segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Palestinos aproveitam data para protestar contra muro na Cisjordânia

09/11/2009 - 13h45

Após 20 anos da queda do muro de Berlim, os palestinos lançam a campanha "Unidos Contra o Apartheid" com a esperança de que a barreira construída por Israel na Cisjordânia também caia por terra. "O mundo não pode aceitar no século 21 que Israel construa um muro do apartheid três vezes maior que o de Berlim e duas vezes mais alto", disse à agência Efe Jamal Juma, da ONG "Contra o Muro".

A organização realizará atos simultâneos ao longo da semana para lembrar ao mundo que o território da Cisjordânia está marcado por uma cicatriz de ferro, arame e concreto que divide e fragmenta as terras palestinas, separando seus habitantes e, em alguns casos, impedindo sua passagem.

Os atos iniciaram na última sexta-feira, quando um grupo de ativistas colocou uma barreira de plástico na localidade de Bilin, palco de protestos semanais contra o muro, na qual se lia: "Berlim, 1989. Palestina?".

O parapeito foi desmanchado pelos soldados israelenses, que quase todas as sextas-feiras entram em confronto com manifestantes em Bilin utilizando gás lacrimogêneo, bombas de efeito moral e balas de aço recobertas de borracha.

Na próxima quinta-feira (12), ativistas locais e internacionais colocarão abaixo uma pequena réplica do Muro alemão no povoado próximo a Belém, e farão uma chamada à comunidade internacional para que abrace a campanha que promove o boicote e sanções a Israel até que o país destrua a barreira.

Nos próximos dias, serão realizadas em diversas partes do mundo ações denunciando a polêmica barreira, com projeções de filmes, conferências e mesas-redondas na Europa, América do Norte, Austrália e países latino-americanos como a Colômbia, Chile, Argentina e Paraguai. "Pelo menos 20 países estarão mobilizados nesta semana para lembrar ao mundo que os muros, o racismo e o apartheid caíram no século 20 e para proclamar que não podemos iniciar o século 21 com muros como o que está construindo Israel", indica Juma.

O ativista palestino denuncia que a barreira "confiscará parte das terras da Cisjordânia e deixará os palestinos fechados e fragmentados em três cantões principais subdivididos em diferentes regiões incomunicáveis".

Até agora e segundo dados da ONU, Israel já completou cerca de 400 dos 710 quilômetros previstos da divisória, dos quais 85% serão erguidos dentro do território cisjordaniano e só 15% na Linha Verde, a fronteira imaginária aceita internacionalmente após a primeira guerra árabe-israelense de 1948-1949.

"O muro já deixou 97 comunidades palestinas completamente isoladas: rodeadas pelos três flancos pelo muro, colônia judias e as estradas do apartheid [pelas quais só podem circular veículos com placas israelenses]", explica Juma. Além disso, a barreira isola Jerusalém Oriental da Cisjordânia, o que "deixa 360 mil palestinos desligados de seu povo e rodeados por um muro de 181 quilômetros. Isto impedirá qualquer acordo para a criação de um Estado palestino".

Essa situação também deixa à Cisjordânia sem recursos hídricos e sem suas principais terras agrícolas, como o vale do Jordão, desliga as comunidades e, ainda, dificulta o acesso às escolas, universidades e inclusive aos hospitais.

Israel começou em 2002, durante a Segunda Intifada, a levantar o que denomina "cerca de segurança", que na maior parte de seu traçado é de alambrado, mas quando passa por núcleos urbanos se transforma em um paredão de concreto de oito metros de altura.

O Exército israelense considera que esta construção é imprescindível para garantir a segurança e impedir a entrada em seu território de terroristas palestinos e argumenta que desde que existe o número de atentados em seu território diminuiu drasticamente. Por isso, continua com sua construção contrariando a sentença não vinculativa da Corte Internacional de Justiça (CIJ), que em 2004 declarou a barreira ilegal.

domingo, 8 de novembro de 2009

A divisão da Alemanha - PARTE III


Willy Brandt e a abertura para o Leste

Em janeiro de 1963, a reconciliação com a França atingiu seu auge com a assinatura do Tratado do Eliseu. A integração da Europa prosseguiu com a criação da Comunidade Européia em 8 de abril de 1965. No mesmo ano, a RFA estabeleceu relações diplomáticas com Israel ─ um passo significativo no caminho do entendimento entre os povos, após o genocídio de mais de 5 milhões de judeus durante o nazismo.

