Os filmes de Karim Aïnouz escapam de tudo o que se espera do cinema brasileiro contemporâneo. Enquanto parte dos cineastas se esforça para agradar ao público, mimetizando cacoetes da televisão, e outra se contorce na hercúlea tarefa de "explicar o Brasil", em obras que muitas vezes se assemelham a tratados sociológicos, Karim Aïnouz segue um caminho pessoal, inclassificável. 



Quando a crítica estava perto de rotulá-lo como "cineasta do corpo", a partir da justa observação de seus dois primeiros longas -o masculino "Madame Satã" (2002) e o feminino "O Céu de Suely" (2006)-, eis que Karim aparece com um filme dominado pelas paisagens do sertão e praticamente "sem corpo". Em "Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo" (2010), que dirigiu em parceria com outro talento de sua geração, o cineasta pernambucano Marcelo Gomes, o protagonista não aparece diante dos olhos do espectador. Dele, só ouvimos a voz. 

Se os filmes costumam partir de roteiros para encontrar as imagens, "Viajo Porque Preciso..." fez o caminho inverso: quase todo o material visto na tela foi captado anos antes de o projeto cinematográfico tomar corpo, quando Karim e Marcelo viajaram pelo sertão cearense. O primeiro resultado foi um livro com fotos, colagens e objetos; o segundo, um média-metragem chamado "Sertão de Acrílico Azul Piscina" (2004). 

ROAD MOVIE
 
Anos depois, voltaram ao material e o reorganizaram na forma de um "road movie". Captadas em diferentes formatos e com alta voltagem poética, as imagens pré-existentes ganharam novo sentido ao se submeterem à voz de José Renato (Irandhir Santos), personagem fictício, geólogo em viagem de trabalho. 

O que parece ser o frio relatório do reconhecimento de terreno para uma obra de engenharia se revela, aos poucos, a viagem de superação de uma tremenda dor de cotovelo. As reações apaixonadas que o filme despertou em dois dos melhores pensadores do cinema brasileiro lhe deram um sabor de consagração, ou pelo menos de promessa cumprida. 

Jean-Claude Bernardet dedicou ao filme vários posts em seu blog ­­-incluindo uma longa entrevista com seus autores. "'Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo' não leva às lágrimas, mas a uma melancolia quieta, silenciosa, recolhida", escreveu Bernardet. Na entrevista ao crítico, Karim transborda sua paixão pelo material que resultou no filme: "Hoje a imagem passou a ser sinônimo de ancoragem, em vez de decolagem. Às vezes a gente esquece que o cinema tem essa potência, de fazer a gente poder imaginar". 

O longa também fascinou Ismail Xavier, professor da USP: "Neste filme de enorme amplitude, tudo se formaliza em termos mínimos: o som compõe o personagem-voz e o cine-olho se movimenta pela estrada, sendo múltiplas as conexões entre as duas bandas independentes". Para Ismail, trata-se de um "filme de montagem", em que "a junção de fragmentos e registros compõe um tecido pop-sertanejo". "É um filme de muitas sugestões, metáforas", conclui ele. "Enfim, o máximo no mínimo". 


SUPERAÇÃO

 Madame Satã filmado em 2002






Ismail identifica no trabalho de Karim Aïnouz indícios de uma superação do que se poderia chamar de um "cinema do ressentimento", típico do começo dos anos 1990 e sintomático da ressaca que se seguiu à extinção da Embrafilme. Os primeiros sinais de mudança começaram a aparecer em "Central do Brasil", de Walter Salles (1998), e ganharam contornos mais nítidos com o filme "Madame Satã". 

O primeiro longa de Karim conta a história do malandro homossexual feito mito da Lapa carioca nos anos 30. Para o papel principal, na última hora o cineasta escalou um jovem ator desconhecido, Lázaro Ramos, logo depois da desistência de Seu Jorge. 

"Contar a história", no entanto, é modo de dizer, pois Karim Aïnouz recusa a narrativa tradicional, o "plot" e os diálogos filmados em campo e contracampo. Antes da trama estão os personagens, seus sonhos, seus corpos e os espaços que ocupam. 

Selecionado para a mostra "Un Certain Regard" do Festival de Cannes, "Madame Satã" foge aos rótulos da cinebiografia clássica e do "filme de época" ao operar um recorte muito específico na vida de seu personagem central e estabelecer laços entre sua trajetória sui generis com os dias de hoje. 

Numa análise notável do desfecho de "Madame Satã" (leia a íntegra da entrevista no site folha.com/ilustríssima), Ismail Xavier vê a afirmação da autoestima de uma figura potente em seu confronto com a repressão sexual, racial. "Este gesto de reinventar-se", prossegue Ismail, "fez de 'Madame Satã' um exemplo dessa alternativa ao ressentimento, impotência, auto-envenenamento" que o crítico vê no cinema brasileiro contemporâneo. 


FAIT DIVERS


 O Céu de Suely filmado em 2006

 Seu longa-metragem seguinte, "O Céu de Suely", partiu de um "fait divers" lido num jornal, sobre uma garota que rifou seu corpo para sair de sua cidade. Tal como em seu primeiro filme, "Seams" (1993), o cineasta tomou as mulheres de sua família como modelo para criar as personagens. O tom de "O Céu de Suely" recusa julgamentos e aposta na capacidade de reinvenção da protagonista da história. 

