalhadores e os patrões já estavam de pé.

O inglês Henry Koster anotou em um diário sua visita ao principal dono de engenho da região, André de Albuquerque Maranhão, antes da morte desse iminente homem público que de tanto confundir seus interesses com os da capitania foi preso, morto e exporto em praça pública. Natal era uma cidade mesmo antes de ter sido uma vila, mas o padrão das pequenas quatrocentas primeiras habitações só seria radicalmente modificando a partir da primeira metade do século vinte.

Novamente os franceses, dessa vez vieram pelos céus e tomavam a cidade de um glamour cinematográfico. Os potiguares pobres se haviam mestiçado com europeus, à exceção do pequeno grupo de judeus que continuava intacto em seu pequeno grupo localizado no bairro do Alecrim, a maioria se espalhara pela margem do Potengi. As famílias tradicionais chegavam também do engenho para a cidade trazendo seus negros contadores de história, mais um elemento humano a misturar-se aos indígenas já esbranquiçados. O areal, os cortiços, as zonas de praia com seus casebres humildes conviviam com a cidade alta e o centro comercial da Ribeira até apagar das luzes no primeiro blackout.

A permanência dos norte-americanos transformou tudo mais rapidamente, em apenas quatro anos o que antes parecia imperceptível saltou aos olhos: o contato entre diferentes raças alcançaria um ápice fazendo a cidade triplicar seu número de habitantes além da geografia, expandindo-se além de suas fronteiras. Há pouco mais de uma década o intenso fluxo turístico traz atualmente para nossa cidade, como herança de Parnamirim, os vôos internacionais repletos de estranhos anônimos das mais diversas clases sociais e nacionalidades. Herdamos há séculos o principal ponto estratégico cultural entre os três continentes: África, América e Europa.

3 comentários:

pablocapistrano disse...

Fala Gil, Parabéns pelo Blog!
seja bem vida nesse canal da mátrix, um abração!
que a paz te acompanhe!

Ninno Amorim disse...

Olá Gilmara, gostei do seu blog. Já nos meus "blogs recomendados".

Saúde e liberdade.

Gilmara Benevides disse...

Fico agradecida pelos comentários.
Servir bem, para servir sempre!