domingo, 11 de abril de 2010

Inferno de presos é um paraíso para soldados dos EUA

Ainda há campos de concentração espalhados pelo mundo


Esse aqui é instalado na baía de Guantanamo, em Cuba

11/04/2010 - 07h30

ANDREA MURTA
da Enviada de Guantánamo
 
A poucos quilômetros da prisão-símbolo da "guerra ao terror" dos EUA, um bronzeado sargento do Exército americano de 27 anos afirma sem pestanejar: "Estou no paraíso". Ainda que Guantánamo evoque imagens de tortura e arbitrariedade em boa parte do mundo, para os soldados, a base também é sinônimo de tranquilidade, verão o ano inteiro e belas praias.
Guantánamo é a mais antiga base americana no exterior, com operações desde 1903. Hoje, abriga uma cidade com população de cerca de 3.000 pessoas, a maior parte membros da Marinha dos EUA com tarefas não vinculadas a prisioneiros ou tribunais. Oficialmente, a principal missão de Guantánamo é servir como base estratégica para a Frota do Atlântico dos EUA. Também são realizadas operações de controle do tráfico de drogas no Caribe. 

O destacamento é disputado devido às condições que o sargento descreve como "ótimas": "É parecido com um alojamento universitário. Basta botar os pés para fora de casa para encontrar amigos. Minha mulher pode vir me visitar. Faço aulas de vela, e a água do mar é a mais linda que já vi." 

O sargento que conversou com a Folha passou 15 meses em Bagdá antes vir à ilha, o que certamente ajuda na perspectiva. Outra moradora do local, uma capitã da Aeronáutica que está nas Forças Armadas há 21 anos, concorda que, "para um destacamento, este aqui é realmente ótimo". "Estive na Somália nos anos 90, onde vi colegas serem mortos enquanto faziam jogging. Aqui não tem ninguém atirando em você." 
 

Em Guantanamo não há advogado de defesa, só há suspeitos presos sem julgamento

McDonald's

Comparado a Iraque e Somália, Guantánamo é quase um resort para os militares. Há um campo de golfe, academias bem equipadas, aulas de vela e mergulho. No cinema drive-in, os filmes exibidos são recém-lançados --"Alice no País das Maravilhas", de Tim Burton, está em cartaz. 

Há várias redes de fast food. Lá está o único McDonald's de Cuba, bem ao lado de um Subway's e de um Pizza Hut. Também não faltam opções de restaurantes subsidiados, como o jamaicano Jerk House, onde é possível consumir uma refeição completa por US$ 7,25 ao som de reggae e com vista para o mar. 

Bares também são subsidiados --até o álcool é mais barato. Esse é outro privilégio de Guantánamo: quando estão no Iraque e no Afeganistão, os militares não podem consumir bebidas alcoólicas nem mesmo nas horas de folga. 

Os alimentos consumidos na ilha são todos trazidos dos EUA. A eletricidade é produzida em geradores a diesel, complementados por torres de energia eólica (que fornecem 15% a 20% do total de mais de 800 mil kw/hora diários). A água é dessalinizada em plantas locais --13 milhões de litros por dia. Para beber, porém, só mineral. 

Mesmo com todas as distrações, não é possível esquecer o que acontece na ilha. O centro de detenção é afastado da cidade, mas radares nas montanhas, torres de observação e tribunais cercados por enormes arames farpados rasgam permanentemente a visão da ilha tropical. 

Ainda assim, indagados sobre o lado ruim de Guantánamo, militares se limitam a citar uma leve sensação de confinamento (a base tem 116 km2), o calor e a lentidão da internet. O sargento conta que acaba de pedir renovação de seu destacamento. Foi atendido: poderá velejar por mais um ano.

Nenhum comentário: