brunocarmelo – 19/01/2012
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A partir de making of de filmes pornográficos, filme francês reflete sobre a representação idealizada do sexo e do prazer.
Por Bruno Carmelo, do Discurso-Imagem.
Il n’y a pas de rapport sexuel (“Não há relação sexual”)
nasceu do encontro improvável entre Raphaël Siboni, famoso artista
plástico, e HPG, diretor e ator de filmes pornográficos. Por
coincidência, o trabalho de ambos é financiado pela mesma produtora, a
marginal Capricci filmes, que propôs a Siboni pegar milhares de horas de
making of do diretor pornô e fazer um documentário a respeito. Cada um
impôs suas condições: Siboni exigiu que HPG não tivesse influência
nenhuma na escolha das imagens, enquanto este último impôs que não se
falasse na remuneração dos atores. Acordo fechado.
O título, o irônico “não há relação sexual”, faz referência ao
psicanalista Jacques Lacan, que sugeria que mesmo no ato sexual a dois, o
verdadeiro prazer não está na outra pessoa, e sim nos fantasmas
projetados nela. Assim, o prazer seria mental mais do que corporal, e
principalmente individual. Esta escolha dá uma boa noção do conteúdo
bastante acadêmico e teórico que se pode ver, contra todas as
expectativas, nesta colagem de cenas de coito, esperma, pênis, vaginas,
penetrações duplas, sodomia, sexo grupal e todos os tipos de fetiches.
O
início representa de maneira excepcional o discurso do diretor: uma
bela atriz pornô espera sentada numa cadeira, enquanto HPG prepara a
iluminação e a câmera. Ao seu lado, um homem se masturba para manter a
ereção. Ela boceja de um lado, cutuca algumas pequenas feridas da pele,
enquanto seu parceiro aumenta o ritmo frenético da masturbação. HPG
grita: “Ação!”. Imediatamente, ela monta sobre seu parceiro, faz caras e
bocas, geme, insinua todos os tipos de posa. A cena termina, ela volta
para o seu canto, novamente entediada. Ele continua a se masturbar para a
cena seguinte.
Este filme não é um ataque moralista sobre a “objetificação dos
corpos”, sobre a exploração das mulheres nem nada do gênero. Ele
tampouco é um tratado social, do tipo que observa a integração da
profissão pornográfica com a vida cotidiana dos atores, com a família,
amigos, salário, planos de carreira etc. Evitando a narração ou o
desenvolvimento de uma história, a direção prefere colar cenas, uma ao
lado da outra, sem grandes explicações, “como se faz nos vídeos da
Internet de hoje em dia”, comenta Siboni.
Assim, o efeito produzido não é de crítica, nem de excitação – poucos
filmes com tal quantidade de sexo explícito conseguiram ser tão pouco
excitantes, aliás. Esta foi uma das razões pela qual Il n’y a pas de rapport sexuel foi
classificado “apenas” um filme proibido para menores de 18 anos, e não
um filme X, o que teria reservado sua projeção às salas de cinema
pornográficas. E para a surpresa geral, a obra chegou aos cinemas
independentes coroada de excelentes críticas.
De fato, Siboni efetua um mosaico um tanto triste, patético e
mecânico da ilusão de prazer, da idealização do sexo, tanto
heterossexual quanto gay. Os atores são vistos na espera entre as cenas,
ensaiando frases ridículas como “Ai, como é gostoso o esperma dos
desconhecidos!”, proferida por uma jovem cercada por três pênis em
ereção. Raramente os atores se olham no rosto, de tão concentrados em
suas performances individuais. A ausência voluntária de contexto, o
confronto constante entre os personagens fetichizados e as pessoas
comuns que os encarnam gera um efeito cômico, despretensioso, e uma
certa forma de distanciamento em relação ao material – o que é contrário
ao próprio princípio de imersão da imagem pornográfica.
Curiosamente,
este discurso sobre a ilusão do sexo faz referência à ilusão da própria
imagem. Enquanto os making of tradicionais, publicitários, revelam a
parte técnica da realização mas mantém o fetiche do estrelato, Il n’y a pas de rapport sexuel ignora
o aspecto técnico para humanizar estas figuras dotadas de uma imagem
sobre-humana, com pênis imensos, seios superdimensionados e orgasmos
múltiplos. O filme escolhe as imagens que as mostram apenas como pessoas
comuns, sem prazer particular pelo que fazem, sendo penetradas com o
mesmo profissionalismo indiferente de um operário padrão que produz a
mesma peça dez vezes por dia. A pornografia é acima de tudo um trabalho,
e as aulas de “como simular uma felação” dadas pelo diretor aos atores
iniciantes no “softporn” (filmes sem penetração nem imagem de órgãos
genitais) é um ótimo exemplo disso.
A cereja do bolo é o fato de Siboni ter conseguido aproveitar, e
muito bem, a estética involuntária deste making of. A câmera está
colocada num tripé, numa altura fixa, e ela permanece nesta posição por
muitas horas, de modo que tanto o diretor quanto os atores se esquecem
da sua existência. Esse enquadramento aleatório produz momentos
interessantes do uso do extra-quadro, além de algumas composições que
dificilmente teriam sido escolhidas por HPG ou o próprio Siboni (uma
atriz, de pernas abertas sobre o sofá, geme enquanto sua vagina e seu
ânus ocupam praticamente todo o enquadramento, durante longos minutos).
Os corpos são reduzidos a um material plástico, órgãos genitais são
vistos como ferramentas de trabalho e os gemidos de prazer parecem tão
artificiais quanto os sorrisos em propagandas de margarina. Il n’y a pas de rapport sexuel é um excelente estudo sobre a ilusão e o fetiche dos corpos, do sexo, da imagem e do cinema.
——–
Il n’y a pas de rapport sexuel (2011)
Filme francês dirigido por Raphaël Siboni.
Com HPG, William Lebris, Phil Hollyday, Cindy Dollar, Stacey Stone, Dolce Elektra, Sexy Black, Nymphy, Superpussy.
Filme francês dirigido por Raphaël Siboni.
Com HPG, William Lebris, Phil Hollyday, Cindy Dollar, Stacey Stone, Dolce Elektra, Sexy Black, Nymphy, Superpussy.



1 comentários:
Só para provar que ilusão existe de fato!
Um abraço
Araceli
www.pedradosertao.blogspot.com
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