quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Lançada a biografia de Padre Cícero


 SYLVIA COLOMBO
editora da Ilustrada
 
Tudo começou em 1889, quando Cícero, então um jovem sacerdote de Juazeiro do Norte, ao oferecer a comunhão à beata Maria de Araújo, viu a hóstia simplesmente... sangrar. O evento se repetiria inúmeras vezes, com diferentes audiências. Médicos foram chamados, mas não conseguiram explicar o fenômeno, considerado, a partir de então, um milagre pela população local. Os homens da Igreja, porém, não acreditaram no que se passava. Julgaram Cícero um mistificador, um explorador da ingenuidade popular.


Padre Cícero Romão Batista (1844-1934)

 Os relatos do livro referentes a passagens supostamente milagrosas são muito vívidos. Apesar de não ser religioso, Lira Neto não nega de modo taxativo esses eventos. "Algo aconteceu ali", diz. No texto, porém, deixa transparecer certa ironia com relação a episódios que parecem delirantes. "Uso um pouco de humor. Por outro lado, alimento um profundo respeito pela devoção alheia."
Para reconstruir tais eventos e o diálogo entre autoridades da Igreja no Brasil e destes com Roma e o tribunal do Santo Ofício, Lira Neto contou com o acervo da Cúria do Crato, onde estão mais de 900 cartas.

Também conseguiu uma fonte de informações valiosa no Vaticano, que não revela. O livro mostra como, suspenso das atividades sacerdotais, Cícero voltou-se para a política. Lira Neto acha que, assim, demonstrou capacidade de reinvenção. "Cícero foi engolfado pelo instante histórico que o gerou. Mas soube se posicionar e sobreviveu a outros beatos, varridos pela história."

Samba e cachaça
 
O biógrafo diz querer desconstruir a imagem de místico caricato do líder. Considera-o um homem inteligente e sagaz ao fazer alianças. E muito, mas muito conservador. Era obcecado por reconstituir famílias desagregadas. Posicionava-se contra o samba e a cachaça. O tom de seus discursos, muitas vezes, era apocalíptico.

O autor chama a atenção para os dois universos diferentes que o formaram. "Tinha um pé no universo sertanejo, mas carregava a rigidez do seminário em que estudou. Não era culto, mas lia livros de autores ocultistas. Tinha dificuldade na articulação das ideias e concebia o mundo com simplicidade.
Mas era hábil nas relações e, com isso, manteve-se." Lira Neto trabalhou mais de dez anos no jornal "O Povo" como repórter e, depois, como ombudsman da publicação. Também é autor das biografias "Maysa" e "Castello".

Conta que sempre sonhou em escrever a história do Padre Cícero, mas que achava o personagem "grande demais". A perspectiva de mexer com documentos inéditos o estimulou a ir em frente com o projeto. O jornalista não tem dúvida de que Cícero será absolvido.

Considera que o interesse da Igreja Católica no processo é o de deter o avanço da Igreja Evangélica no Brasil ao atrair para si um ícone popular que costuma levar mais de 2,5 milhões de peregrinos todos os anos a Juazeiro do Norte.

Enquanto isso, a biografia alça voo. Já foi feito um acordo com o produtor Rodrigo Teixeira para uma versão cinematográfica. O filme, planejado para 2011, será dirigido por Sergio Machado ("Cidade Baixa").

terça-feira, 17 de novembro de 2009

"É uma pena que este regime de fato esteja sendo apoiado pelos Estados Unidos".


 Presidente deposto de Honduras, Manuel Zelaya


Tegucigalpa, 17 nov (EFE).- O presidente deposto de Honduras, Manuel Zelaya, disse hoje que "é uma barbaridade" que o Congresso desse país venha a decidir sobre sua restituição em 2 de dezembro, após as eleições de 29 de novembro.

"É uma barbaridade", disse Zelaya à Agência Efe, em uma conversa por telefone, depois que se informou hoje que o Congresso abordará em 2 de dezembro a restituição ou não no poder do presidente deposto.