O chefe de governo alemão Willy Brandt, no Memorial ao Gueto de Varsóvia (06/12/70)

O chefe de governo alemão Willy Brandt, no Memorial ao Gueto de Varsóvia (06/12/70)


Em 21 de outubro de 1969, assumiu o governo o social-democrata Willy Brandt, em coligação com o Partido Liberal. Ex-combatente da resistência contra Hitler, Brandt cunhou o conceito de Ostpolitik (política de abertura para o Leste), que lhe valeu o Prêmio Nobel da Paz em 1971.

A fim de melhorar as relações com a União Soviética, a Polônia e os países do Pacto de Varsóvia, o governo Brandt assinou os tratados de Moscou e de Varsóvia, em 1970. Em ambos, os signatários afirmavam não ter quaisquer reivindicações territoriais. Frente à Polônia, Bonn confirmou a inviolabilidade da fronteira ao longo dos rios Oder e Neisse. O momento histórico de reconciliação ficou gravado na imagem de Willy Brandt ajoelhado diante do memorial do Gueto de Varsóvia, em dezembro de 1970. A etapa seguinte foi o tratado firmado com a Tchecoslováquia, em 1972.

Paralelamente, Bonn e Berlim Oriental sondavam as possibilidades de um melhor entendimento. Em março de 1970, reuniram-se pela primeira vez os chefes de governo das duas Alemanhas, Willy Brandt e Willi Stoph, em Erfurt (RDA), seguindo-se um segundo encontro, em maio, em Kassel (RFA). O Tratado das Quatro Potências sobre Berlim, assinado por EUA, União Soviética, França e Reino Unido em 1971, estabeleceu que os setores ocidentais de Berlim não eram parte integrante da República Federal da Alemanha. Esta, porém, podia representá-los. Este tratado foi condição para que o Parlamento de Bonn ratificasse os demais, assinados com Moscou, Varsóvia e Praga.

Um dos primeiros atos de Willy Brandt após sua reeleição em 1972 foi concluir o Tratado de Base entre a RFA e a RDA, assinado antes do fim do ano. Nele, os dois Estados abdicavam do uso da violência e reconheciam suas fronteiras, prometendo respeitar a autonomia um do outro. "Dois Estados alemães numa só nação" ─ com a fórmula cunhada por Brandt, consumava-se uma grande mudança na política entre as duas Alemanhas. Aos poucos, a coexistência pacífica deveria abrir caminho para a cooperação. Em setembro de 1973, RFA e RDA foram admitidas juntamente nas Nações Unidas.

Helmut Schmidt e os foguetes

Willy Brandt renunciou em 7 de maio de 1974, após a descoberta de um espião da RDA na Chancelaria Federal. O novo chefe de governo, Helmut Schmidt, deu continuidade à coalizão entre o Partido Social Democrata e o Partido Liberal, concentrando-se inicialmente nos problemas econômicos, já que o desemprego ultrapassara, pela primeira vez no pós-guerra, a marca de 1 milhão. Atentados terroristas de esquerda e o surgimento da Fração do Exército Vermelho (RAF, ou grupo Baader-Meinhof) dominaram a política interna e os debates sobre medidas judiciais para conter o terrorismo.

No contexto internacional, a invasão do Afeganistão por tropas soviéticas e a lei marcial na Polônia colocaram um fim a uma década de distensão na política. A instalação de mísseis de médio alcance na União Soviética levou à Dupla Resolução da Otan, de dezembro de 1979. Isso provocou grandes controvérsias na República Federal da Alemanha, culminando no surgimento de um movimento pacifista contra o estacionamento de mísseis norte-americanos em território alemão.

Ao defender o rearmamento da Otan como forma de fortalecer a defesa do país, além de enfraquecido porque o Partido Liberal abandonara a coalizão, Helmut Schmidt acabou perdendo o apoio de parte da social-democracia.

A era Kohl

O chanceler federal Helmut Kohl (dir.) recebe o chefe de Estado e de governo da Alemanha Oriental, Erich Honecker, em Bonn (07/09/87)

O chanceler federal Helmut Kohl (dir.) recebe o chefe de Estado e de governo da Alemanha Oriental, Erich Honecker, em Bonn (07/09/87)



Seu sucessor, Helmut Kohl, liderou a partir de 1982 uma coalizão da União Democrata Cristã (CDU) e União Social Cristã (CSU) com o Partido Liberal (FDP), mantendo a continuidade na política de segurança do governo alemão. Em novembro de 1983, o Parlamento alemão aprovou a resolução do rearmamento. No entanto, os Pershing e mísseis de cruzeiro estacionados na RFA logo foram retirados, graças ao novo diálogo sobre desarmamento, iniciado em meados dos anos 80.

Helmut Kohl bateu o recorde de Adenauer no cargo de chanceler federal, permanecendo 16 anos no poder. Sua política de saneamento das finanças públicas teve como resultado anos seguidos de crescimento econômico, que culminaram com um aumento de 5,5% do PIB em 1990, o ano da reunificação alemã. O desemprego ficou em torno de 2 milhões de pessoas, apesar do grande número de empregos criados.

