Higienização social do período pré-eleitoral em SP
Quem se aproxima tem uma surpresa. A mão áspera é quente, os olhos ainda lacrimejam, há pulsação e sorrisos sinceros
Por Talita Ribeiro, do Coletivo Cracolândia
(Mais informações sobre o Coletivo Cracolândia e o contexto em que surge em nosso blog)
http://www.outraspalavras.net/2012/01/15/a-cracolandia-que-voce-nao-ve/
Todo paulistano médio conhece a região da Luz/José Paulino/Santa
Ifigênia como sendo boa para compras, de eletrônicos ou roupas. Todo
paulistano culturalmente ativo sabe que ali há o Museu da Língua
Portuguesa, a Pinacoteca e a Sala São Paulo. Todo e qualquer paulistano
não ousaria pisar lá (literalmente, a pé) depois das 22h. Porque à
noite, o comércio e a cultura são outros. E quem circula pela área não é
considerado cidadão da metrópole mais rica do país.
Quem ocupa as esquinas, quadras e avenidas, se mistura com o lixo e
divide espaço com os ratos, que cruzam as ruas a procura de comida. À
noite não há quem desvie dos moribundos ou crianças alucinadas. E, vez
em quando, se tem a impressão que não há uma alma viva sequer, mesmo que
oitenta usuários de crack estejam ocupando uma mesma sarjeta. Até quem
tenta se inserir nesse meio — por política, trabalho ou missão —
dificilmente consegue penetrar nessa outra realidade, onde o olhar não
pára, nem brilha, mas ainda busca, desesperadamente, por 8 segundos.
“De 5 a 8 segundos é o tempo que dura o ‘barato’ do crack. Nesse
curto espaço de tempo, dizem, a sensação é equivalente a 8 orgasmos”
conta um dos missionários do Cena,
que conversa com os dependentes durante a noite, para convidá-los a
conhecer o projeto e, quem sabe, embarcar numa outra viagem — a de
reabilitação. Ele circula normalmente entre a aglomeração de usuários.
Diferente do que os telejornais ensinam, a cracolândia não é um lugar
sem leis. Religiosos são respeitados e, muitas vezes, ignorados pela
massa. Quando a polícia derrapa com as viaturas nas ruas e saca seus
(desnecessários) sprays de gás de pimenta, todos vão para outra esquina.
Quando um segurança de uma loja qualquer manda eles saírem, o mesmo
acontece. Não há sexo e violência explícita na rua. Não o tempo todo.
Não tempo suficiente para concorrer com qualquer balada de classe média
alta em uma sexta à noite. Os usuários vez em quando discutem entre si,
mas os gritos são, em sua maioria, parte da negociação de droga.
“Quem dá dois por uma pedra? Quem tem uma nota de cinco? E um
cachimbo novo?” Com frases desse tipo a “bolsa do crack” funciona a
noite inteira, com usuários pra lá e pra cá comprando e vendendo tudo o
que podem, de cigarros a 25 centavos até salsichas vencidas achadas no
lixo. Nesse mercado quase todos são compradores em potencial, menos os
que chegam em bicicletas, trazendo mais pedras em sacolas plásticas,
para fazer girar a roda da dependência. Quem não está negociando, só
pode estar consumindo, procurando restos na calçada ou tentando tirá-los
do cachimbo. Nesse ciclo nada que não tenha ligação com o crack
importa. Ninguém liga para os carrões que cruzam a região noite adentro
para comprar a droga. E não é raro ver pessoas bem vestidas e com tênis
da moda fumando ao lado de moradores de rua. Não existe mais rico ou
mais pobre quando se está rente ao chão.
Nesse contexto, crianças de dez anos agem como se tivessem o dobro.
São chamadas de “dimenor”, mas só isso as diferencia dos demais. Com uma
casca dura de sujeira preta ou incrivelmente limpas, elas sabem o
próprio nome, há quanto tempo estão nessa vida, onde doem as feridas e,
principalmente, que precisam de uma pedrinha. Os traços infantis quase
se perdem em meio a tanta opressão, mas quando pedem ajuda para
conseguir a próxima brisa, são como tantas outras crianças pedindo um
doce. E são frágeis, muito mais frágeis do que aparentam quando as
olhamos de canto de olho, andando a passos rápidos. Mas essa não é uma
característica só delas.
Os usários de crack vistos de perto e em seu habitat, em nada lembram
os retratados em telejornais. No lugar do medo e do ódio, despertam uma
tristeza imensa, acompanhada por um sentimento de impotência. Nada que
não seja a pedra parece tocá-los — inclua aí a sua presença. Mas quem,
mesmo assim, tenta se aproximar tem uma surpresa. A mão áspera é quente,
os olhos ainda lacrimejam, a voz embarga ao contar sobre o passado,
ainda há pulsação e sorrisos sinceros. Apesar de toda a ânsia pela
droga, há outros tipos de carências não supridas, tão importantes
quanto. E para tratá-las é preciso bem mais que 8 segundos. Mas isso o
paulistano ainda não sabe.
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* Talita Ribeiro é uma das integrantes do Coletivo Cracolândia, que mantém um site participativo sobre a região da Luz e as formas de enfrentar seus problemas
* Talita Ribeiro é uma das integrantes do Coletivo Cracolândia, que mantém um site participativo sobre a região da Luz e as formas de enfrentar seus problemas

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