"Fizemos muito bem em nos retirar desse jogo sujo de Micheletti", disse Zelaya em um breve comentário, em referência a sua decisão de dar por fracassado o acordo com o presidente de fato, Roberto Micheletti, devido à intenção deste último de liderar um Governo de unidade e reconciliação.
O presidente do Congresso Nacional hondurenho, José Alfredo Saavedra, disse hoje a jornalistas que, junto com os outros membros do conselho de direção, decidiram "oficializar a convocação para que, em 2 de dezembro, ocorra a sessão do plenário para analisar o tema" de Zelaya.

Os deputados resolverão sobre Zelaya três dias depois das eleições de 29 de novembro, que a comunidade internacional ameaça não reconhecer se antes não houver a restituição do governante deposto pelo golpe de Estado de 28 de junho.

Zelaya acrescentou que "é uma pena que este regime de fato esteja sendo apoiado pelos Estados Unidos".Na segunda-feira, Zelaya também disse à Efe que, quando os Estados Unidos decidiram apoiar as eleições de 29 de novembro, após ter afirmado que rejeitava o golpe de Estado, fortaleceu o regime de fato presidido por Micheletti.

Zelaya deve receber hoje o subsecretário dos EUA adjunto para o Hemisfério Ocidental, Craig Kelly, na Embaixada do Brasil em Tegucigalpa, onde se encontra desde que retornou ao país, em 21 de setembro.
Um porta-voz de Zelaya disse à Efe que "o presidente receberá esta tarde o senhor Kelly", que chegou hoje à capital hondurenha, segundo confirmou a Embaixada dos Estados Unidos em Tegucigalpa.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Palestinos aproveitam data para protestar contra muro na Cisjordânia

09/11/2009 - 13h45

Após 20 anos da queda do muro de Berlim, os palestinos lançam a campanha "Unidos Contra o Apartheid" com a esperança de que a barreira construída por Israel na Cisjordânia também caia por terra. "O mundo não pode aceitar no século 21 que Israel construa um muro do apartheid três vezes maior que o de Berlim e duas vezes mais alto", disse à agência Efe Jamal Juma, da ONG "Contra o Muro".

A organização realizará atos simultâneos ao longo da semana para lembrar ao mundo que o território da Cisjordânia está marcado por uma cicatriz de ferro, arame e concreto que divide e fragmenta as terras palestinas, separando seus habitantes e, em alguns casos, impedindo sua passagem.

Os atos iniciaram na última sexta-feira, quando um grupo de ativistas colocou uma barreira de plástico na localidade de Bilin, palco de protestos semanais contra o muro, na qual se lia: "Berlim, 1989. Palestina?".

O parapeito foi desmanchado pelos soldados israelenses, que quase todas as sextas-feiras entram em confronto com manifestantes em Bilin utilizando gás lacrimogêneo, bombas de efeito moral e balas de aço recobertas de borracha.

Na próxima quinta-feira (12), ativistas locais e internacionais colocarão abaixo uma pequena réplica do Muro alemão no povoado próximo a Belém, e farão uma chamada à comunidade internacional para que abrace a campanha que promove o boicote e sanções a Israel até que o país destrua a barreira.

Nos próximos dias, serão realizadas em diversas partes do mundo ações denunciando a polêmica barreira, com projeções de filmes, conferências e mesas-redondas na Europa, América do Norte, Austrália e países latino-americanos como a Colômbia, Chile, Argentina e Paraguai. "Pelo menos 20 países estarão mobilizados nesta semana para lembrar ao mundo que os muros, o racismo e o apartheid caíram no século 20 e para proclamar que não podemos iniciar o século 21 com muros como o que está construindo Israel", indica Juma.

O ativista palestino denuncia que a barreira "confiscará parte das terras da Cisjordânia e deixará os palestinos fechados e fragmentados em três cantões principais subdivididos em diferentes regiões incomunicáveis".

