quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Empresa que provocou crime ambiental volta a funcionar na Hungria

Os pequenos pontos amarelos na foto acima são enormes tratores

Barreira que se rompeu largando lama tóxica na Hungria


Crédito das fotos deste artigo:
http://blogs.estadao.com.br/olhar-sobre-o-mundo/hungria-lama-toxica-e-destruicao/


A Hungria reabriu na sexta-feira (15/10) a fábrica causadora de um letal vazamento químico na semana anterior, e quase metade dos moradores desalojados já voltou às áreas atingidas, apesar dos alertas em contrário de ambientalistas. Nove pessoas morreram e mais de 120 ficaram feridas pelo vazamento de uma lama tóxica vermelha numa fábrica de alumina da empresa MAL Zrt no oeste da Hungria. O acidente no reservatório de detritos também contaminou vários rios, inclusive um afluente do Danúbio.

O governo assumiu nesta semana o controle da MAL, e o comissário responsável disse em nota na sexta-feira que "levará no máximo quatro dias para que a usina volte à operação normal... na terça-feira que vem a produção terá voltado à plena capacidade", afirmou. Técnicos disseram que cerca de 380 dos 800 moradores retirados da localidade vizinha de Kolontar já voltaram para suas casas. Também na sexta-feira, policiais investigaram um segundo suspeito de responsabilidade pelo acidente, identificado como Jozsef D., diretor técnico da MAL, que não foi detido.

Na véspera, a Justiça ordenou a libertação de Zoltan Bakonyi, executivo da MAL. Computadores da empresa foram apreendidos depois da aprovação emergencial de uma lei que autorizou o governo a assumir o controle da companhia e do seu patrimônio. A causa exata do pior acidente ecológico da história húngara ainda não foi descoberta, mas o primeiro-ministro Viktor Orban já apontou que houve "negligência humana."

O grupo ambientalista Greenpeace pediu ao governo que mantenha a fábrica fechada, e disse que seria "inteiramente irresponsável" permitir que os moradores voltem para suas casas, porque nenhum dado prova que a área está segura. "O Greenpeace Hungria pede ao governo que suspenda o plano para retomar a produção na fábrica até que as causas do desastre sejam esclarecidas, e os riscos ambientais e sanitários diminuam significativamente", disse o grupo. O porta-voz das equipes de emergência, Giorgyi Tottos, disse que a população da zona foi orientada a usar máscaras contra poeira o tempo todo.
 

"Aldeias afetadas não são mais habitáveis", afirma Diretor de Toxicologia do Hospital de Budapeste



Kolontár: tecnicamente inviável
 
Cerca de 800 habitantes de Kolontar foram evacuados no último sábado, após o alerta de que um outro muro do reservatório da fábrica de alumínio poderia desabar, lançando uma nova torrente de lama alcalina. Nove pessoas morreram na enchente tóxica, e aproximadamente 50 ainda estão hospitalizadas, muitas em condições críticas.

Na sexta-feira, cerca de 30 pessoas foram levadas a Kolontar em ônibus originários de um estádio esportivo em uma cidade próxima, Ajka, onde estavam alojadas."Outros habitantes estão retornando em seus próprios veículos, vindos da casa de amigos e parentes na região", disse a porta-voz da equipe de Defesa Civil, György Töttös.

Um muro protetor com 620 metros de comprimento e aproximadamente 2,7 metros de altura foi construído em Kolontar para proteger a região contra possíveis vazamentos futuros da lama vermelha, resíduo altamente cáustico que resulta da produção de alumina, que dá origem ao alumínio.  

"Nós acabamos de voltar à nossa casa e vamos ficar", disse o mecânico Peter Veingartner, 31 anos, de Kolontar. "Parece que a maioria das pessoas vai retornar a Kolontar. Mesmo as que perderam suas casas dizem que preferem reconstruí-las aqui".

  Para onde vão essas pessoas? Elas querem voltar para casa...

"As casas nas regiões que não podem ser recuperadas estão sendo demolidas", ele conta. A residência da tia de Veingartner, Erzsebet, estava entre as que estão sendo derrubadas por tratores, tanto por serem consideradas inabitáveis ou por estarem no caminho do muro de proteção. Já a sua casa, que fica em uma região mais alta, foi intocada pela enchente vermelha. 

Autoridades proibíram a entrada de jornalistas em Kolontar na sexta. A Ajkai Timfoldgyar, fábrica responsável pela catástrofe, pertencente à MAL Ltd., reiniciaria suas atividades para sexta, mas o governo húngaro decidiu adiar a reabertura.

O Greenpeace afirma que ainda é muito cedo para mandar os habitantes de volta à Kolontar e reabrir a fábrica de alumínio por ainda não existirem dados suficientes para garantir a segurança da região.

"As causas exatas da catástrofe ainda não foram esclarecidas", declara o Greenpeace da Hungria. A entidade ainda alerta para os altos níveis de poeira suspensa no ar, tanto dos trabalhos de demolição como da própria lama vermelha, que começou a secar: "Ninguém ainda revelou dados exatos sobre os efeitos a curto e longo prazo da poeira suspensa na região". Töttös reiterou a obrigação em usar máscaras protetoras na área.

Autoridades húngaras afirmam que a fábrica, que emprega cerca de 1,1 mil pessoas e está sob tutela temporária do governo, vai reabrir o quanto antes. Estima-se que a quantidade de lama tóxica ainda existente no reservatório varie entre 20 e 30 milhões de toneladas.

 O mais recente crime ambiental no mundo

Teoricamente, a lama vermelha residual é colocada nos reservatórios para que, após a evaporação da água, o material sólido remanescente seja utilizado em construções. Mas isso não tem acontecido na Hungria: quando enche um reservatório, é construído outro.

"Não há reciclagem do material que sobra da lama vermelha, apesar de algumas tentativas terem sido feitas no passado, sem sucesso", revela Gyorgy Banvolgyi, engenheiro húngaro com 40 anos de experiência na indústria de alumínio. 

Ele explica que os produtroes de alumina na Hungria possuem a posição de que "a lama vermelha pode ser utilizada para outros fins, mas como não há aplicação plausível até agora, a melhor alternativa é continuar deixando-a nos reservatórios".

A polícia húngara - que, na quarta-feira, absolveu o diretor da MAL Ltd. Zoltan Bakonyi após o julgamento determinar provas insuficientes contra ele - afirmou na sexta-feira que houve tentativa de interrogar o diretor técnico da empresa, Jozsef Deak, mas ele se recusou a testemunhar.

Deak, que foi solto pelas autoridades na quinta-feira, é suspeito por colocar a população em perigo e causar danos ao meio-ambiente, acusações similares às que Bakonyi recebeu antes do julgamento.

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