domingo, 14 de junho de 2009

Festivais - O Oposto da Bossa

http://bravonline.abril.com.br/conteudo/musica/festivais-oposto-bossa-473722.shtml

A música vibrante que se fazia nos bares e centros universitários foi para a televisão


Excelsior
Bettina Scheir - Excelsior

Por Maria Dolores

Em 1964 um novo tipo de música brasileira dominava bares, teatros, rodas de amigos e eventos universitários de São Paulo. Justamente quando a bossa nova vivia seu auge internacional, a música que ganhava força na capital paulista nada tinha a ver com sol, praia, mar e barquinhos. Um som vibrante, com letras que pretendiam dizer algo a mais. O produtor Solano Ribeiro foi um dos primeiros a perceber o que estava acontecendo — e a querer levar isso para a TV.

Contratado por José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, diretor da então poderosa TV Excelsior, Solano começou como coordenador de programação e, em pouco tempo, produzia seus próprios programas. Em outubro de 1964, promoveu uma série de espetáculos gravados nos estúdios da Excelsior e transmitidos no dia seguinte aos telespectadores. A popularidade dessas iniciativas deu força a Solano para emplacar na TV um projeto ousado para o Brasil: fazer um festival de música popular brasileira inspirado no Festival de San Remo, na Itália. À diferença do evento italiano, no qual gravadoras e editoras inscreviam as músicas, na versão brasileira os próprios compositores fariam a inscrição, ficando a cargo da organizadora a escolha dos intérpretes.

Solano queria que o 1o Festival Nacional de Música Popular Brasileira acontecesse no Guarujá, no litoral sul de São Paulo, um balneá­rio charmoso, assim como San Remo. Mas o patrocinador, a Rhodiaceta, empresa têxtil da farmacêutica Rhodia, bateu o pé e as etapas foram realizadas em diferentes cidades, com a grande final na sede da Excelsior no Rio de Janeiro. Solano conseguiu administrar os atritos com o patrocinador e, principalmente, com o diretor de marketing da Rhodia, Livio Rangan, que tentou direcionar o evento e os resultados a favor dos interesses da multinacional — e aos seus próprios.

Entre trancos e barrancos, incluindo a mudança de data três vezes, o festival aconteceu em abril de 1965. Foi o primeiro a ser transmitido ao vivo pela televisão nacional e inaugurou a fértil era dos festivais no Brasil. O sucesso do evento despertou o interesse das outras emissoras, como a Record, de organizar festivais semelhantes. Em 1966, a Excelsior promoveu a segunda edição, sem Solano Ribeiro. "Esse não é o meu festival, é o do Livio Rangan", disse antes de escrever a carta de demissão. Sem Solano e com a crise financeira enfrentada pela Excelsior, o 2o Festival não teve o mesmo vigor. Não houve novas edições, e, em 1970, a TV Excelsior encerrou as atividades.

NASCE UMA ESTRELA
E
lis Regina e Geraldo Vandré foram os grandes nomes das duas edições do Festival da TV Excelsior

Elis Regina entrou no 1o Festival da TV Excelsior, em 1965, como uma cantora relativamente conhecida. Saiu consagrada. Convidada por Solano Ribeiro, Elis interpretou duas músicas e classificou ambas para a final: Por um Amor Maior, de Francis Hime e Ruy Guerra, e Arrastão, de Edu Lobo e Vinicius de Moraes. Foi com Arrastão que a "Pimentinha" arrastou o público. Usando dois recursos que marcariam sua carreira a partir de então — os movimentos dos braços e a "desdobrada", uma espécie de ralentando no ápice da música —, ela cravou o seu lugar na música popular brasileira.

O festival, porém, não era uma competição para intérpretes, e sim para compositores como o desconhecido Edu Lobo, que não assistiu à transmissão da final porque ensaiava em São Paulo uma peça com Gianfrancesco Guarnieri. Como ainda não havia transmissão nacional ao vivo e o festival acontecia no Rio, os dois acompanharam o resultado pelo telefone. Quando o ator soube que o segundo lugar era de Baden Powell e Vinicius, com Valsa do Amor que não Vem, interpretada por Elizeth Cardoso, achou que não dariam outro prêmio para o poeta. "Você vai ganhar", disse Guarnieri, que ficou ao telefone até sair o resultado.

No 2o Festival Nacional de Música Popular Brasileira, no ano seguinte, o grande destaque foi o paraibano Geraldo Vandré, que havia participado da primeira edição como intérprete. Dessa vez, como compositor, viu sua Porta Estandarte vitoriosa, na interpretação de Airto Moreira e Tuca. Nenhuma outra cantora, no entanto, teve a mesma projeção de Elis, embora muitas esperassem isso. Se houve uma revelação de voz feminina, foi a de Clara Nunes. Geraldo Vandré, por sua vez, não só venceu o festival como se tornou, a partir dele, o ícone dos festivais.

POR TRÁS DAS CÂMERAS
Os bastidores dos festivais foram palco de grandes histórias e encontros

Hermeto ficou de fora porque era feio

O patrocínio da Rhodia ao festival causou diversas polêmicas. Dizia-se, e era verdade, que a empresa tentava direcionar o resultado de forma a favorecer músicos que participavam dos shows da Rhodia pelo Brasil. No final do 2o Festival, a equipe da multinacional disse que não patrocinaria mais shows itinerantes. Três meses depois, montou um novo show com Theo de Barros, Heraldo do Monte e Airto Moreira, compondo o Trio Novo. Na verdade, era para ser um quarteto, mas Livio Rangan, diretor de marketing da Rhodia, achou Hermeto Paschoal feio demais e o deixou de fora.

Elis apadrinhou Milton

O tímido e desconhecido Milton Nascimento foi defender Cidade Vazia, de Baden Powell e Lula Freire, na final do 2o Festival da TV Excelsior. Nos bastidores, cruzou com Elis Regina, que faria uma participação especial no encerramento do evento. Ela pediu que Milton fosse, no dia seguinte, à sua casa, na avenida Rio Branco, para mostrar composições. Ele foi, Elis ouviu, escolheu Canção do Sal para gravar no novo disco e apadrinhou Milton Nascimento.

O Toque do cocoreógrafo

Em 1964, Elis Regina fez o show Só se For Agora, no Bottle's, no Rio de Janeiro. O bailarino e coreógrafo americano Lennie Dale, que dirigia um show no Little Club, ao lado, resolveu ajudar na coreografia de Elis. Foi dele a ideia de a gaúcha usar os braços em movimentos rotatórios para trás e também de incluir um recurso bastante utilizado na Broadway, a "desdobrada". Ambos se tornaram marcas de Elis Regina no palco.

Um samba aí, por favor

O resultado das 36 finalistas do 1o Festival da TV Excelsior não agradou à imprensa e aos compositores do Rio de Janeiro, cidade sede da final. Isso porque não havia um samba sequer. Foi feita uma repescagem, os ânimos se acalmaram, Solano Ribeiro não ficou satisfeito com a mudança e a imagem do festival ficou arranhada.

Um arrastão que começou com Caymmi

Edu Lobo estava em uma festa na casa de Dorival Caymmi quando a turma começou a cantar História de Pescadores, de Dorival. Edu improvisou um contracanto para um trecho da música. Depois, em casa, transformou a improvisação em Arrastão. Mostrou para Vinicius de Moraes, que fez a letra enquanto Edu tocava a melodia no violão.

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