Até agora e segundo dados da ONU, Israel já completou cerca de 400 dos 710 quilômetros previstos da divisória, dos quais 85% serão erguidos dentro do território cisjordaniano e só 15% na Linha Verde, a fronteira imaginária aceita internacionalmente após a primeira guerra árabe-israelense de 1948-1949.

"O muro já deixou 97 comunidades palestinas completamente isoladas: rodeadas pelos três flancos pelo muro, colônia judias e as estradas do apartheid [pelas quais só podem circular veículos com placas israelenses]", explica Juma. Além disso, a barreira isola Jerusalém Oriental da Cisjordânia, o que "deixa 360 mil palestinos desligados de seu povo e rodeados por um muro de 181 quilômetros. Isto impedirá qualquer acordo para a criação de um Estado palestino".

Essa situação também deixa à Cisjordânia sem recursos hídricos e sem suas principais terras agrícolas, como o vale do Jordão, desliga as comunidades e, ainda, dificulta o acesso às escolas, universidades e inclusive aos hospitais.

Israel começou em 2002, durante a Segunda Intifada, a levantar o que denomina "cerca de segurança", que na maior parte de seu traçado é de alambrado, mas quando passa por núcleos urbanos se transforma em um paredão de concreto de oito metros de altura.

O Exército israelense considera que esta construção é imprescindível para garantir a segurança e impedir a entrada em seu território de terroristas palestinos e argumenta que desde que existe o número de atentados em seu território diminuiu drasticamente. Por isso, continua com sua construção contrariando a sentença não vinculativa da Corte Internacional de Justiça (CIJ), que em 2004 declarou a barreira ilegal.

domingo, 8 de novembro de 2009

A divisão da Alemanha - PARTE III


Willy Brandt e a abertura para o Leste

Em janeiro de 1963, a reconciliação com a França atingiu seu auge com a assinatura do Tratado do Eliseu. A integração da Europa prosseguiu com a criação da Comunidade Européia em 8 de abril de 1965. No mesmo ano, a RFA estabeleceu relações diplomáticas com Israel ─ um passo significativo no caminho do entendimento entre os povos, após o genocídio de mais de 5 milhões de judeus durante o nazismo.

O chefe de governo alemão Willy Brandt, no Memorial ao Gueto de Varsóvia (06/12/70)

O chefe de governo alemão Willy Brandt, no Memorial ao Gueto de Varsóvia (06/12/70)


Em 21 de outubro de 1969, assumiu o governo o social-democrata Willy Brandt, em coligação com o Partido Liberal. Ex-combatente da resistência contra Hitler, Brandt cunhou o conceito de Ostpolitik (política de abertura para o Leste), que lhe valeu o Prêmio Nobel da Paz em 1971.

A fim de melhorar as relações com a União Soviética, a Polônia e os países do Pacto de Varsóvia, o governo Brandt assinou os tratados de Moscou e de Varsóvia, em 1970. Em ambos, os signatários afirmavam não ter quaisquer reivindicações territoriais. Frente à Polônia, Bonn confirmou a inviolabilidade da fronteira ao longo dos rios Oder e Neisse. O momento histórico de reconciliação ficou gravado na imagem de Willy Brandt ajoelhado diante do memorial do Gueto de Varsóvia, em dezembro de 1970. A etapa seguinte foi o tratado firmado com a Tchecoslováquia, em 1972.

Paralelamente, Bonn e Berlim Oriental sondavam as possibilidades de um melhor entendimento. Em março de 1970, reuniram-se pela primeira vez os chefes de governo das duas Alemanhas, Willy Brandt e Willi Stoph, em Erfurt (RDA), seguindo-se um segundo encontro, em maio, em Kassel (RFA). O Tratado das Quatro Potências sobre Berlim, assinado por EUA, União Soviética, França e Reino Unido em 1971, estabeleceu que os setores ocidentais de Berlim não eram parte integrante da República Federal da Alemanha. Esta, porém, podia representá-los. Este tratado foi condição para que o Parlamento de Bonn ratificasse os demais, assinados com Moscou, Varsóvia e Praga.

