quarta-feira, 20 de julho de 2011

Filme do mês: "Biutiful" (2010)



Javier Bardem é o trunfo de "Biutiful"
Marco Tomazzoni, iG São Paulo | 20/01/2011 18:37
http://ultimosegundo.ig.com.br/cultura/cinema/javier+bardem+e+o+trunfo+de+biutiful/n1237962295618.html

Depois do sucesso de "Amores Brutos" (2000), indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro, o mexicano Alejandro González Iñárritu foi cooptado pela indústria norte-americana. Fez dois filmes em Hollywood, "21 Gramas" (2003) e "Babel" (2006), também reconhecidos pela Academia e com astros do calibre de Sean Penn, Brad Pitt e Cate Blanchett. Agora, o cineasta resolveu, em termos, voltar para o mundo subdesenvolvido, mas na Europa. Protagonizado por Javier Bardem, "Biutiful" flagra a periferia de Barcelona, naquele que é o primeiro longa-metragem de Iñárritu sem a colaboração do roteirista e escritor Guillermo Arriaga. O Oscar, mais uma vez, está no páreo.

Bardem é Uxbal, pai de dois filhos, divorciado, que ganha dinheiro com empregos, digamos, não-tradicionais. Sua ocupação oficial é explorar a mão-de-obra de imigrantes chineses e africanos em Barcelona, irreconhecível – é como se o diretor tivesse levado o México à Espanha, já que a charmosa metrópole europeia é vista quase que exclusivamente pelas ruas degradadas dos bairros pobres. Os chineses fabricam produtos falsificados, os africanos vendem no comércio informal. Além de atravessador, Uxbal recebe o dinheiro da propina para policiais fazerem vista grossa na fiscalização.

O comentário social tem lugar de destaque na narrativa, mas é o sobrenatural que salta aos olhos. Em um parentesco com o personagem de Matt Damon em "Além da Vida", de Clint Eastwood, Uxbal ouve os mortos. Para saciar famílias inconformadas com a perda, ele entra em ação, recupera últimos desejos e desculpas tardias, não raro sendo recompensado por isso e, na mesma proporção, sendo alvo da descrença e raiva dos enlutados.

As situações-limite, tão comuns na obra de Iñárritu, surgem num piscar de olhos. Uxbal está com câncer terminal, tem pouco tempo de vida e começa uma corrida desenfreada para juntar dinheiro para os filhos. No meio do caminho, um irmão pouco confiável, uma ex-mulher bipolar e o cadáver do pai. A doença progride e o fundo do poço parece estar a poucos passos.

Iñárritu vem dizendo que estava cansado das histórias paralelas que marcaram seus trabalhos anteriores e a parceria com Arriaga, mas "Biutiful" segue pelo mesmo caminho. Mesmo que diluídos na jornada de Uxbal, os imigrantes têm núcleos próprios no roteiro, com seus conflitos e problemas, lembrando, de certa forma, o pout-porri internacional de "Babel", sem o mesmo brilho e desenvolvimento. Isso porque a ênfase recai na família, conceito pulverizado em todas histórias e centralizado com força total na figura do pai zeloso interpretado por Bardem, em mais uma atuação magistral, reconhecida com a Palma em Cannes.

"Biutiful" é, sem dúvida, o trabalho mais pessoal de Iñárritu, tanto que o diretor dedica o filme a seu pai. Continua intacta sua capacidade de perturbar, de tirar o espectador da zona de conforto e colocá-lo no olho do furacão, face a face com os demônios de seus personagens. Contudo, o realismo extremo, a casualidade e o pessimismo irrefreável que também habitam suas obras agora dividem espaço com o fantástico.

A impressão é de que "Biutiful" procura carregar muito mais do que pode – os dramas, os simbolismos e os muitos personagens tentam e tentam sair do chão, muitas vezes sem conseguir. Felizmente, assistir a Bardem dar o sangue na frente das câmeras compensa os erros e acertos. Um monstro do cinema, e o trunfo de "Biutiful".

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