terça-feira, 23 de junho de 2009

Entrevisa com Eduardo Escorel

http://www.descubracuritiba.com.br/?s=entrevistas&ss=entrevista&id=8

Filho do Embaixador Lauro Escorel, Eduardo foi aluno do sueco Ame Sucksdorff (que já filmou no Brasil). Acabou se tornando o montador preferido do Cinema Novo ("Terra em Transe", de Glauber Rocha; "Macunaíma", de Joaquim Pedro de Andrade; "Eles Não Usam Black-Tie", de Leon Hirszman). Fez curtas antes de passar à direção de longas e entre esses se destacam "Lição de Amor", baseado em Mário de Andrade. Rodou ainda um episódio de "Contos Eróticos", "Ato de Violência" e "O Cavalinho Azul". Dirigiu, roteirizou, montou e produziu diversos filmes de ficção e documentário, a partir de 1965. No ano seguinte, co-dirigiu com Júlio Bressane seu primeiro documentário de média-metragem, "Bethânia Bem de Perto - A Propósito de um Show", lançado em DVD pela Biscoito Fino. Em 2007, lançou o documentário "Deixa que eu Falo", sobre o cineasta Leon Hirszman. Eduardo Escorel também é autor de "Adivinhadores de Água - Pensando no Cinema Brasileiro", publicado pela Cosac Naify, em 2005.


No último sábado, enquanto acontecia a exibição do filme Vocação do Poder, no Cine Luz, dentro da I Mostra de Cinema Latino-Amricanos, o Descubra Curitiba conseguiu conversar um pouquinho com o cineasta Eduardo Escorel, que estava em Curitiba a convite do II Encontro de Direito e Cultura Latino-Americanos, organizado pelo Centro de Estudos Jurídicos, o CEJUR.

Eduardo Escorel tem 60 anos, começou sua carreira trabalhando como assistente de direção, depois passou a montador e com apenas 21 anos montou um doa mais importantes filmes do cinema nacional “Terra em Transe”, de Glauber Rocha. Depois ainda editou “Macunaíma”, “Eles Não Usam Black-tie” e “Cabra Marcado para Morrer”. Também é diretor de vários filmes, entre eles, uma série sobre a história da Política brasileira, como “1930 – Tempo de Revolução”, “32 – A Guerra Civil” e “35 – O Assalto ao Poder”.

Hoje, continua produzindo, dirigindo e editando. é professor de Cinema em cursos especiais, de pós e graduação. Seu filme mais recente, Vocação do Poder, que registra a campanha de novos candidatos a vereadores do Rio de Janeiro será lançado em DVD em breve.

Confira a entrevista:

DESCUBRA: Em geral, as pessoas reconhecem o seu trabalho pelos filmes que você trabalhou há vários anos, como o “Terra em Transe”, “Eles Não Usam Black-Tie”, “Macunaíma”, em todos eles você era bem novo e depois disso você também fez seus próprios filmes, teve outras produções... Primeiro eu queria que você me dissesse um pouco como é já começar no cinema participando de grandes trabalhos, com grandes pessoas. Você tinha consciência que ia fazer parte da história do cinema? Isso foi um peso, muita responsabilidade?
ESCOREL: Bom, eu serei eternamente a pessoa que montou “Terra em Transe” e eu nunca vou me livrar disso. Durante algum tempo isso tinha me incomodado um pouco, hoje não mais. Acho graça, já passou tanto tempo que eu já me relaciono com isso quase como se fosse uma outra pessoa. Já se passaram quarenta anos, quarenta anos é uma outra pessoa. Eu acho graça. Não me incomodo nada.

- E como foi passar a dirigir seus próprios filmes?
E isso que você disse de passar de ser montador de filmes para ser um diretor de filmes é uma passagem que tem a sua dificuldade.
Eu trabalhei com alguns diretores além do Glauber, como Joaquim Pedro de Andrade (Macunaíma), Leon Hiszman (Eles Não Usam Black-Tie), pessoas de personalidade forte, tanto no plano da psicologia individual quanto criativamente. Quando você se propõe a fazer um filme, um trabalho individual, depois de ter trabalhado 10 anos com essas pessoas, isso entre 1965 e 75, você se pergunta: “O que que eu vou fazer? Um trabalho como o do Glauber Rocha, como o do Leon Hiszman? O que que eu vou fazer?” Então isso é uma questão que, não é que seja difícil, mas ela aparece e você tem que encontrar uma brecha que não seja nenhuma dessas coisas, procurar uma experiência que você ainda não tinha tido. Definir sua própria personalidade como cineasta, que é uma coisa que você nunca pára de fazer, também porque as coisas vão mudando, você vai mudando.

Depois eu deixei muito tempo de montar, depois que editei o “Cabra Marcado Pra Morrer” eu fiquei muitos anos sem montar nada. Eu achava que ou eu era diretor ou eu era diretor. E isso também já é um problema resolvido na minha cabeça. Agora eu monto alguns filmes de uns amigos. Acabei de montar um filme que é uma das melhores experiências da minha carreira, um novo documentário do João Moreira Salles (“Nelson Freire”), comecei em agosto do ano passado e tá ficando pronto agora, uma experiência muito boa.

- Eu ia te perguntar se tinha uma preferência entre ser montador e diretor e pelo jeito não tem...
Tem. Eu prefiro trabalhar com projetos que estão sob a minha responsabilidade, que eu tenha a responsabilidade de criar, desenvolver, imaginar, realizar. Talvez seja um autoritarismo, quero que a palavra final seja minha... mas o que que eu vou fazer?