Um dos primeiros atos de Willy Brandt após sua reeleição em 1972 foi concluir o Tratado de Base entre a RFA e a RDA, assinado antes do fim do ano. Nele, os dois Estados abdicavam do uso da violência e reconheciam suas fronteiras, prometendo respeitar a autonomia um do outro. "Dois Estados alemães numa só nação" ─ com a fórmula cunhada por Brandt, consumava-se uma grande mudança na política entre as duas Alemanhas. Aos poucos, a coexistência pacífica deveria abrir caminho para a cooperação. Em setembro de 1973, RFA e RDA foram admitidas juntamente nas Nações Unidas.

Helmut Schmidt e os foguetes

Willy Brandt renunciou em 7 de maio de 1974, após a descoberta de um espião da RDA na Chancelaria Federal. O novo chefe de governo, Helmut Schmidt, deu continuidade à coalizão entre o Partido Social Democrata e o Partido Liberal, concentrando-se inicialmente nos problemas econômicos, já que o desemprego ultrapassara, pela primeira vez no pós-guerra, a marca de 1 milhão. Atentados terroristas de esquerda e o surgimento da Fração do Exército Vermelho (RAF, ou grupo Baader-Meinhof) dominaram a política interna e os debates sobre medidas judiciais para conter o terrorismo.

No contexto internacional, a invasão do Afeganistão por tropas soviéticas e a lei marcial na Polônia colocaram um fim a uma década de distensão na política. A instalação de mísseis de médio alcance na União Soviética levou à Dupla Resolução da Otan, de dezembro de 1979. Isso provocou grandes controvérsias na República Federal da Alemanha, culminando no surgimento de um movimento pacifista contra o estacionamento de mísseis norte-americanos em território alemão.

Ao defender o rearmamento da Otan como forma de fortalecer a defesa do país, além de enfraquecido porque o Partido Liberal abandonara a coalizão, Helmut Schmidt acabou perdendo o apoio de parte da social-democracia.

A era Kohl

O chanceler federal Helmut Kohl (dir.) recebe o chefe de Estado e de governo da Alemanha Oriental, Erich Honecker, em Bonn (07/09/87)

O chanceler federal Helmut Kohl (dir.) recebe o chefe de Estado e de governo da Alemanha Oriental, Erich Honecker, em Bonn (07/09/87)



Seu sucessor, Helmut Kohl, liderou a partir de 1982 uma coalizão da União Democrata Cristã (CDU) e União Social Cristã (CSU) com o Partido Liberal (FDP), mantendo a continuidade na política de segurança do governo alemão. Em novembro de 1983, o Parlamento alemão aprovou a resolução do rearmamento. No entanto, os Pershing e mísseis de cruzeiro estacionados na RFA logo foram retirados, graças ao novo diálogo sobre desarmamento, iniciado em meados dos anos 80.

Helmut Kohl bateu o recorde de Adenauer no cargo de chanceler federal, permanecendo 16 anos no poder. Sua política de saneamento das finanças públicas teve como resultado anos seguidos de crescimento econômico, que culminaram com um aumento de 5,5% do PIB em 1990, o ano da reunificação alemã. O desemprego ficou em torno de 2 milhões de pessoas, apesar do grande número de empregos criados.

Para surpresa de muitos, o governo Kohl deu continuidade à política de aproximação com a Alemanha Oriental e o bloco Leste. A perestroika e a glasnost, as grandes reformas introduzidas por Mikhail Gorbatchov, em breve mudariam a face do mundo.

O chefe de Estado da RDA, Erich Honecker, fez uma visita oficial a Bonn em setembro de 1987. No mesmo ano, quando Berlim festejava 750 anos de sua fundação, o presidente norte-americano Ronald Reagan visitou a cidade dividida. "Sr. Gorbatchov, abra esse portão, derrube esse muro!", conclamou Reagan. O que muitos desejavam, mas parecia não passar de um sonho, acabou acontecendo em novembro de 1989.