Para surpresa de muitos, o governo Kohl deu continuidade à política de aproximação com a Alemanha Oriental e o bloco Leste. A perestroika e a glasnost, as grandes reformas introduzidas por Mikhail Gorbatchov, em breve mudariam a face do mundo.

O chefe de Estado da RDA, Erich Honecker, fez uma visita oficial a Bonn em setembro de 1987. No mesmo ano, quando Berlim festejava 750 anos de sua fundação, o presidente norte-americano Ronald Reagan visitou a cidade dividida. "Sr. Gorbatchov, abra esse portão, derrube esse muro!", conclamou Reagan. O que muitos desejavam, mas parecia não passar de um sonho, acabou acontecendo em novembro de 1989.

A divisão da Alemanha - PARTE II


RFA e RDA: dois caminhos diferentes

De 1949 até o início da década de 70, o desenvolvimento da República Federal da Alemanha foi marcado por uma rápida reconstrução do país, do Estado e das instituições democráticas, pela recuperação econômica impulsionada pelo Plano Marshall e pela estabilidade interna. Na política interna, os esforços concentraram-se em superar a divisão da Alemanha, ou em atenuar suas conseqüências. Na política exterior, a RFA ligou-se estreitamente ao bloco liderado pelos EUA e participou do processo de integração européia nas comunidades que foram surgindo no pós-guerra.

A RDA, por sua vez, filiou-se ao Pacto de Varsóvia. Ainda que a Alemanha comunista não tivesse plena autonomia em relação a Moscou, o chefe de Estado e do partido, Erich Honecker, caracterizou sua versão de "socialismo realmente existente". No Leste Europeu, a República Democrática Alemã era tida como exemplo de um país socialista que conseguiu dar um bom nível de vida à sua população.

No entanto, no avançar dos anos 70, os alemães-orientais perceberam que a meta do Estado de alcançar o nível da RFA não passava de ilusão. Não havia recursos suficientes para financiar a mecanização e automatização da produção e faltavam materiais para a reforma das moradias degradadas. A crise econômica provocada pela alta dos preços do petróleo atingiu plenamente o país. Por mais que se cortassem as importações, as dívidas foram aumentando.

Cartaz de propaganda da República Democrática Alemã para comemorar os 25 anos de construção do Muro de Berlim

Cartaz de propaganda da República Democrática Alemã para comemorar os 25 anos de construção do Muro de Berlim


Ao impor o "centralismo democrático" marxista, o partido único SED estabeleceu uma ditadura e militarizou a sociedade desde o jardim-de-infância, além de impor um sistema generalizado de controle e observação de dissidentes em potencial, comandado pelo Serviço de Segurança do Estado, o Stasi.


A era Adenauer (1949–1963) e a integração no Ocidente

Konrad Adenauer, da União Democrata Cristã (CDU), foi eleito primeiro chanceler federal da República Federal da Alemanha em 1949, encabeçando uma coligação dos novos partidos políticos. A "economia social de mercado" introduzida por seu ministro da Economia, Ludwig Erhard, trouxe o progresso e proporcionou um bem-estar até então desconhecido a amplas camadas da população: era o chamado "milagre econômico", que não teria sido possível sem o Plano Marshall.

A estratégia de Adenauer previa estreitos laços com os EUA, entendimento com a França, intensas relações políticas e econômicas com a Europa Ocidental e integração da Alemanha na Aliança Atlântica. Seu objetivo era garantir a existência da RFA, levando Moscou a desistir da Alemanha Oriental, o que abriria caminho para a reunificação.

Em 1950, a Alemanha foi admitida no Conselho da Europa, e em 1952, na Comunidade Européia do Carvão e do Aço. Em 5 de maio de 1955, a RFA deixou de ser considerada território ocupado e pôde criar um Ministério das Relações Exteriores, estabelecer relações diplomáticas com outros países e abrir embaixadas no exterior. Neste mesmo dia, entrou para a Otan, o que possibilitou o rearmamento da Alemanha para cumprir suas funções de defesa no âmbito da Aliança Atlântica. A filiação à Comunidade Econômica Européia a partir de 1º de janeiro de 1958 (Tratados de Roma) foi um outro passo decisivo para sua integração no bloco ocidental.

O Muro de Berlim

A República Federal da Alemanha não reconhecia a RDA, o Estado oriental alemão, considerando-se a única representante dos alemães (Doutrina de Hallstein). Uma crise em Berlim em 1958, quando Kruchev exigiu que os Aliados desocupassem Berlim Ocidental em seis meses, e a posterior construção do Muro de Berlim colocaram em risco a ligação de Berlim Ocidental com a RFA e enfraqueceram Adenauer.

