terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Cracolândia: fins eleitoreiros e 'higienização social' em curso


DiAfonso

A "Operação Cracolândia"  nos deixa entrever o que de mais sórdido existe na alma de alguns políticos [se é que eles têm alma]: interesses eleitoreiros e econômicos. Isso é o que conta ao fim de tudo.  

Por que o governo do PSDB - encastelado no Palácio dos Bandeirantes desde 1994 - resolveu, juntamente, com a prefeitura [comandada pelo tucano José Serra e por Kassab na primeira gestão e, depois, por Kassab] fazer esta operação? 

Veiculou-se que Geraldo Alckmin, Gilberto Kassab e o comando da PM nada sabiam sobre a ação policial ocorrida na manhã da última terça-feira. 

Veiculou-se, também, que a investida [com planejamento de altíssimo nível] estava programada para fevereiro. 

Não se veiculou, entretanto, que a tomada de decisão de Alckmin e Kassab para "solucionar o problema da Cracolândia" estava dolosamente vinculada a evitar que o governo federal interviesse com determinadas ações e, assim, mostrasse a falta de vontade política dos governantes de São Paulo para cuidar da situação. 

Não se veiculou, contudo, que há poderosos interesses imobiliários por trás do "desmonte" da Cracolândia. Kassab e os tucanos estão mais do que cientes disso.

Ademais, não basta intervir de forma sazonal e com fins eleitoreiros almejados por qualquer instância: governo estadual, municipal ou federal. As ações devem envolver diversas áreas e se constituir, de fato, como uma ação permanente no sentido de resgatar a dignidade dos viciados, recuperando-os e reintegrando-os à sociedade. [As imagens da "Operação Cracolândia" abaixo são do Portal R7]

 


A cracolândia não é para os ingênuos


É uma pena que, quando enfim o Estado resolveu aparecer na cracolândia, a ação esteja visceralmente contaminada por interesses eleitoreiros e econômicos. Essa promiscuidade obnubila o fato de que, sim, era necessário tomar alguma providência para acabar com um dos símbolos mais impressionantes da patologia da sociedade paulistana – que se emociona com um cachorro que apanhou de sua dona, mas não tem a mesma consideração por pessoas destituídas de sua humanidade.

Hoje sabe-se que os governos estadual e municipal decidiram agir para acabar com a cracolândia porque o governo federal já planejava fazê-lo – e, claro, tudo isso está no contexto da eleição para a prefeitura de São Paulo. Drogas e viciados perambulando por aí são um tema central para eleitores normalmente conservadores como o paulistano. Atacar o problema, mesmo com truculência e precipitação, deve render votos preciosos. Ademais, um dos projetos mais significativos do prefeito Gilberto Kassab – e de seus simpatizantes do setor imobiliário – é reformar justamente a região onde fica a cracolândia. Visto dessa perspectiva, o problema é claramente de higienização social, para satisfazer eleitores e empreiteiros.

Nada disso, porém, deveria descaracterizar a urgência do problema, que é de saúde pública, de segurança e de direitos – os dos viciados e também os das pessoas comuns que não conseguem circular por uma parte de sua própria cidade. A politização da ação estatal na cracolândia, tanto por parte dos governantes quanto por parte de seus críticos, não ajuda a colocar o drama em sua justa dimensão.

No limite, mesmo atabalhoada, a Operação Cracolândia era necessária e inadiável, e seus resultados, ainda que parciais ou mesmo eventualmente violentos, deverão servir para balizar futuras ações – gerando um necessário contraponto ao discurso ingênuo segundo o qual o problema da cracolândia pode ser combatido com sopão noturno e compaixão cristã.

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