A divisão da Alemanha - PARTE II


Cartaz de propaganda da República Democrática Alemã para comemorar os 25 anos de construção do Muro de Berlim


RFA e RDA: dois caminhos diferentes
De 1949 até o início da década de 70, o desenvolvimento da República Federal da Alemanha foi marcado por uma rápida reconstrução do país, do Estado e das instituições democráticas, pela recuperação econômica impulsionada pelo Plano Marshall e pela estabilidade interna. Na política interna, os esforços concentraram-se em superar a divisão da Alemanha, ou em atenuar suas conseqüências. Na política exterior, a RFA ligou-se estreitamente ao bloco liderado pelos EUA e participou do processo de integração européia nas comunidades que foram surgindo no pós-guerra.
A RDA, por sua vez, filiou-se ao Pacto de Varsóvia. Ainda que a Alemanha comunista não tivesse plena autonomia em relação a Moscou, o chefe de Estado e do partido, Erich Honecker, caracterizou sua versão de "socialismo realmente existente". No Leste Europeu, a República Democrática Alemã era tida como exemplo de um país socialista que conseguiu dar um bom nível de vida à sua população.
No entanto, no avançar dos anos 70, os alemães-orientais perceberam que a meta do Estado de alcançar o nível da RFA não passava de ilusão. Não havia recursos suficientes para financiar a mecanização e automatização da produção e faltavam materiais para a reforma das moradias degradadas. A crise econômica provocada pela alta dos preços do petróleo atingiu plenamente o país. Por mais que se cortassem as importações, as dívidas foram aumentando.
Ao impor o "centralismo democrático" marxista, o partido único SED estabeleceu uma ditadura e militarizou a sociedade desde o jardim-de-infância, além de impor um sistema generalizado de controle e observação de dissidentes em potencial, comandado pelo Serviço de Segurança do Estado, o Stasi.

A era Adenauer (1949–1963) e a integração no Ocidente
Konrad Adenauer, da União Democrata Cristã (CDU), foi eleito primeiro chanceler federal da República Federal da Alemanha em 1949, encabeçando uma coligação dos novos partidos políticos. A "economia social de mercado" introduzida por seu ministro da Economia, Ludwig Erhard, trouxe o progresso e proporcionou um bem-estar até então desconhecido a amplas camadas da população: era o chamado "milagre econômico", que não teria sido possível sem o Plano Marshall.
A estratégia de Adenauer previa estreitos laços com os EUA, entendimento com a França, intensas relações políticas e econômicas com a Europa Ocidental e integração da Alemanha na Aliança Atlântica. Seu objetivo era garantir a existência da RFA, levando Moscou a desistir da Alemanha Oriental, o que abriria caminho para a reunificação.
Em 1950, a Alemanha foi admitida no Conselho da Europa, e em 1952, na Comunidade Européia do Carvão e do Aço. Em 5 de maio de 1955, a RFA deixou de ser considerada território ocupado e pôde criar um Ministério das Relações Exteriores, estabelecer relações diplomáticas com outros países e abrir embaixadas no exterior. Neste mesmo dia, entrou para a Otan, o que possibilitou o rearmamento da Alemanha para cumprir suas funções de defesa no âmbito da Aliança Atlântica. A filiação à Comunidade Econômica Européia a partir de 1º de janeiro de 1958 (Tratados de Roma) foi um outro passo decisivo para sua integração no bloco ocidental.
O Muro de Berlim
A República Federal da Alemanha não reconhecia a RDA, o Estado oriental alemão, considerando-se a única representante dos alemães (Doutrina de Hallstein). Uma crise em Berlim em 1958, quando Kruchev exigiu que os Aliados desocupassem Berlim Ocidental em seis meses, e a posterior construção do Muro de Berlim colocaram em risco a ligação de Berlim Ocidental com a RFA e enfraqueceram Adenauer.
Sinônimo da linha divisória entre os mundos capitalista e socialista, Berlim Ocidental atraía os alemães-orientais pelas liberdades democráticas e pelo brilho de suas vitrines, que simbolizavam o progresso ocidental. De 1949 a 1961, quase 3 milhões de pessoas fugiram da Alemanha comunista para os setores ocidentais de Berlim. Somente em julho de 1961, 30 mil pessoas escaparam.
A RDA não podia admitir que o êxodo continuasse. Na manhã de 13 de agosto de 1961, soldados começaram a construir o Muro de Berlim, demarcando a linha divisória inicialmente com arame farpado, tanques e trincheiras. Nos meses seguintes, foi sendo erguido em concreto armado o muro que marcaria a vida da cidade até 1989. Ao longo dos anos, a fronteira transformou-se numa fortaleza. Como os soldados tivessem ordem de atirar para matar, mais de mil pessoas pagaram com a vida a tentativa de transpô-la.


