quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Lançada a biografia de Padre Cícero


 SYLVIA COLOMBO
editora da Ilustrada
 
Tudo começou em 1889, quando Cícero, então um jovem sacerdote de Juazeiro do Norte, ao oferecer a comunhão à beata Maria de Araújo, viu a hóstia simplesmente... sangrar. O evento se repetiria inúmeras vezes, com diferentes audiências. Médicos foram chamados, mas não conseguiram explicar o fenômeno, considerado, a partir de então, um milagre pela população local. Os homens da Igreja, porém, não acreditaram no que se passava. Julgaram Cícero um mistificador, um explorador da ingenuidade popular.


Padre Cícero Romão Batista (1844-1934)

 Os relatos do livro referentes a passagens supostamente milagrosas são muito vívidos. Apesar de não ser religioso, Lira Neto não nega de modo taxativo esses eventos. "Algo aconteceu ali", diz. No texto, porém, deixa transparecer certa ironia com relação a episódios que parecem delirantes. "Uso um pouco de humor. Por outro lado, alimento um profundo respeito pela devoção alheia."
Para reconstruir tais eventos e o diálogo entre autoridades da Igreja no Brasil e destes com Roma e o tribunal do Santo Ofício, Lira Neto contou com o acervo da Cúria do Crato, onde estão mais de 900 cartas.

Também conseguiu uma fonte de informações valiosa no Vaticano, que não revela. O livro mostra como, suspenso das atividades sacerdotais, Cícero voltou-se para a política. Lira Neto acha que, assim, demonstrou capacidade de reinvenção. "Cícero foi engolfado pelo instante histórico que o gerou. Mas soube se posicionar e sobreviveu a outros beatos, varridos pela história."

Samba e cachaça
 
O biógrafo diz querer desconstruir a imagem de místico caricato do líder. Considera-o um homem inteligente e sagaz ao fazer alianças. E muito, mas muito conservador. Era obcecado por reconstituir famílias desagregadas. Posicionava-se contra o samba e a cachaça. O tom de seus discursos, muitas vezes, era apocalíptico.

O autor chama a atenção para os dois universos diferentes que o formaram. "Tinha um pé no universo sertanejo, mas carregava a rigidez do seminário em que estudou. Não era culto, mas lia livros de autores ocultistas. Tinha dificuldade na articulação das ideias e concebia o mundo com simplicidade.
Mas era hábil nas relações e, com isso, manteve-se." Lira Neto trabalhou mais de dez anos no jornal "O Povo" como repórter e, depois, como ombudsman da publicação. Também é autor das biografias "Maysa" e "Castello".

Conta que sempre sonhou em escrever a história do Padre Cícero, mas que achava o personagem "grande demais". A perspectiva de mexer com documentos inéditos o estimulou a ir em frente com o projeto. O jornalista não tem dúvida de que Cícero será absolvido.

Considera que o interesse da Igreja Católica no processo é o de deter o avanço da Igreja Evangélica no Brasil ao atrair para si um ícone popular que costuma levar mais de 2,5 milhões de peregrinos todos os anos a Juazeiro do Norte.

Enquanto isso, a biografia alça voo. Já foi feito um acordo com o produtor Rodrigo Teixeira para uma versão cinematográfica. O filme, planejado para 2011, será dirigido por Sergio Machado ("Cidade Baixa").

2 comentários:

Pedra do Sertão disse...

Oi, Gilmara,

muito me interessa essa temática. Minha família por parte de mãe é de Juazeiro do Norte e possui vínculos muito estreitos com a história de Padre Cícero. Meu avó - que era marceneiro - confeccionou o caixão dele e há outras histórias da família que resgatam uma memória religiosa.
abraço,

Araceli Sobreira Benevides

Valdecy Alves disse...

Veja documentário recente que fiz sobre o Padre Cícero: PADIM CIÇO, SANTO OU CORONEL? Podendo acessar através do meu blog:

www.valdecyalves.blogspot.com