segunda-feira, 3 de agosto de 2009

"Francamente, Querida, Não Estou Nem Aí"

A partir da esquerda, Vivien Leigh, Clark Gable e o diretor Victor Fleming no set de filmagens.
Conflito de egos marcou a premiação da produção



Revista BRAVO! | Agosto/2009

O diretor Victor Fleming dirigia atrizes usando métodos heterodoxos. Com essa idiossincrasia e várias qualidades, criou dois dos maiores clássicos do cinema americano, “...E o Vento Levou” e “O Mágico de Oz” — que completam sete décadas neste ano

Por David Denby

O milionário americano Howard Hughes, cuja perspicácia em determinados assuntos (excetuando-se a aeronáutica e as belas mulheres) raramente era levada a sério, disse, uma vez, algo inteligente sobre os méritos de dois diretores de cinema. Sua opinião foi dada no início de 1939, quando George Cukor principiava as filmagens de ...E o Vento Levou. O filme — uma adaptação do sucesso de mil páginas de Margaret Mitchell, lançado em 1936, sobre o sul dos Estados Unidos, a Guerra Civil e a Reconstrução — era a maior e a mais cara produção de Hollywood até aquele momento. Tinha elenco numeroso, sets gigantescos (a cidade de Atlanta foi queimada e, depois, reconstruída) e centenas de figurantes barbados e enfaixados perambulando pelo cenário. A produção, no entanto, rumava para o desastre. O roteiro podia ser gentilmente descrito como uma bagunça, e o astro — Clark Gable — não se sentia confortável nas filmagens. Os primeiros rumores desagradaram David O. Selznick, produtor lendário e meticuloso que dominava cada aspecto do filme. Ele acabou por demitir Cukor.

Em seu lugar, Selznick colocou Victor Fleming, que, na época, dirigia outro grande filme, O Mágico de Oz. Fleming era um homem vigoroso e engenhoso, mas poucos o consideravam um artista. A mudança agradou a Clark Gable, mas não às duas atrizes principais — a jovem Vivien Leigh, recém-chegada da Inglaterra e ainda não muito famosa, e Olivia de Havilland, que era, então, namorada de Howard Hughes. Ambas confiavam em Cukor, conhecido como "diretor de atrizes", e Olivia de Havilland levou suas apreensões para Hughes, que disse: "Não se preocupe. Tudo vai dar certo. George e Victor têm o mesmo talento, só que o de Victor foi esculpido em barro, não em mármore".

Hughes estava correto. O talento de Fleming não era "o mesmo" que o de Cukor, mas ele era o homem certo para ...E o Vento Levou, depois de ter feito um trabalho inventivo e poderoso em O Mágico de Oz. Mas Fleming, cujo talento não fluía suave e sutilmente, mas sim brutalmente, em ondas de energia e sentimento, foi praticamente esquecido — e poucos se lembram dele neste 2009 em que se completam 70 anos dos dois clássicos do cinema americano. Nos anos 60 e 70 do século passado, os críticos franceses que inventaram a expressão "cinema de autor" só falavam de Cukor, Hitchcock, Preminger, John Ford, Howard Hawks, Ernst Lubitsch, Josef von Sternberg, Frank Capra — e ignoravam Fleming. Isso apesar de suas produções de 1939 serem, provavelmente, as mais vistas na história do cinema americano — não apenas bons filmes, mas com temáticas que fazem parte do inconsciente de gerações de espectadores.

...E o Vento Levou, com seus escravos felizes — símbolos da nobre labuta — contra um céu avermelhado, tem seus momentos enfurecedores e embaraçosos; o racismo kitsch é, infelizmente, parte do passado da nação. O que permanece marcadamente atual no filme é o combate central entre a Scarlett O'Hara de Vivien Leigh e o Rhett Butler de Clark Gable, ambos querendo estar por cima em qualquer situação. Margaret Mitchell criou o conflito, mas foi Fleming que fez com que os atores o personificassem. Já com O Mágico de Oz, a versão cinematográfica da mágica terra de Oz, com sua combinação de liberdade e desconforto, felicidade e medo, tornou-se a visão universal da própria imaginação. Por ser o elemento comum aos dois filmes, já é hora de a contribuição de Fleming sair da sombra.

No aniversário de 70 anos desses clássicos, há o lançamento nos Estados Unidos de novas edições em DVD (no Brasil, há versões de colecionador dos dois filmes disponíveis no mercado) e a chegada de dois bons livros: Victor Fleming: An American Movie Master (Victor Fleming: Um Mestre do Cinema Americano), uma biografia que renova a reputação do diretor, escrita por Michael Sragow, crítico de cinema do Baltimore Sun; e Gone with the Wind' Revisited (...E o Vento Levou Revisitado), de Molly Haskell — cujo estudo de 1973, Da Reverência ao Estupro, continua sendo um texto-padrão sobre a mulher no cinema. Molly Haskell vive em Manhattan há mais de 40 anos, mas cresceu em Richmond, Virgínia, e, quando menina, ficou obcecada com a bela sulista rebelde de Margaret Mitchell, Scarlett, personificada no filme por Vivien Leigh — egoísta, gananciosa, namoradeira, intratável demônio de olhos verdes, que é uma heroína em tudo.

Quando Selznick o chamou, Fleming não havia lido o livro de Mitchell, mas deu uma olhada no roteiro e disse ao produtor: "É uma droga". Selznick detinha os direitos do livro desde sua publicação e, em 1936, contratou o dramaturgo e roteirista Sidney Howard para que o adaptasse. Howard entregou uma versão fiel, mas muito longa, e Selznick começou a mexer nela. Em 1939, quando a produção começou e centenas de assalariados esperavam sem ter o que fazer, Selznick procurou Ben Hecht, o maior e mais cínico roteirista de Hollywood. Hecht concordou em fazer o trabalho contanto que não tivesse de ler o livro. Pegaram, então, a versão de Howard. Hecht ia ouvindo enquanto Selznick e Fleming liam em voz alta — Selznick como Scarlett, Fleming como Rhett. Estranhamente, pode ter sido a chave do sucesso do filme: Selznick, um incansável mulherengo, tinha, apesar de tudo, uma compreensão delicada e genuína dos sentimentos femininos e, de maneira crucial, identificava-se com Scarlett. Fleming, alto, forte e muito belo — Selznick referia-se a ele como "o homem mais atraente de Hollywood " —, não perseguia as mulheres; elas o perseguiam. O diretor era tido por todas como "o homem ideal" — astuto, engraçado, franco e exigente —, um temperamento muito parecido com o do pragmático Rhett Butler. O extraordinário equilíbrio entre Scarlett e Rhett pode ter-se formado nesse momento.

Gable sempre se preocupou com sua habilidade em personificar Rhett, um papel emocionalmente exigente, e ansiava pelo apoio de Fleming. Já haviam trabalhado juntos, em 1932, no delicioso drama romântico Terra de Paixões, quando o ator contracenou com Jean Harlow — Gable já havia absorvido muito do humor masculino brusco de Fleming. Cukor, por outro lado, como foi observado na época, deixava o ator nervoso. Gable temia que o filme pendesse para o lado das atrizes, especialmente Vivien Leigh. Recentemente, surgiram especulações mais picantes: o ator, no início de sua carreira, fora um gigolô e tivera alguns relacionamentos homossexuais. Nessa versão, consta que pessoas do círculo de Cukor faziam fofocas sobre seu passado e Gable, cioso de sua reputação de rei "hetero" de Hollywood, ficou preocupado. Assim, a presença de Fleming restituiu a autoconfiança do astro. O diretor era um padrão de masculinidade a ser seguido. Aos 20 anos, Fleming aproximou-se de Howard Hawks e, no espírito "macho" de competição, aprenderam aviação, construí­ram e voaram em aviões capengas que espatifavam o trem de pouso ao chegar ao solo. As estripulias arriscadas, a diversão vigorosa e radical, são parte essencial do caráter destemido que aparece em inúmeros filmes e, por bem ou por mal, fazem parte do ideário masculino americano no século 20.

A crítica "autorista" procura padrões recorrentes, a união incandescente da ideia e do estilo visual - o tal talento esculpido em mármore menos adaptável. Não se acham esses padrões nem um tema visual consistente nos filmes de Fleming, o artista moldável como barro molhado. Mas pode-se sentir a energia poderosa da fábula — a evolução emocional de alguns personagens claramente delineados através de uma história bem montada, seguindo para uma série de confrontos dolorosos e um clímax satisfatório. Em resumo, parece difícil imaginar alguém que não Fleming dirigindo O Mágico de Oz, o maior dos filmes com temática infantil. No entanto, ele também não foi a primeira opção para a empreitada. Em outubro de 1938, as filmagens começaram nos estúdios da MGM sob a direção de Richard Thorpe, que havia dirigido uma produção de Tarzan em 1936. As filmagens de Thorpe eram insípidas, e o produtor, Mervyn LeRoy, desprezou-as. (Curiosamente, Cukor também trabalhou em Oz. Depois que Thorpe foi demitido, Cukor apareceu, mudou a maquiagem e o penteado de Judy Garland e sumiu; o assunto não o interessou.) LeRoy, então, procurou Fleming, que a princípio disse não mesmo estando a produção já pronta, incluindo o roteiro e os cenários. No entanto, Fleming havia se casado — com Lu Rosson, que havia sido mulher de um amigo seu — e tinha duas filhas pequenas que eram sua paixão. Ele deixou poucos bilhetes e cartas, mas, pelo que escreveu sobre Oz para uma publicação interna da MGM, tem-se a impressão de que mudou de ideia porque queria fazer um filme que adultos e crianças pudessem ver.