A divisão da Alemanha - PARTE I (1945-1989)


Aliados na Conferência de Potsdam. Da esquerda para a direita: o primeiro-ministro britânico Winston Churchill,o presidente norte-americano Harry Truman e o chefe de Estado e governo soviético, Josef Stalin, em agosto de 1945


A derrota da Alemanha na Segunda Guerra Mundial resultou na divisão do país, que se tornou o marco de dois blocos político-econômicos antagônicos. Era o início da Guerra Fria. A Alemanha permaneceu dividida até 1990.

As tropas alemãs capitularam definitivamente em 8 e 9 de maio de 1945. Os membros do último governo do Reich, encabeçado pelo almirante Karl Dönitz, foram presos. Juntamente com outros líderes da ditadura nazista, ele respondeu por crimes de guerra e contra a humanidade perante o Tribunal de Nurembergue, instaurado pelos Aliados.

As quatro potências vencedoras ─ Estados Unidos, Reino Unido, França e União Soviética ─ assumiram o poder e dividiram o território alemão em quatro zonas de ocupação. Sob o controle soviético ficaram os territórios a leste dos rios Oder e Neisse. Berlim também foi dividida em quatro setores.

Os diferentes sistemas de domínio no Ocidente e no Leste geraram divergências entre os Aliados, que não conseguiam definir uma política comum para a Alemanha vencida. Na Conferência de Potsdam, que ocorreu entre 17 de julho e 2 de agosto de 1945 para estabelecer as bases de uma nova ordem européia no pós-guerra, só houve consenso quanto a quatro ações prioritárias na Alemanha: desnazificar, desmilitarizar, descentralizar a economia e reeducar os alemães para a democracia.

Muitas indústrias alemãs haviam escapado dos bombardeios, mas a pequena oferta de produtos estava longe de suprir a demanda, e os Aliados confiscaram grande parte da produção para o pagamento da reparação de guerra. A política econômica restritiva dos Aliados só mudou quando se impôs a convicção de que a Alemanha Ocidental poderia ser um importante baluarte contra o avanço do comunismo soviético.


Embora recebesse ajuda dos EUA desde 1946, foi só com o programa de luta contra "a fome, a pobreza, o desespero e o caos" que a Alemanha Ocidental recebeu o impulso decisivo para iniciar sua reconstrução. O chamado Plano Marshall disponibilizou 1,4 bilhão de dólares de 1948 a 1952.

A Zona de Ocupação Soviética não teve a mesma sorte, tendo que arcar sozinha com os custos de sua recuperação, além de sofrer a sangria das reparações de guerra (que também afetou a parte ocidental) e o esvaziamento pela desmontagem de fábricas, estradas de ferro e instalações que eram levadas para a União Soviética.

