terça-feira, 25 de maio de 2010

Guerra, paz e hegemonia no início do século do século XXI


HOBSBAWN, Eric. Globalização, democracia e terrorismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2007. Cap. 2: guerra, paz e hegemonia no início do século do século XXI.


Por Gilmara Benevides

Como historiador, Eric Hobsbawn concentra-se em desvendar os fatos do presente a partir do passado. Em verdade, estes fatos não estão tão distantes no tempo, pois começam desde a queda do muro de Berlim, em 1989. Logo após a queda do muro, o filósofo Francis Fukuyama apressou-se em declarar "o fim da história" e a vitória do liberalismo como sistema político e econômico:

“O que podemos estar testemunhando não é apenas o fim da Guerra Fria, ou a passagem de um período particular da história do pós-guerra, mas o fim da história como tal ... Ou seja, o ponto final da evolução ideológica da humanidade e a universalização da democracia liberal ocidental como forma final de governo humano”.

No seu artigo "Guerra, paz e hegemonia no início do século do século XXI", incluído no livro  Globalização, Democracia e Terrorismo (2007), Hobsbawn  analisa que o fim da história não se comprovou, levando Fukuyama a posar apenas como um “americano incauto” e que o liberalismo não venceu a guerra, ainda que tenha promovido inúmeras batalhas. Todavia,  remonta ao seu livro anterior Era dos Extremos: o breve século XX (1995) em que Hobsbawn apresenta alguns dos principais aspectos daquilo que acredita ser “o fim da história como a conhecemos nos últimos 10 mil anos”: transformações tecnológicas, produtivas, mudanças nos aspectos sociais, declínio do campesinato, ascensão da sociedade urbana, aparecimento das hiper-cidades, a substituição da comunicação oral pela leitura e escrita, a mudança da condição social das mulheres.

O declínio do setor agrícola mostrou-se a mais visível de todas as outras mudanças, intimamente em consonância com as mudanças tecnológicas, produtivas, além de comportamentais. Desde a invenção da agricultura sedentária, as populações do mundo estão deixando de ser rurais. A migração para os grandes centros está acontecendo cada vez mais intensamente nas cidades dos países desenvolvidos, o que leva, consequentemente, ao inchaço das áreas suburbanas das grandes cidades e forma o fenômeno do crescimento das hiper-cidades.

Por um lado, a vida nos centros urbanos favorece ao estudo e à transformação educacional, que é retratado por Hobsbawn como uma mudança significativa para países até então periféricos na ordenação internacional. Ainda que o continente europeu mantenha sua posição dianteira nesse aspecto, “com que velocidade a Ásia, e particularmente a China e a Índia, poderão aproximar-se dele?” A emancipação da mulher é o principal indicador de que, em alguns países, se ultrapassou a educação dos homens – fatalmente em muitos países em desenvolvimento esta ainda não seja a realidade. O incremento no nível de educação dos povos favorece à inclusão social, à cidadania. O povo deixa de ser “súdito” para “cidadão”, não apenas os homens, mas também as mulheres.

O continente asiático é visto por Hobsbawn como novo centro industrial surgido depois do processo de desindustrialização dos países da Europa oriental na década de 1990. Ainda “em estágios iniciais”, este processo vem se acelerando e pode substituir o antigo centro fundamentado no continente europeu. É um crescimento rápido que assusta potências como os Estados Unidos.

Outra mudança diz respeito à ascensão de uma sociedade urbana pautada numa economia globalizada. As empresas transnacionais desempenham um importante papel econômico, incentivam mudanças políticas e criam novas relações jurídicas com os Governos e economias nacionais. Nesse aspecto, Hobsbawn refere-se aos “contratos privados” relativos ao comércio de armas em países atuando no Iraque, negócios advindos da globalização que produz efeitos de falso crescimento, pautados em desequilíbrios e assimetrias regionais “sujeitos às pressões da padronização global” – globalização que funciona como verdadeiro motor das “tensões políticas e sociais em diversos países afetados”.

Desde A Era dos Extremos: o breve século XX, Hobsbawn toca no assunto dos conflitos armados endêmicos, muitos deles civis, aumento do número de genocídio e transferência compulsória e maciça de cidadãos. Há milhões de refugiados no mundo, assim como os deslocados internos seja pelas guerras, pelas mudanças climáticas, sobretudo na África e na Ásia. O formato típico de guerra que se conheceu no século XX está sendo substituído pelo formato de guerras localizadas prolongadas, igualmente catastróficas. Hobsbawn retoma o discurso sobre a possibilidade de explosão de uma “guerra global”, surgida a partir de desavenças entre os interesses de super-potências ocidentais e orientais.

Muito embora as possibilidades de se evitar tal conflito sejam melhores do que as de evitar a Segunda Guerra Mundial depois de 1929 e que os perigos reais para a estabilidade do mundo sejam descritos pelo próprio Hobsbawn como “irrisórios” – não obstante, o historiador acredita que essa guerra “permanece como uma possibilidade real dentro das próximas décadas”.

Quando proferiu a palestra que deu origem ao artigo "Guerra, paz e hegemonia no início do século do século XXI", obsbawn falava para uma plateia na Índia, em 2004. Imagino que ele soubesse o peso de suas palavras quando citou as redes terroristas pan-islâmicas contra as quais os Estados Unidos proclamam sua guerra global: “a menos que esses grupos ganhassem acesso a armas nucleares – o que não é impensável, mas não chega a ser uma perspectiva imediata -, o terrorismo pede cabeça fria, e não histeria”.

Particularmente, permitam-me ousar discordar do professor Hobsbawn neste aspecto. Acredito que o maior perigo esteja nas mãos dos países que já detém a tecnologia nuclear e que agem como empresas em formação monopolista – sobretudo porque se organizam como um cartel universal de nações que obrigam outras à sujeição ideológica, tecnológica, militar, cultural e econômica apenas com base na retórica.

Isto ficou comprovado no episódio histórico do dia 11 de setembro de 2001, quando o presidente norte-americano George W. Bush e o primeiro-ministro inglês Tony Blair tentaram implantar uma política de cunho imperialista para o mundo. Resultado: a cruzada econômico-financeira levou os Estados Unidos à crise internacional e os países pobres da Europa conhecem hoje o saldo negativo desse investimento.

A retórica é o principal instrumento que por trás esconde as mesmas técnicas terroristas, mais sofisticadas e discretas por parte do Ocidente, que das atitudes individuais de homens e mulheres-bomba do Oriente próximo. A hegemonia de um país rico como os Estados Unidos – um dos países que enriquece ao vender armas e assim fomenta os movimentos de guerra localizados citados por Hobsbawn – é parte de um círculo complexo. Talvez o declínio econômico preconizado pelo historiador possa tornar as super-potências, como os Estados Unidos, menos megalomaníacas e menos perigosas. 



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