Sinônimo da linha divisória entre os mundos capitalista e socialista, Berlim Ocidental atraía os alemães-orientais pelas liberdades democráticas e pelo brilho de suas vitrines, que simbolizavam o progresso ocidental. De 1949 a 1961, quase 3 milhões de pessoas fugiram da Alemanha comunista para os setores ocidentais de Berlim. Somente em julho de 1961, 30 mil pessoas escaparam.

A RDA não podia admitir que o êxodo continuasse. Na manhã de 13 de agosto de 1961, soldados começaram a construir o Muro de Berlim, demarcando a linha divisória inicialmente com arame farpado, tanques e trincheiras. Nos meses seguintes, foi sendo erguido em concreto armado o muro que marcaria a vida da cidade até 1989. Ao longo dos anos, a fronteira transformou-se numa fortaleza. Como os soldados tivessem ordem de atirar para matar, mais de mil pessoas pagaram com a vida a tentativa de transpô-la.



A divisão da Alemanha - PARTE I (1945-1989)


A derrota da Alemanha na Segunda Guerra Mundial resultou na divisão do país, que se tornou o marco de dois blocos político-econômicos antagônicos. Era o início da Guerra Fria. A Alemanha permaneceu dividida até 1990.

As tropas alemãs capitularam definitivamente em 8 e 9 de maio de 1945. Os membros do último governo do Reich, encabeçado pelo almirante Karl Dönitz, foram presos. Juntamente com outros líderes da ditadura nazista, ele respondeu por crimes de guerra e contra a humanidade perante o Tribunal de Nurembergue, instaurado pelos Aliados.

As quatro potências vencedoras ─ Estados Unidos, Reino Unido, França e União Soviética ─ assumiram o poder e dividiram o território alemão em quatro zonas de ocupação. Sob o controle soviético ficaram os territórios a leste dos rios Oder e Neisse. Berlim também foi dividida em quatro setores.

Os diferentes sistemas de domínio no Ocidente e no Leste geraram divergências entre os Aliados, que não conseguiam definir uma política comum para a Alemanha vencida. Na Conferência de Potsdam, que ocorreu entre 17 de julho e 2 de agosto de 1945 para estabelecer as bases de uma nova ordem européia no pós-guerra, só houve consenso quanto a quatro ações prioritárias na Alemanha: desnazificar, desmilitarizar, descentralizar a economia e reeducar os alemães para a democracia.

Muitas indústrias alemãs haviam escapado dos bombardeios, mas a pequena oferta de produtos estava longe de suprir a demanda, e os Aliados confiscaram grande parte da produção para o pagamento da reparação de guerra. A política econômica restritiva dos Aliados só mudou quando se impôs a convicção de que a Alemanha Ocidental poderia ser um importante baluarte contra o avanço do comunismo soviético.

Aliados na Conferência de Potsdam. Da esquerda para a direita: o primeiro-ministro britânico Winston Churchill, o presidente norte-americano Harry Truman e o chefe de Estado e governo soviético, Josef Stalin, em agosto de 1945

Aliados na Conferência de Potsdam. Da esquerda para a direita: o primeiro-ministro britânico Winston Churchill,o presidente norte-americano Harry Truman e o chefe de Estado e governo soviético, Josef Stalin, em agosto de 1945


Embora recebesse ajuda dos EUA desde 1946, foi só com o programa de luta contra "a fome, a pobreza, o desespero e o caos" que a Alemanha Ocidental recebeu o impulso decisivo para iniciar sua reconstrução. O chamado Plano Marshall disponibilizou 1,4 bilhão de dólares de 1948 a 1952.


A Zona de Ocupação Soviética não teve a mesma sorte, tendo que arcar sozinha com os custos de sua recuperação, além de sofrer a sangria das reparações de guerra (que também afetou a parte ocidental) e o esvaziamento pela desmontagem de fábricas, estradas de ferro e instalações que eram levadas para a União Soviética.


Reforma monetária e criação de dois Estados alemães

Após unir suas três zonas de ocupação, os aliados ocidentais – Estados Unidos, França e Reino Unido – decidiram, em 20 de junho de 1948, implantar uma reforma monetária e criar um Estado provisório sob seu controle. Um mês depois, cada cidadão alemão pôde trocar 40 Reichsmark (a moeda vigente até então, instaurada em 1924) por 40 unidades da moeda então introduzida pelos Aliados: o marco alemão (Deutsche Mark, ou DM). Para empresários e autônomos, a relação de troca era mais favorável.