Reforma monetária e criação de dois Estados alemães

Após unir suas três zonas de ocupação, os aliados ocidentais – Estados Unidos, França e Reino Unido – decidiram, em 20 de junho de 1948, implantar uma reforma monetária e criar um Estado provisório sob seu controle. Um mês depois, cada cidadão alemão pôde trocar 40 Reichsmark (a moeda vigente até então, instaurada em 1924) por 40 unidades da moeda então introduzida pelos Aliados: o marco alemão (Deutsche Mark, ou DM). Para empresários e autônomos, a relação de troca era mais favorável.

Stalin reagiu à reforma monetária na Alemanha Ocidental ordenando que o lado ocidental de Berlim fosse bloqueado. Para incorporar essa parte da cidade à Zona de Ocupação Soviética, mandou interditar todas as comunicações por terra. Isolado das zonas ocidentais e de Berlim Oriental, o oeste de Berlim ficou sem luz nem alimentos de 23 de junho de 1948 até 12 de maio de 1949. A população só se manteve a salvo graças à ponte aérea dos Aliados, que garantiu seu abastecimento.


Konrad Adenauer assina a Lei Fundamentalde criação da República Federal da Alemanha,em Bonn, em 23 de maio de 1949


No dia 23 de maio de 1949, os aliados ocidentais promulgaram a Lei Fundamental, elaborada por um conselho parlamentar, dando origem à República Federal da Alemanha (RFA). A denominação Lei Fundamental sublinhava seu caráter provisório, pois somente depois que o país voltasse a ser uma unidade deveria ser ratificada uma Constituição definitiva. O novo Estado tinha Bonn por capital.

A União Soviética, que integrara a zona leste do país à sua estrutura de poder, não ficou atrás, anunciando, em outubro de 1949, a fundação da República Democrática Alemã (RDA), tendo Berlim Oriental como capital. Seu regime era comunista e de economia planificada, dando prosseguimento à socialização da indústria e ao confisco de terras e de propriedades privadas. O Partido Socialista Unitário (SED) passou a ser a única força política na "democracia antifascista" alemã-oriental.

Com o surgimento de dois Estados, a Alemanha tornou-se o marco divisório de dois blocos e sistemas político-econômicos antagônicos liderados pelos EUA, de um lado, e pela União Soviética, de outro. Em nenhuma outra parte do mundo a Guerra Fria se manifestou com tanta intensidade. A divisão alemã persistiu até 1990.

"Brasil é a experiência mais importante da minha vida", dizia Lévi-Strauss


O antropólogo Claude Lévi-Strauss (1908-2009)

Contato com os índios do Amazonas e Centro-Oeste foi ponto de partida para o francês descobrir sua vocação para etnologia e antropologia. Na década de 30, foi praticamente um dos fundadores da Universidade de São Paulo.

Claude Lévi-Strauss se declarava "em dívida" com o país que visitou pela primeira vez na década de 1930 e que mudou o curso de sua existência. "O Brasil é a experiência mais importante da minha vida", declarou o intelectual francês em 2005. Afinal, foi no contato com as tribos indígenas brasileiras que o filósofo e sociólogo de formação descobriu sua vocação para a etnologia e a antropologia.
As viagens à região Centro-Oeste e à Amazônia foram decisivas. Lévi-Strauss chegara ao país em 1935, aos 27 anos de idade, juntamente com sua esposa e outros professores franceses, para assumir a cátedra de Sociologia na Universidade de São Paulo, a qual contava apenas um ano de existência.
Já em 1936, visitou os índios cadiuéu na fronteira com o Paraguai e os bororó no Mato Grosso. Três anos mais tarde, retornou à tribo bororo e conheceu os tupi-kaguahib, hoje considerados extintos. O primeiro fruto editorial desses contatos foi Família e vida social dos índios nambiquara, de 1948.
Ao vencedor, as beterrabas
Trópicos: tristes já na década de 1930
Trópicos: tristes já na década de 1930