Os roteiristas Noel Langley, Florence Ryerson e Edgar Allan Woolf adaptaram O Maravilhoso Mágico de Oz, romance clássico de L. Frank Baum, de 1900. Fleming não dirigiu as cenas iniciais do filme, feitas em preto-e-branco. Elas foram rodadas posteriormente por King Vidor, pois Fleming a essa altura já estava fazendo ...E o Vento Levou. Mas a parte principal, a partir do momento em que Dorothy abre a porta para Oz e o filme adquire um tecnicolor brilhante — um espanto em 1939 e maravilhoso ainda hoje —, pertence a Fleming.

A imortalidade de Dorothy, personificada por Judy Garland, não foi alcançada facilmente. Sua dedicação e suavidade ainda são tocantes, como a imagem idealizada da criança; mas Fleming queria que Dorothy fosse durona também, e a atriz deu-lhe muita dor de cabeça. Em uma cena, Judy dá uma paulada no focinho do Leão Covarde. O gemido do ator foi tão engraçado que a atriz não aguentou, perdendo o controle e caindo na gargalhada durante vários takes. Ela ficava atrás de uma árvore do cenário dizendo a si mesma: "Não vou rir, não vou rir". Porém, quando estragou mais uma cena, Fleming deu-lhe um tapa na cara e disse: "Agora chega! Vá para seu camarim" (tapas eram marcas registradas de Fleming, dentro e fora de cena). Ela voltou um tempo depois e continuou a filmagem. No fim, sua Dorothy, criada pela tia na época da Depressão (o tio mal aparece), mostra-se surpreendentemente forte. O modo como Fleming a dirigiu fez dela uma garota simplória que se agarra ferozmente a seus desejos e esperanças em meio a bruxas, macacos voadores e pessoinhas esganiçadas.

Esse método heterodoxo de dirigir aparece também em ...E o Vento Levou. Nas filmagens, Fleming importunava Vivien Leigh; algumas vezes, chegavam a discutir tanto quanto Rhett e Scarlett. Depois de um dia duro, ele disse: "Senhorita Leigh, enfie esse roteiro no seu real traseiro inglês", uma variação pouco elegante de "Francamente, querida, não estou nem aí", a famosa frase de Rhett Butler na cena final do filme. Essa antipatia mútua pode ter mantido vivo o filme. Em uma das cenas em que Rhett abraça Scarlett, Fleming a orientou: "Resista, mas não muito". Então, quando Gable se aproximou, ela lhe deu um tapa. Essa atitude, imagina-se, pode ter sido uma retaliação dirigida tanto a Fleming quanto a Rhett. De qualquer modo, Fleming gostou da cena. Essa rispidez era dirigida a Gable, também, com resultados sem precedentes. O ator começou o filme temendo que seu passado lhe desse uma aura efeminada, mas acabou cedendo às insistentes orientações de seu mentor para feminilizar as emoções como nunca fizera antes (nem depois), o que incluiu perplexidade por ser rejeitado por uma bela mulher, desespero crescente e pesar lacrimoso.

O melhor filme de Fleming após seus exaustivos trabalhos de 1939 foi uma nova versão de O Médico e o Monstro (1941), com Spencer Tracy no papel principal e a incrivelmente sexy Ingrid Bergman — última atriz namorada de Fleming — como a vítima do monstro. Ele morreu oito anos mais tarde, com problemas cardíacos, aos 59 anos, nos braços de sua esposa, Lu, caindo imediatamente no esquecimento.

Como a história o vê? Fleming não dirigiu totalmente nenhum de seus dois clássicos e não era, por definição, um autor. Mas sua ausência na lista dos monstros sagrados indica uma falha na teoria de autor, não nele próprio — um preconceito contra os generalistas, os não obcecados, os "camaleões", como diz Steven Spielberg, os que se reinventam em cada novo projeto, fazendo bons filmes com diferentes estilos. Quando o talento de um diretor é esculpido em barro, impõe-se com um humor nu e cru, resiliência, vigor e força. Os historiadores do cinema deveriam celebrar, como a audiência, não apenas os gênios obcecados, mas também os valentões adaptáveis que fizeram os maiores filmes de entretenimento de Hollywood.

David Denby é repórter e crítico de cinema da revista americana The New Yorker, na qual esta reportagem foi publicada originalmente. Tradução de Diana Ricci Aranha.

OS DVDS
...E o Vento Levou, de Victor Fleming. Com Clark Gable, Vivien Leigh, Leslie Howard e Olivia de Havillan. Edição especial com imagens restauradas, em quatro DVDs (Warner Home Video)

O Mágico de Oz, de Victor Fleming. Com Judy Garland e Ray Bolger. Edição de colecionador com imagens restauradas, em três DVDs (Warner Home Video)

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