sexta-feira, 19 de março de 2010

PIIGS, uma nova realidade europeia



Hugo Henrique Roth Cardoso


A União Européia, em especial sua moeda única, o Euro, enfrenta uma árdua tarefa neste começo de 2010. A crise da dívida da Grécia, em especial, tem causado preocupações tanto políticas quanto econômicas no velho continente. O que surpreende e motiva a discussão é a presença de outros países da União em semelhantes condições. Este grupo ficou conhecido por PIIGS, acrônimo para Portugal, Itália, Irlanda, Grécia e Espanha. Por fator comum destes países enumeram-se o alto déficit público, a dívida externa e o desemprego aliados à perda de competitividade internacional o longo dos últimos anos.

Ao identificar o problema distintas observações podem ser feitas, principalmente no que diz respeito à moeda comum européia, o euro. No que diz respeito à solução do problema, a academia tende a uma reforma institucional da união monetária européia em favor de um mecanismo de resgate a países em dificuldades.

Vale observar o Euro e suas conseqüências sobre estes mercados hoje em dificuldade. Enquanto sua gestação foi primordialmente econômica, considerações políticas mais amplas, como o resgate a países, ficaram de fora. Desta maneira o Banco Central Europeu (BCE) não dispõe de mecanismos para um possível pacote de ajuda, o que demanda em cada caso uma solução criativa. Ao superar esta crise não é de todo impossível que uma nova apareça, o que justifica um debate sobre uma solução permanente.

Ponto importante no resgate a países da União Européia é a atuação da Alemanha. Ao aprofundar politicamente a União questões como de soberania ressurgem e trazem à lembrança o ocorrido no pós II Guerra Mundial, o que gera indisposição no continente europeu. O auxílio a terceiros países suscita ainda na Alemanha temor quanto aos meios a serem utilizados. A Chanceler Angela Merkel, com toda probabilidade, calcula que seu país, como principal economia da região, seria o responsável pela maior parte da ajuda a ser oferecida.

O BCE e o Euro, por sua vez, recebem as maiores críticas e condenações pela crise vivida em especial pela Grécia e potencialmente pelos demais países do PIIGS.

Em primeiro lugar a forma como estes países foram admitidos na união monetária é questionada. A política fiscal desequilibrada e o rápido crescimento dos salários para atingir o nível da Europa central o mais rápido possível fizeram com que estes países perdessem competitividade e suas exportações fossem rapidamente substituídas por aquelas dos países asiáticos. O crescimento dos salários acima da produtividade real acentua o déficit em conta corrente. Para qualquer outro país que esteja fora da zona do euro a solução seria relativamente fácil (como a Inglaterra fez): depreciação cambial e aperto fiscal. Para os PIIGS e para a Grécia mais urgentemente, depreciação cambial não é uma possibilidade.

Em segundo lugar os condicionantes para um pacote de ajuda à Grécia limitam as negociações junto ao FMI e geram um risco político caso a ajuda ocorra com baixas condicionalidades a partir da UE ou do BCE. Cortes orçamentários e aumento de impostos, como os já realizados na Grécia, prejudicariam a recuperação econômica, a desoneração fiscal aumentaria a relação dívida / PIB.

Considerando desta maneira a necessidade de reformas estruturais nos países, financiamento para o plano de recuperação apresenta-se de suma importância. A adoção de novas políticas por cada país requer um colchão de amortecimento enquanto as medidas são implementadas e logram credibilidade.

Além dos custos político e econômico internacional que envolvem a questão ocorre ainda o fator doméstico. Para os economistas a recuperação da competitividade internacional de um mercado envolve o aumento da tecnologia empregada, investimentos em infra-estrutura, redução dos custos trabalhistas ou deflação. A deflação gradual no curso de uma década ou mesmo brusca em poucos anos é insustável politicamente, já demonstrou a história do entre guerras e a Argentina mais recentemente. Outras conseqüências desta política seriam ainda a saída da zona do Euro e a moratória devido à demora do país para recuperar recursos e honrar seus compromissos.

A Grécia, país em situação mais crítica, já anunciou um plano de recuperação. Este plano, entretanto, não encontrou apoio popular. Suas medidas, como corte no salário dos funcionários públicos, aumento dos impostos, elevação da idade mínima de aposentadoria e congelamento das pensões gerou insatisfação popular. Na esteira das eleições nacionais que levaram os socialistas de volta ao poder, o plano econômico do governo já gerou greves e manifestações. Soma-se ao cenário grego o fato das medidas mais pesarem sobre os pobres, isentando a alta classe do país das medidas de corte nos gastos para recuperação da credibilidade internacional do país.

Um mudança, com base na situação vivida imediatamente pela Grécia, e que poderá servir para os demais casos sem o custo político enfrentado no momento pelo governo grego, são reformas estruturais com suporte internacional que objetivem competitividade e mantenham o nível de renda da população. Por mais olimpiana que a tarefa de conseguir recursos no exterior possa ser, ainda é menor que o custo político de agir por corte de gastos em pensão e com funcionalismo público.

O cenário europeu observado demonstra uma zona do Euro em crise e sem mecanismos para atuação. Entre os caminhos possíveis encontram-se o surgimento de uma nova entidade européia, um novo marco regulatório, um inédito pacote do FMI para um país da zona do Euro ou ainda uma nova solução para a Grécia não replicável automaticamente para os demais países do PIIGS.

Hugo Henrique Roth Cardoso é Bacharel em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília e Auxiliar de Pesquisa – Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada – IPEA (hrcardoso@yahoo.de).

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