domingo, 9 de janeiro de 2011

Filme do mês: Carancho (2010)


 Acima cartaz e trailer do filme "Carancho" apresentado em Cannes


Crítica: Luiz Carlos Merten - O Estado de S.Paulo

Candidato da Argentina a uma indicação para o Oscar de melhor filme estrangeiro do ano, Abutres estreia hoje depois de abrir a Mostra de Direitos Humanos que trouxe à cidade seu ator principal, Ricardo Darín, na semana passada. Se Abutres for selecionado - o filme concorre à vaga com o brasileiro Lula, Filho do Brasil, de Fábio Barreto -, Darín estará de volta à festa da academia, na qual outro filme dele, O Segredo de Seus Olhos, de Juan José Campanella, foi o grande vencedor, no ano passado.

Abutres chega para reafirmar a pujança do cinema argentino. Exibe as qualidades que costumam ser associadas à produção do país vizinho. Histórias humanas, bem escritas e dirigidas, relevância social. No Festival do Rio, o diretor Pablo Trapero tentou minimizar essa decantada superioridade da produção argentina. "O que você está dizendo (sobre essas qualidades) se aplica a um certo número de filmes e não a toda a produção. Poderia dizer o mesmo de alguns filmes brasileiros. Contam histórias atraentes, são bem realizados e muito bem interpretados. Vocês têm atores fantásticos."

Abutres chama-se, no original, Carancho. É o nome de uma ave predadora do noroeste argentino. Alimenta-se de restos de outros animais e até humanos. Um abutre também é, de certa forma, o personagem representado por Darín em seu novo filme. Nos últimos anos, aumentou muito o número de acidentes com vítimas na Argentina. Como consequência, criou-se uma verdadeira indústria do acidente, com advogados especializados em defender as famílias das vítimas.

Não que eles estejam muito interessados nos mortos e feridos. Mas é possível tirar um bom dinheiro das seguradoras. O advogado que Darín interpreta é o abutre perfeito. Tem o instinto do sangue e a lábia para convencer as famílias a lhe entregarem os casos. Às vezes, ele entra em atrito, mas essa é outra história.

No filme, Darín termina por relacionar-se com uma médica que atende a esses mortos e feridos. É interpretada por Martina Guzmán, mulher do diretor. A própria médica, a princípio altruísta, revela suas ambivalências. Trapero não simplifica as coisas. Você não precisa gostar (só) de cinema argentino para perceber as imensas qualidades de Abutres, o filme.

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