quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Para quê serve o Oscar?


 
O cinema em escala industrial



É preciso lembrar que o famoso prêmio é uma auto-congratulação da indústria, um sintoma contemporâneo do cinema comercial.


Por Bruno Carmelo, do Discurso-Imagem.

As indicações para os Oscars 2012 foram anunciadas, e como de costume, a imprensa começou a lançar suas apostas, seus preferidos, suas indignações sobre tal grande ator que não foi indicado ou tal filme medíocre que teria roubado a indicação de outra obra considerada melhor. Paralelamente, as mesmas vozes contrárias aparecem para dizer que o Oscar não serve para nada, que a cerimônia não reflete uma verdadeira noção de qualidade.


Estes dois pontos de vista são simplistas demais, ou melhor, eles não fazem sentido, por não partirem dos mesmos critérios. Reclamar que “tal filme não é tão bom assim” ou que outro era “bem melhor que o vencedor” são frases de efeito sem significação, a não ser que os valores do julgamento sejam explicitados e colocados em contexto – o que quase nunca ocorre. O filme X é bom para quê, ou para quem? Transformers pode ser um melhor filme do que A Separação se o critério em questão for a diversão, a bilheteria, enquanto a obra iraniana pode ser considerada melhor se o valor em jogo for a capacidade de refletir sobre a sociedade contemporânea.


 

Dizer que o Oscar não serve para nada é um aforismo dos mais fáceis a contradizer. Sim, o prêmio serve para muitas coisas: para lançar novas estrelas de cinema, para aumentar a bilheteria dos filmes vencedores, para estabelecer uma certa noção de gosto e de competência técnica e artística, para ditar algumas tendências de moda, para conquistar uma boa audiência na televisão, para enviar um símbolo que a indústria cinematográfica vai bem etc. A questão sobre a capacidade deste prêmio a determinar a qualidade de um filme já é outra história.

Isso porque não se pode esquecer que o Oscar é uma premiação feita pela indústria e para a indústria, no intuito de recompensar seus melhores produtos. Não há nada vergonhoso nisso, pelo contrário, é mais do que normal que cada premiação ou festival indique seus valores particulares – até porque a noção de “bom filme” é vasta demais para ser atribuída de maneira unívoca. O Oscar premia o desempenho do mercado, enquanto o festival de Cannes premia uma forma muito específica do cinema de autor, o festival de Berlim premia filmes “de arte” de cunho social e os MTV Awards premiam a diversão do ponto de vista do espectador adolescente.

A percepção de qualidade

Estabelecer uma hierarquia entre esses prêmios seria banal e simples – novamente, eles não operam pelos mesmos critérios, de modo que cada um encontra sua pertinência nos próprios valores impostos e no público procurado. O Oscar, a cerimônia mais midiática, por ser feita pela maior e mais tradicional indústria do setor, busca recompensar obras que tenham conseguido apresentar boa qualidade técnica e que tenham convencido o público-consumidor.

 

Alguns valores são constantes, como a noção de dificuldade: o sucesso de uma produção difícil parece maior do que o de uma produção simples. Assim, o som de grandes produções com monstros e explosões dá a impressão de melhor qualidade do que o som de uma crônica urbana simples, como os filmes de Woody Allen, por exemplo. Da mesma maneira, a fotografia em preto e branco é mais apreciada do que as cores “comuns”, os figurinos de época são mais apreciados do que o jeans e camiseta da época atual, as transformações físicas radicais dos atores mostram maior esforço do que os intérpretes que incarnam personagens próximos de se físico e do temperamento. Nessa relação íntima entre a produção e a qualidade, a dificuldade indica esforço, e o esforço é recompensado com percepção de bom desempenho.

Alguns temas também são privilegiados, por razões que Bourdieu adoraria explicar: o número impressionante de judeus no júri se traduz em uma predileção por filmes sobre a memória da Segunda Guerra Mundial, os jurados bastante idosos da seleção de filmes estrangeiros evitam obras violentas demais (eles são autorizados a não assisti-las até o fim se não gostarem das primeiras cenas), a grande maioria de homens no júri poderia explicar que a beleza pareça ser mais m critério mais importante para as atrizes do que para os atores. A separação de gênero nesta premiação – como em muitas outras, aliás – é tão flagrante que atores e atrizes são separados em categorias distintas, embora exerçam absolutamente o mesmo trabalho.

O mercado, uma noção de sucesso

Apesar destes “valores” recorrentes, o mais interessante numa cerimônia como o Oscar é interpretá-la como sintoma da produção atual. Quando os pequenos filmes independentes norte-americanos começaram a ter margens de lucro imensas, eles começaram a ser indicados às categorias de melhor filme (Juno teve uma receita dez vezes maior do que o orçamento da sua produção, Pequena Miss Sunshine arrecadou oito vezes mais do que seus custos, enquanto um caríssimo Harry Potter arrecada “apenas” duas ou três vezes seu orçamento).

 

Quando a indústria cinematográfica de algum país se desenvolve muito, um filme deste país é recompensado com prêmios externos à categoria “filme estrangeiro”, como foi o caso do chinês O Tigre e o Dragão em 2000, ou do francês O Artista em 2012. Ambos são grandes mercados para os produtos americanos, então nada mais lógico do que fazer um gesto comercial e recompensar estas nações. Vale lembrar que, para que um filme ganhe a prestigiosa estatueta, os produtores e a equipe se lançam numa campanha custosa e longa, não muito diferente de uma campanha política ou da disputa entre diferentes marcas comerciais para a imposição de um produto no mercado. Os números ao lado, inclusive, mostram os estudos econômicos feitos sobre o valor do Oscar, de acordo com a categoria.

Ora, então os Oscars são apenas uma empresa mercenária, uma troca simbólica de bons procedimentos para manter a indústria nos eixos? Não exatamente. O bom sucesso comercial ou técnico pode ser de fato percebido como sinônimo de qualidade, e nenhum elemento poderia explicar porque outros valores (o autor, o caráter reflexivo, inovador, a beleza da imagem etc.) seriam mais importantes do que este valor em questão. No caso de 2012, os indicados a melhor filme seguem esta lógica: existem pequenas produções comerciais interessantes artisticamente, mais de pouco apelo ao público (O Artista, Hugo, Os Descendentes) e grandes obras que agradaram ao público, que abriram um novo nicho comercial, sem necessariamente agradar os críticos (The Help, Cavalo de Guerra). A dificuldade da escolha vai ser o fato de nenhum deles ter agradado tanto ao público quanto aos críticos, como havia sido o caso do Discurso do Rei em 2011.

Por fim, a todos aqueles que gritarem que é ridículo Ryan Gosling não ser indicado por Drive, ou que o roteiro de Meia-Noite em Paris não merecia a menção, talvez seja mais interessante refletir sobre a questão pelas quais estes filmes e atores interessaram ou não à poderosa indústria americana neste momento preciso. Os Oscars são menos recompensas ao mérito do que a valorização de escolhas industriais: tal ator premiado indica a aposta em sua carreira comercial, tal filme mostra um modo de produção considerado particularmente lucrativo e pertinente à indústria. E isso torna-se, naturalmente, um sinal de qualidade dentro do sistema de valores em questão.

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