segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Crítica - Encontro no Labirinto



Revista BRAVO! | Julho/2009

Cineasta francês evoca o mito grego do minotauro numa instalação criada a partir da obra do pintor Iberê Camargo

Por Renata Peppl

• Assista ao filme-instalação Dédale, de Pierre Coulibeuf

Por três anos, a convite do curador brasileiro Gaudêncio Fidelis, o cineasta francês Pierre Coulibeuf debruçou-se sobre a obra do pintor gaúcho Iberê Camargo. Encerrou sua pesquisa encantado com as telas escuras da década de 1960 e o movimento circular sugerido na maioria das composições. Mais tarde, numa visita à sede da Fundação Iberê Camargo, em Porto Alegre, percebeu que a dinâmica cíclica do artista também havia impressionado o arquiteto português Álvaro Siza, que projetou um edifício curvilíneo para abrigar a produção de Iberê.

A filme-instalação Dédale, primeira criação de Coulibeuf rodada no Brasil, reforça e enriquece essa interpretação. O título remete ao mito do labirinto construído pelo arquiteto grego Dédalo para conter a fúria do minotauro. Os personagens — interpretados pelo ator brasileiro Matheus Walter e pela performer portuguesa Vania Rovisco — percorrem a forma em espiral do prédio da fundação como se alternassem incursões por dois planos: o exterior e o interior. Perdida entre os corredores e rampas, em confronto com as pinturas de Iberê, a figura feminina é a Ariadne da lenda, em busca de si própria e de seu par, Teseu. A densidade de Iberê Camargo é o próprio olhar do homem com cabeça de touro, a desafiar a inquietação da personagem.

Montada no quarto andar da instituição, Dédale reafirma o caráter experimental e crítico de Coulibeuf, um cineasta e artista visual de grande repercussão internacional, mas ainda pouco conhecido por aqui. Idealizador de trabalhos que se inspiram com frequência no processo criativo de outros artistas, ele já explorou o universo de colegas como a sérvia Marina Abramovic, o italiano Michelangelo Pistoletto e o belga Jan Fabre.

Apresentada em quatro projeções de larga escala nas paredes, exibidas repetidamente em momentos diferentes da história, e acompanhada por dez fotografias de frames excluídos da edição final, a peça de pouco mais de 26 minutos convida o espectador a se perder junto com os personagens e a preencher as lacunas da narrativa com sua bagagem pessoal, deixando-se levar pelas emoções. Trata-se de um pedido para também sentir — e não só pensar — o encontro de Coulibeuf com Iberê. Além de oferecer uma nova ótica sobre o legado de um dos maiores nomes da arte moderna brasileira, Dédale pode ampliar ainda o alcance do trabalho dos dois artistas, estimulando não só o interesse brasileiro pelo cineasta francês, mas também a projeção internacional da obra de Iberê Camargo.


Renata Peppl é jornalista.

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