Stalin reagiu à reforma monetária na Alemanha Ocidental ordenando que o lado ocidental de Berlim fosse bloqueado. Para incorporar essa parte da cidade à Zona de Ocupação Soviética, mandou interditar todas as comunicações por terra. Isolado das zonas ocidentais e de Berlim Oriental, o oeste de Berlim ficou sem luz nem alimentos de 23 de junho de 1948 até 12 de maio de 1949. A população só se manteve a salvo graças à ponte aérea dos Aliados, que garantiu seu abastecimento.

Konrad Adenauer assina a Lei Fundamental de criação da República Federal da Alemanha, em Bonn, em 23 de maio de 1949

Konrad Adenauer assina a Lei Fundamentalde criação da República Federal da Alemanha,em Bonn, em 23 de maio de 1949

No dia 23 de maio de 1949, os aliados ocidentais promulgaram a Lei Fundamental, elaborada por um conselho parlamentar, dando origem à República Federal da Alemanha (RFA). A denominação Lei Fundamental sublinhava seu caráter provisório, pois somente depois que o país voltasse a ser uma unidade deveria ser ratificada uma Constituição definitiva. O novo Estado tinha Bonn por capital.

A União Soviética, que integrara a zona leste do país à sua estrutura de poder, não ficou atrás, anunciando, em outubro de 1949, a fundação da República Democrática Alemã (RDA), tendo Berlim Oriental como capital. Seu regime era comunista e de economia planificada, dando prosseguimento à socialização da indústria e ao confisco de terras e de propriedades privadas. O Partido Socialista Unitário (SED) passou a ser a única força política na "democracia antifascista" alemã-oriental.

Com o surgimento de dois Estados, a Alemanha tornou-se o marco divisório de dois blocos e sistemas político-econômicos antagônicos liderados pelos EUA, de um lado, e pela União Soviética, de outro. Em nenhuma outra parte do mundo a Guerra Fria se manifestou com tanta intensidade. A divisão alemã persistiu até 1990.

"Brasil é a experiência mais importante da minha vida", dizia Lévi-Strauss


O antropólogo Claude Lévi-Strauss (1908-2009)

Contato com os índios do Amazonas e Centro-Oeste foi ponto de partida para o francês descobrir sua vocação para etnologia e antropologia. Na década de 30, foi praticamente um dos fundadores da Universidade de São Paulo.

Claude Lévi-Strauss se declarava "em dívida" com o país que visitou pela primeira vez na década de 1930 e que mudou o curso de sua existência. "O Brasil é a experiência mais importante da minha vida", declarou o intelectual francês em 2005. Afinal, foi no contato com as tribos indígenas brasileiras que o filósofo e sociólogo de formação descobriu sua vocação para a etnologia e a antropologia.

As viagens à região Centro-Oeste e à Amazônia foram decisivas. Lévi-Strauss chegara ao país em 1935, aos 27 anos de idade, juntamente com sua esposa e outros professores franceses, para assumir a cátedra de Sociologia na Universidade de São Paulo, a qual contava apenas um ano de existência.

Já em 1936, visitou os índios cadiuéu na fronteira com o Paraguai e os bororó no Mato Grosso. Três anos mais tarde, retornou à tribo bororo e conheceu os tupi-kaguahib, hoje considerados extintos. O primeiro fruto editorial desses contatos foi Família e vida social dos índios nambiquara, de 1948.

Ao vencedor, as beterrabas

Trópicos: tristes já na década de 1930

Trópicos: tristes já na década de 1930

"Eu detesto as viagens e os exploradores": assim Claude Lévi-Strauss introduz sua obra mais famosa. Tristes trópicos, de 1955, tornou-se best-seller e um clássico da antropologia moderna. Em 40 capítulos, o pesquisador apresenta suas observações sobre os ritos, mitologias, religiões e estruturas familiares dos povos indígenas. Mas também inclui observações sobre o a Índia e o Paquistão, países que visitara a serviço da Unesco. Daí resulta uma perspectiva global, com fascinantes interconexões.

Segundo Axel Honeth, professor de Filosofia da Universidade de Frankfurt, Lévi-Strauss também tentava sensibilizar o leitor ocidental para uma cultura estranha, convencido de que "sociedades arcaicas são superiores a nós, por estarem, em sua forma de pensar, em sua prática social, muito mais cientes do entrelaçamento com a natureza do que nós, nas concepções atuais de nossa sociedade".

Numa linguagem literária inovadora, entre a arte e a ciência, assim o autor francês descreve a ameaça percebida já nos anos 1930: "Hoje, a humanidade se instala na monocultura, se prepara para produzir a civilização em massa, como se se tratassem de beterrabas. E em breve estas também serão tudo o que terá no prato".

Mais parecidos do que pensamos

Lévi-Strauss foi um dos primeiros pensadores a tornar palpável, para o grande público, a forma dramática como as condições de vida se transformam na Terra, diante de nossos olhos. Tristes trópicos deixa claro como a diversidade cultural e biológica era destruída em velocidade assustadora, através de gigantescos processos cataclísmicos.

Também popular tornou-se o seu livro de 1962, O pensamento selvagem, cujo próprio título já causou furor. Segundo Honneth, ele designa uma lógica que se distingue fortemente da ocidental, por ser menos abstrata. "Ela não é ditada por princípios ditados de cima para baixo. Ao contrário, acomoda-se ao ambiente natural e o desvenda classificatoriamente. Mas com grande intimidade e conhecimento da diferenciação desse ambiente."

Por outro lado, o antropólogo também observou, nas assim chamadas "sociedades primitivas", princípios igualmente válidos para a civilização ocidental. A interdição do incesto, ou o pensamento em pares de opostos – "frio-quente", "bom-mau" – vigoram em praticamente toda sociedade do mundo. Essa constatação levou Lévi-Strauss a falar de princípios universais do raciocínio. Desse ponto de vista, os seres humanos são mais semelhantes entre si do que pensam.

Brasil dos sentidos

Claude Lévi-Strauss completaria 101 anos em 28 de novembro próximo. Sua morte é lamentada no mundo inteiro. Na França, o presidente Nicolas Sarkozy prestou homenagem ao "humanista infatigável, o universitário curioso, sempre à procura de novos saberes, o homem livre de todo sectarismo e toda doutrinação".

Em declaração à agência de notícias AFP, o professor José Ribamar Freire, da Universidade do Rio de Janeiro, lembrou que o francês "foi um pesquisador muito importante para o Brasil. Ele próprio dizia que a etnologia brasileira era uma das melhores do mundo".

O antropólogo brasileiro Gilberto Velho destaca que a obra de Lévi-Strauss definiu as bases da antropologia moderna, "mas ele vai mais além desse domínio. Ele sugere que não há sociedades inferiores, e que cada uma delas deve ser pensada em seus próprios termos".

Para Beatriz Perrone-Moisés, essa morte deixa "uma espécie de vazio", apesar quase esperada, devido à idade do pensador. A professora de Antropologia da Universidade de São Paulo, onde o francês lecionou de 1935 a 1939, comentou à agência de notícias AP que o Brasil descrito em Tristes trópicos é um "mundo dos sentidos" muito especial.

"[Para Lévi-Strauss] o Brasil era menos o país em si do que o Brasil dos índios e a sensação de caminhar nas pegadas dos exploradores do século 17. Ele frequentemente falava sobre essa emoção, essa sensação."

Autor: Augusto Valente
Revisão: Roselaine Wandscheer

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Uma Céu vagarosa

Capa do Cd Vagarosa

A cantora Céu

http://www.ceumusic.com/br
http://www.youtube.com/watch?v=LGQbvjlnZ34

Por Paulo Terron

Um disco moderno e orgânico, para ser apreciado com muita calma Mesmo que as músicas do segundo disco solo de Céu não fossem boas, a ousadia da cantora já garantiria respeito ao trabalho. Afinal, quantas novas cantoras ousariam fazer um álbum tão complexo quanto Vagarosa? As letras tratam basicamente de temas universais – amor, sentido da vida -, mas são sustentadas por arranjos vocais elaborados e bases instrumentais complexas, cheias de camadas e que destacam os teclados clássicos. Tudo feito para ser ouvido sem pressa, de preferência com fones de ouvido, descobrindo mais detalhes a cada audição. Músicas como “Cangote” e “Bubuia” têm um sabor moderníssimo – talvez exatamente por não tentarem soar assim, sem forçar a barra.

Tudo soa orgânico, como um respiro de humanidade em um mundo dominado pelo artificial eletrônico. E essa característica garante uma identidade muito mais universal para a música de Céu. A faixa “Nascente”, por exemplo, é inegavelmente brasileira – mas não se faria estranha dentro de um disco do Portishead. Em Vagarosa fica claro que o talento de Céu não está só na bela voz e na composição competente, mas também em saber escolher os companheiros de trabalho: fora os produtores Beto Villares, Gustavo Lenza e Gui Amabis, ela ainda se juntou a músicos da velha guarda (Gigante Brazil, Luiz Melodia), da nova (Marcelo Jeneci, Curumin, Fernando Catatau) e do meio do caminho entre essas duas (BNegão e quase todo o Nação Zumbi). Com esse exército tão variado, Céu consegue uma unidade impressionante.

domingo, 18 de outubro de 2009

Eric Hobsbawm: uma nova igualdade depois da crise

Historiador Eric Hobsbawn

http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=16189

O "século breve", o XX, foi um período marcado por um conflito religioso entre ideologias laicas. Por razões mais históricas do que lógicas, ele foi dominado pela contraposição de dois modelos econômicos – e apenas dois modelos exclusivos entre si – o "Socialismo", identificado com economias de planejamento central de tipo soviético, e o "Capitalismo", que cobria todo o resto.

Essa contraposição aparentemente fundamental entre um sistema que ambiciona tirar do meio do caminho as empresas privadas interessadas nos lucros (o mercado, por exemplo) e um que pretendia libertar o mercado de toda restrição oficial ou de outro tipo nunca foi realista. Todas as economias modernas devem combinar público e privado de vários modos e em vários graus, e de fato fazem isso. Ambas as tentativas de viver à altura dessa lógica totalmente binária dessas definições de "capitalismo" e "socialismo" faliram. As economias de tipo soviético e as organizações e gestões estatais sobreviveram aos anos 80. O "fundamentalismo de mercado" anglo-americano quebrou em 2008, no momento do seu apogeu. O século XXI deverá reconsiderar, portanto, os seus próprios problemas em termos muito mais realistas.

Como tudo isso influi sobre países que no passado eram devotados ao modelo "socialista"? Sob o socialismo, haviam reencontrado a impossibilidade de reformar os seus sistemas administrativos de planejamento estatal, mesmo que os seus técnicos e os seus economistas estivessem plenamente conscientes das suas principais carências. Os sistemas – não competitivos em nível internacional – foram capazes de sobreviver até que pudessem continuar completamente isolados do resto da economia mundial.

Esse isolamento, porém, não pôde ser mantido no tempo, e, quando o socialismo foi abandonado – seja em seguida à queda dos regimes políticos como na Europa, seja pelo próprio regime, como na China ou no Vietnã – estes, sem nenhum pré-aviso, se encontraram imersos naquela que para muitos pareceu ser a única alternativa disponível: o capitalismo globalizado, na sua forma então predominante de capitalismo de livre mercado.

As consequências diretas na Europa foram catastróficas. Os países da ex-União Soviética ainda não superaram as suas repercussões. A China, para sua sorte, escolheu um modelo capitalista diferente do neoliberalismo anglo-americano, preferindo o modelo muito mais dirigista das "economias tigres" ou de assalto da Ásia oriental, mas abriu caminho para o seu "gigantesco salto econômico para frente" com muito pouca preocupação e consideração pelas implicações sociais e humanas.

Esse período está quase às nossas costas, assim como o predomínio global do liberalismo econômico extremo de matriz anglo-americana, mesmo que não saibamos ainda quais mudanças a crise econômica mundial em curso implicará – a mais grave desde os anos 30 –, quando os impressionantes acontecimentos dos últimos dois anos conseguirão se superar. Uma coisa, porém, é desde já muito clara: está em curso uma alternância de enormes proporções das velhas economias do Atlântico Norte ao Sul do planeta e principalmente à Ásia oriental.

Nessas circunstâncias, os ex-Estados soviéticos (incluindo aqueles ainda governados por partidos comunistas) estão tendo que enfrentar problemas e perspectivas muito diferentes. Excluindo de partida as divergências de alinhamento político, direi apenas que a maior parte deles continua relativamente frágil. Na Europa, alguns estão assimilando o modelo social-capitalista da Europa ocidental, mesmo que tenham um lucro médio per capita consideravelmente inferior. Na União Europeia, também é provável prever o aparecimento de uma dupla economia. A Rússia, recuperada em certa medida da catástrofe dos anos 90, está quase reduzida a um país exportador, poderoso mas vulnerável, de produtos primários e de energia e foi até agora incapaz de reconstruir uma base econômica mais bem balanceada.

As reações contra os excessos da era neoliberal levaram a um retorno, parcial, a formas de capitalismo estatal acompanhadas por uma espécie de regressão a alguns aspectos da herança soviética. Claramente, a simples "imitação do Ocidente" deixou de ser uma opção possível. Esse fenômeno ainda é mais evidente na China, que desenvolveu com considerável sucesso um capitalismo pós-comunista próprio, a tal ponto que, no futuro, pode também ocorrer que os historiadores possam ver nesse país o verdadeiro salvador da economia capitalista mundial na crise na qual nos encontramos atualmente. Em síntese, não é mais possível acreditar em uma única forma global de capitalismo ou de pós-capitalismo.

Em todo caso, delinear a economia do amanhã é talvez a parte menos relevante das nossas preocupações futuras. A diferença crucial entre os sistemas econômicos não reside na sua estrutura, mas sim na suas prioridades sociais e morais, e estas deveriam portanto ser o argumento principal do nosso debate. Permitam-me, por isso, a esse ilustrar dois de seus aspectos de fundamental importância a esse propósito.

