segunda-feira, 15 de junho de 2009

"As famílias que eu filmei comem açúcar de colher"

http://bravonline.abril.ig.com.br/conteudo/assunto/filme-jose-padilha-superdimensiona-problema-fome-448636.shtml



O novo documentário de José Padilha pode ser entendido como uma defesa aos programas Bolsa Família e Fome Zero. Saiba a opinião do cineasta sobre o assunto.



"Existe um debate importante do Bolsa Família. É uma quantidade, que não é significativa no contexto do orçamento geral da União, mas é uma quantidade razoável de dinheiro - R$ 12 bi, R$ 10 bi por ano. Eu acredito nos números do Ibase e acho que o programa Bolsa Família necessário; o Ali Kamel não. Eu acho que seria temerário realocar os recursos num programa de educação, sobretudo num programa muito vagamente ou sequer especificado. Muitas famílias dependem do programa para sobreviver. Eu filmei uma família que sobrevivia com ele por 12 dias e pelo resto do mês as crianças comiam açúcar. Eu não li a estatística só. A estatística é importante, fundamental, mas você tem que ver.

Eu escuto gente falando 'Ah, o cara comprou um eletrodoméstico com o dinheiro do Bolsa Família', mas o cara não tem geladeira, não consegue nem conservar a carne, o leite. E também essa ideia de que você só mede a desnutrição pesando as pessoas, que é mais ou menos a proposta, pelo que eu entendi, do artigo do Ali Kamel é assim, por exemplo, no Cerro Corá, uma favela do Rio, todo dia se você for lá de manhã você vai ver quatro ou cinco senhoras obesas que descem o morro, metem a mão no lixo, catam açúcar, farinha e comem esse troço.

As famílias que eu filmei comem açúcar de colher. Então essas pessoas ficam obesas e desnutridas. Existe um conceito que abre o filme do Josué de Castro da fome parcial, que não é a ausência total de alimentos, mas a ausência de nutrientes fundamentais para o desenvolvimento de uma criança. Se você não garantir a base biológica nutricional da criança, como você vai educá-la? Discordo educadamente, mas discordo da posição do Ali Kamel em relação a isso. O artigo atribuía ao filme o que ele não faz. O filme mostra a fome do ponto de vista que quem passa fome.

Outro aspecto do Bolsa Família que é relevante falar é que ele é muito criticado por ser um programa que transfere renda, e é mesmo. O governo arrecada imposto e transfere a renda para pessoas que ele classificou como sendo mais pobres. Por isso, dizem que tem um viés eleitoral. Pode ser que tenha, pode ser que o cara que recebe aquela renda vote no político que ele acha que melhorou a vida dele - e de fato melhorou -, que faz parte do raciocínio democrático. Agora eu quero lembrar que o Brasil teve um programa mais eficiente e muito mais volumoso que o Bolsa Família, que mexeu com muito mais dinheiro que 10, 12 milhões de reais, que foi a inflação e as altas taxas de juros praticadas pelo governo durante anos e até hoje.

Elas transferiram dinheiro dos mais pobres pros mais ricos, essas pessoas enriqueceram muito e influenciaram na política brasileira muito mais que a classe que recebe Bolsa Família. Influenciaram fazendo caixa de campanha, ajudando seus pares. Então, como é que o programa de transferência de renda agora está mudando a eleição? E antes? Por que ninguém falou desse fenômeno que acontecia antes? Só por que era no sentido contrário? É uma questão que eu coloco aqui."

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