sexta-feira, 22 de abril de 2011

Brics pedem nova ordem mundial

Encontro dos líderes do BRICS


Apesar de declaração conjunta e objetivos comuns, grupo é formados de países com realidades e interesses distintos

18/04/2011
 

Concentrados naquilo que os une, e deixando suas diferenças de lado, os líderes de Brasil, Rússia, Índia, China e, agora, África do Sul – os chamados Brics – chegaram ao fim de um encontro no resort na ilha de Hainan, no sul da China, com uma declaração conjunta que pede mudanças profundas na ordem política e financeira do planeta.

A estrutura de governo de instituições financeiras internacionais, diz a declaração, “deve refletir as mudanças na economia mundial, aumentando as vozes e a representação das economias emergentes e dos países em desenvolvimento”. A declaração também pede uma “reforma compreensiva” das Nações Unidas para tornar o órgão “mais eficaz, eficiente e representativo”.

Entre as ações e recomendações mais específicas anunciadas estão um acordo envolvendo bancos de desenvolvimento nos países do grupo para que abram linhas de crédito mútuo denominadas em moedas locais, um alerta contra o potencial para “monstruosas” injeções de capital das nações desenvolvidas para desestabilizar economias emergentes; e apoio a um “amplo sistema internacional de reserva monetária, gerando estabilidade e segurança”.

Esse último item implica em um desafio ao valor do dólar como principal reserva monetária global. De fato, a motivação do encontro foi a necessidade de realinhar a ordem global imposta após o fim da Segunda Guerra, e a subsequente ascensão dos Estados Unidos.

Representando cerca de 40% da população mundial e quase um quarto de sua produção econômica, os Brics parecem ter boas razões para pedir mudanças como essas. Talvez, com mais objetividade, com projeções mostrando que eles serão responsáveis por boa parte do crescimento econômico nas próximas décadas, eles estejam em posição de impor suas reivindicações.

Mas a frente unificada apresentada em Hainan mascara grandes diferenças. Coordenar seus esforços não será uma tarefa fácil para eles, mesmo a curto prazo. O Brasil, por exemplo, já reclama da quantidade de investimento chinês e de importações chinesas baratas, e se juntou aos Estados Unidos e a outros países que reclamam publicamente da subvalorização do yuan.

As relações entre a China e a Índia vêm há muito tempo, sendo atrapalhadas por tensões relativas ao comércio, à disputa de fronteiras e ao apoio militar dos chineses ao rival dos indianos, o Paquistão. O comércio bilateral é uma mera fração do que é possível para esses dois gigantes vizinhos, cada um com uma população superior a um bilhão de habitantes, e juntos, apresentando um vasto potencial para a complementariedade. O comércio total entre esses dois dínamos deve chegar a US$ 100 bilhões em 2015, e o equilíbrio está fortemente desregulado a favor dos chineses (o déficit comercial indiano estava perto dos US$ 20 bilhões em 2010).

Em uma manobra considerada pela imprensa indiana como uma esnobada na China, o primeiro-ministro indiano, Manmohan Singh, decidiu não participar do Fórum de Bo’ao, agendado para o dia seguinte e nada distante do local de encontro dos Brics. Mas os dois lados usaram o recente encontro para anunciar o retorno das trocas no campo da defesa, que foram interrompidas no ano passado após um mal-estar causado pela relutância chinesa em reconhecer as reivindicações territoriais da Índia na Caxemira.

Quando o assunto é o Conselho de Segurança da ONU, a China pode não ter muita pressa em ver os Brics com uma representação maior, pelo menos não entre os membros permanentes do Conselho. Apesar da solidariedade entre os Brics, a China e a Rússia estão em posições privilegiadas entre os cinco membros exclusivos e não ficariam contentes de ver esse poder diluído. No fim das contas, não há como não enxergar esse novo bloco dos Brics como algo montado a partir de partes desiguais.

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