- Mas o editor acaba sendo a pessoa que divide bastante responsabilidade junto com o diretor, não é?
Num contexto de produção como o brasileiro, em que o diretor de maneira geral, é o autor, por maior que seja sua proximidade, seu envolvimento com ele, a palavra final é do diretor. Em outros contextos, em outros paises, o produtor tem a palavra final.

- Eu li uma entrevista sua em que você dizia que agora voltou a se divertir editando, graças a edição digital...
Ah sim! A edição digital deu à montagem um aspecto lúdico, e a possibilidade de experimentar coisas diferentes, que você não tinha antigamente. Antigamente era um corte e costura pesado, trabalho fisicamente muito cansativo, muito artesanal. Quando eu comecei a trabalhar ainda tínhamos que raspar a emulsão do filme, passar uma cola, superpor o filme. Cada corte levava meia hora. Se você queria desfazer aquele corte era um problema... Hoje em dia isso tudo acontece muito rápido. A edição digital traz algumas dificuldades que você não tinha antes, por exemplo, hoje você não tem mais o contato físico. Você tem mais dificuldades de conhecer o material, ele não está em lugar nenhum, ele está num HD e quando você quer ir a uma cena você vai direto nela. Na película, cada vez que você tinha que encontrar uma cena, você tinha que pôr um rolo e passar todas as cenas que vinham antes, e pra tirar o rolo, tinha que rebobinar e passar todas de trás pra frente. Isso, depois de um tempo, te dava um conhecimento do conjunto do material que depois de pouco tempo, você sabia de cabeça tudo. Hoje é muito mais difícil isso. Ainda mais porque hoje em dia você filma muito mais horas... Por exemplo, nesse filme (o Vocação do Poder, que estava sendo exibido enquanto conversávamos), ele tem uma hora e meia, gravamos quase 90 horas de material...

- E agora você é professor. Como foi se envolver na vida acadêmica?
(risos) Eu ainda to um pouco traumatizado, ainda não sei se vou continuar nessa área ou não. Em 2005 comecei a dar aulas em duas cadeiras no Departamento de Comunicação da PUC do Rio. Tem um lado interessante porque te obriga a estudar, a ler, a se preparar um pouco mais. Mas, tem uma certa dúvida pra mim se é possível ensinar alguém a fazer cinema, a dirigir um filme... Essas pessoas todas que estão fazendo o curso vão fazer o quê? Tem mercado pra todas elas? Então, em suma, ainda to me adaptando e não sei até quando vou continuar nessa área.

- Sobre “Vocação do Poder”, no filme, você acompanhou as pessoas por mais ou menos 8 meses...
é, de abril a outubro, mais ou menos isso. O filme é dirigido a quatro mãos, pelo José Jofillly e por mim. Nós trabalhamos com duas equipes, ele acompanhando três pessoas que estão no filme, eu, outras três. E no dia da eleição nós tínhamos seis equipes, uma com cada candidato até sair o resultado sair...

- E você, intimamente, tem uma conclusão sobre a vocação do poder, se existe, se você acha que as pessoas tem vocação pra isso?
O titulo é um problema, né? Podia ter um ponto de interrogação ou um ponto de exclamação. Eu não queria dar a solução, quero que as pessoas concluam por si mesmas...

- Mas você tem uma conclusão?
Não sei se é uma conclusão. Quando se faz um documentário hoje em dia, a grande motivação é a curiosidade. Você se interessa por alguma coisa, você se dispõe a fazer um vídeo sobre alguma coisa que você quer conhecer. Isso no passado nem sempre foi assim. Era muito comum a postura de quem fazia um documentário para ensinar as pessoas. Então, supostamente se você quer ensinar, é porque você já sabia tudo. Hoje o processo de feitura do documentário está ligado a uma experiência de descobrir alguma coisa. E nesse caso, deste filme, foi um pouco isso, uma curiosidade de entender esse mecanismo, de entender o que leva uma pessoa a querer ser vereador, a descobrir áreas da cidade que nós não conheceríamos se não tivéssemos fazendo o documentário. Então acho que essas curiosidades e outras foram satisfeitas...

- Pra acabar, duas coisas: quais são os projetos atuais?
O DVD do “Vocação do Poder” sai em agosto. Eu acabei de editar o documentário do João Salles, chama-se “Santiago”, e também estou trabalhando em três projetos meus: Um documentário sobre o Leon Hiszman; um documentário, que é o quarto de uma serie que eu venho fazendo desde 1990, sobre a história política brasileira. Agora é sobre o Estado Novo, de 1937 a 45; e estou prestes a iniciar a gravação de um terceiro projeto, sobre uma liderança política no interior do estado de Alagoas. é sobre um pequeno agricultor que é líder de uma liga de agricultores lá. Eu o conheci em 1996 e no ano passado voltei a procurá-lo, fiz uma gravação inicial com ele e pretendo voltar lá, não sei se em setembro ou no começo do ano que vem.

- E a última: você acha que o futuro cinematográfico do Brasil é promissor?
Olha, meus amigos reclamam muito que eu sou muito pessimista. Eu não acho isso, acho que sou realista. Eu vejo um quadro de dificuldades, de grandes impasses que perduram há vários anos, pela estrutura financeira, econômica, comercial da atividade de fazer cinema. Acho que o modelo de produção apoiado quase que exclusivamente num sistema de incentivos fiscais... Essa idéia do incentivo eu não sou contra, mas a ela tem implícita o compromisso de ser provisório. Você só consegue justificar, num país tão injusto e tão desigual como o Brasil, carrear recursos públicos pra produção de filmes, se é uma coisa provisória. Em caráter permanente eu acho complicado... Agora acabou de se prorrogada a Lei do Audiovisual, já são dez anos ou mais que esse processo está funcionado e não há uma acumulação de capital, de fortalecimento de produtoras. é um quadro problemático.

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