"Eu detesto as viagens e os exploradores": assim Claude Lévi-Strauss introduz sua obra mais famosa. Tristes trópicos, de 1955, tornou-se best-seller e um clássico da antropologia moderna. Em 40 capítulos, o pesquisador apresenta suas observações sobre os ritos, mitologias, religiões e estruturas familiares dos povos indígenas. Mas também inclui observações sobre o a Índia e o Paquistão, países que visitara a serviço da Unesco. Daí resulta uma perspectiva global, com fascinantes interconexões.
Segundo Axel Honeth, professor de Filosofia da Universidade de Frankfurt, Lévi-Strauss também tentava sensibilizar o leitor ocidental para uma cultura estranha, convencido de que "sociedades arcaicas são superiores a nós, por estarem, em sua forma de pensar, em sua prática social, muito mais cientes do entrelaçamento com a natureza do que nós, nas concepções atuais de nossa sociedade".
Numa linguagem literária inovadora, entre a arte e a ciência, assim o autor francês descreve a ameaça percebida já nos anos 1930: "Hoje, a humanidade se instala na monocultura, se prepara para produzir a civilização em massa, como se se tratassem de beterrabas. E em breve estas também serão tudo o que terá no prato".
Mais parecidos do que pensamos
Lévi-Strauss foi um dos primeiros pensadores a tornar palpável, para o grande público, a forma dramática como as condições de vida se transformam na Terra, diante de nossos olhos. Tristes trópicos deixa claro como a diversidade cultural e biológica era destruída em velocidade assustadora, através de gigantescos processos cataclísmicos.
Também popular tornou-se o seu livro de 1962, O pensamento selvagem, cujo próprio título já causou furor. Segundo Honneth, ele designa uma lógica que se distingue fortemente da ocidental, por ser menos abstrata. "Ela não é ditada por princípios ditados de cima para baixo. Ao contrário, acomoda-se ao ambiente natural e o desvenda classificatoriamente. Mas com grande intimidade e conhecimento da diferenciação desse ambiente."
Por outro lado, o antropólogo também observou, nas assim chamadas "sociedades primitivas", princípios igualmente válidos para a civilização ocidental. A interdição do incesto, ou o pensamento em pares de opostos – "frio-quente", "bom-mau" – vigoram em praticamente toda sociedade do mundo. Essa constatação levou Lévi-Strauss a falar de princípios universais do raciocínio. Desse ponto de vista, os seres humanos são mais semelhantes entre si do que pensam.
Brasil dos sentidos
Claude Lévi-Strauss completaria 101 anos em 28 de novembro próximo. Sua morte é lamentada no mundo inteiro. Na França, o presidente Nicolas Sarkozy prestou homenagem ao "humanista infatigável, o universitário curioso, sempre à procura de novos saberes, o homem livre de todo sectarismo e toda doutrinação".
Em declaração à agência de notícias AFP, o professor José Ribamar Freire, da Universidade do Rio de Janeiro, lembrou que o francês "foi um pesquisador muito importante para o Brasil. Ele próprio dizia que a etnologia brasileira era uma das melhores do mundo".
O antropólogo brasileiro Gilberto Velho destaca que a obra de Lévi-Strauss definiu as bases da antropologia moderna, "mas ele vai mais além desse domínio. Ele sugere que não há sociedades inferiores, e que cada uma delas deve ser pensada em seus próprios termos".
Para Beatriz Perrone-Moisés, essa morte deixa "uma espécie de vazio", apesar quase esperada, devido à idade do pensador. A professora de Antropologia da Universidade de São Paulo, onde o francês lecionou de 1935 a 1939, comentou à agência de notícias AP que o Brasil descrito em Tristes trópicos é um "mundo dos sentidos" muito especial.
"[Para Lévi-Strauss] o Brasil era menos o país em si do que o Brasil dos índios e a sensação de caminhar nas pegadas dos exploradores do século 17. Ele frequentemente falava sobre essa emoção, essa sensação."
Autor: Augusto Valente
Revisão: Roselaine Wandscheer