"Suely não se desenha como a boa alma disposta a sucumbir em nome da pureza, do amor perdido ou do retorno nostálgico à ordem familiar", analisa Ismail Xavier. "Seu ciclo de vida na pequena cidade compõe o entreato, a digestão da experiência que, por fim, a libera" -sonho que a Dalva de "Um Céu de Estrelas", de Tata Amaral, não consegue efetivar "face à tragédia do último encontro com o namorado ressentido." Para o crítico, no filme de Karim a disposição da personagem "se projeta no espaço, na afirmação da viagem como promessa". 

O impulso de Suely é um reflexo de sua própria personalidade. Karim Aïnouz cresceu cercado de mulheres fortes, em uma família de classe média de Fortaleza. Já perdeu a conta das cidades em que morou. Hoje está em Berlim, mas já passou por Fortaleza, Brasília, Paris, Grenoble, Nova York, Londres, São Paulo e Rio. 

BERÇO
 
A inquietação vem de berço. Seus pais se conheceram em meados dos anos 1960, quando faziam pós-graduação nos EUA. A mãe, brasileira, estudava bioquímica; o pai, argelino, engenharia hidráulica. Karim foi concebido no Colorado, mas nasceu no Ceará, em 1966. Com a separação, o pai voltou para a Argélia e pouco depois se fixou na França, onde vive desde 1976. 

Seu avô foi um dos fundadores da Frente de Libertação Nacional, a organização que liderou o conturbado processo de independência argelino, e seu pai, enquanto morou nos Estados Unidos, foi o representante da FLN por lá. 

Os caminhos até o cinema foram construídos por essa incapacidade crônica de parar quieto e por um sentimento de não pertencer a lugar nenhum. Um dia depois de se formar em arquitetura na Universidade de Brasília (UnB), no fim dos anos 80, partiu para Nova York e começou um mestrado em artes visuais. Mas não terminou.
O desejo de ser pintor acabou nas tediosas aulas de modelo vivo e na leitura de "A obra de arte na era da sua reprodutibilidade técnica", de Walter Benjamin. Carregado por uma amiga, matriculou-se num curso de teoria do cinema. 

Quando Karim percebeu, estava totalmente envolvido na nova cena do cinema independente americano, trabalhando como assistente de casting (elenco) e de montagem em "Veneno", de Todd Haynes -vencedor do Sundance Film Festival de 1991. Depois, tornou-se assistente da produtora Christine Vauchon, que fez nove entre dez dos filmes mais representativos da época. 

COSTURAS
 
Quando voltou para o Brasil, Karim pegou o dinheiro que havia juntado, comprou uma câmera Bolex e alguns rolos de negativo e foi filmar sua avó e suas tias. O resultado é uma pequena joia chamada "Seams" (costuras), que volta e meia João Moreira Salles usa como exemplo em suas aulas de documentário. 

Felipe Bragança, colaborador constante e coautor do roteiro de "O Céu de Suely", conta que algumas das ideias mais interessantes do filme surgiram durante caminhadas, observando as ruas e as pessoas. 

No texto do catálogo do último Festival de Tiradentes, que prestou homenagem ao diretor, Felipe observa em Karim Aïnouz "duas coisas adoráveis em um cineasta": o espírito "obsessivo, metódico e perfeccionista" e a "energia selvagem que o faz sempre atento ao que há de novo e inesperado". 

As colaborações, aliás, representam um elemento crucial na carreira do cineasta, parceiro de Marcelo Gomes, Sérgio Machado e Felipe Bragança em diferentes projetos. "Não tem mais a sensação de que tem um dinheiro ali que é meu ou seu", diz ele. "Não precisa brigar pelo dinheiro ou competir. Hoje em dia, existem muitas possibilidades de fazer um filme que permitem que a gente esteja junto, e não um contra o outro. É um sinal dos tempos." 

Sérgio Machado, por exemplo, ele conheceu no set de "Abril Despedaçado", de Walter Salles. Sérgio era assistente de direção e Karim foi contratado para reescrever trechos do roteiro enquanto as filmagens já aconteciam. Mais tarde, os dois fariam em conjunto a minissérie "Alice", uma das primeiras produções brasileiras da HBO, marco de qualidade e ousadia na TV paga brasileira. 

FUTURO
 
Hoje Karim Aïnouz mora em Berlim, cidade que conheceu melhor em 2004, quando ganhou uma bolsa do Serviço Alemão de Intercâmbio Acadêmico (DAAD). Podia escrever, fotografar, ler, ou não fazer nada. Karim decidiu escrever o roteiro de "O Céu de Suely" e tirar fotos -outra paixão, junto com o cinema. "A possibilidade de estar em um lugar desconhecido, em que eu não falava a língua, completamente livre, me fez me sentir com 18 anos." 

Novamente em Berlim, Karim desenvolve o roteiro de seu próximo filme, "Praia do Futuro", coprodução entre Brasil e Alemanha cujo nome evoca novamente o Ceará -e que vai ser filmada meio lá, meio cá. Antes disso, desembarca no Rio para um projeto-surpresa, um filme de título ainda provisório, "O Eclipse de Violeta".  Mais uma parada antes do próximo aeroporto, da próxima viagem, da próxima cidade.