O primeiro é que o fim do Comunismo comportou o desaparecimento repentino de valores, hábitos e práticas sociais que haviam marcado a vida de gerações inteiras, não apenas as dos regimes comunistas em estrito senso, mas também as do passado pré-comunista que, sob esses regimes, haviam em boa parte se protegido. Devemos reconhecer quanto foram profundos e graves o choque e a desgraça em termos humanos que foram verificados em consequência desse brusco e inesperado terremoto social. Inevitavelmente, serão necessárias diversas décadas antes de que as sociedades pós-comunistas encontrem uma estabilidade no seu "modus vivendi" na nova era, e algumas consequências dessa desagregação social, da corrupção e da criminalidade institucionalizadas poderiam exigir ainda muito mais tempo para serem combatidas.

O segundo aspecto é que tanto a política ocidental do neoliberalismo, quanto as políticas pós-comunistas que ela inspirou subordinaram propositalmente o bem-estar e a justiça social à tirania do PIB, o Produto Interno Bruto: o maior crescimento econômico possível, deliberadamente inigualitário. Assim fazendo, eles minaram – e nos ex-países comunistas até destruíram – os sistemas da assistência social, do bem-estar, dos valores e das finalidades dos serviços públicos. Tudo isso não constitui uma premissa da qual partir, seja para o "capitalismo europeu de rosto humano" das décadas pós-1945, seja para satisfatórios sistemas mistos pós-comunistas.

O objetivo de uma economia não é o ganho, mas sim o bem-estar de toda a população. O crescimento econômico não é um fim, mas um meio para dar vida a sociedades boas, humanas e justas. Não importa como chamamos os regimes que buscam essa finalidade. Importa unicamente como e com quais prioridades saberemos combinar as potencialidades do setor público e do setor privado nas nossas economias mistas. Essa é a prioridade política mais importante do século XXI.


quarta-feira, 7 de outubro de 2009

"América Latina é hoje o lugar mais estimulante do mundo"

Lula após discurso no COI sobre as Olimpíadas no Rio 2016


Noam Chomski
Entrevista ao jornal La Jornada

http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=16160

A América Latina é hoje o lugar mais estimulante do mundo, diz Noam Chomsky. Há aqui uma resistência real ao império; não existem muitas regiões das quais se possa dizer o mesmo. Entrevistado pelo La Jornada, um dos intelectuais dissidentes mais relevantes de nossos tempos assinala que a esperança e a mudança anunciada por Barack Obama é uma ilusão, já que são as instituições e não os indivíduos que determinam o rumo da política. Em última instância, o que Obama representa, para Chomsky, é um giro da extrema direita rumo ao centro da política tradicional dos Estados Unidos.

Presente no México para celebrar os 25 anos de La Jornada, o autor de mais de cem livros, lingüista, crítico antiimperialista, analista do papel desempenhado pelos meios de comunicação na fabricação do consenso, explica como a guerra às drogas iniciou nos EUA como parte de uma ofensiva conservadora contra a revolução cultural e a oposição à invasão do Vietnã. Apresentamos a seguir a íntegra das declarações de Chomsky ao La Jornada:

A América Latina é hoje o lugar mais estimulante do mundo. Pela primeira vez em 500 anos há movimentos rumo a uma verdadeira independência e separação do mundo imperial. Países que historicamente estiveram separados estão começando a se integrar. Esta integração é um pré-requisito para a independência. Historicamente, os EUA derrubaram um governo após outro; agora já não podem fazê-lo.

O Brasil é um exemplo interessante. No princípio dos anos 60, os programas de (João) Goulart não eram tão diferentes dos de Lula. Naquele caso, o governo de Kennedy organizou um golpe de Estado militar. Assim, o estado de segurança nacional se propagou por toda a região como uma praga. Hoje em dia, Lula é o cara bom, ao qual procuram tratar bem, em reação aos governos mais militantes na região. Nos EUA, não se publicam os comentários favoráveis de Lula a Chavez ou a Evo Morales. Eles silenciados porque não são o modelo.

Há um movimento em direção à unificação regional. Começam a se formar instituições que, se ainda não funcionam plenamente, começam a existir, como é o caso do Mercosul e da Unasul.

Outro caso notável na região é o da Bolívia. Depois do referendo, houve uma grande vitória e também uma sublevação bastante violenta nas províncias da Meia Lua, onde estão os governadores tradicionais, brancos. Dezenas de pessoas morreram. Houve uma reunião regional em Santiago do Chile, onde se expressou um grande apoio a Morales e uma firme condenação à violência, o que foi respondido pelo presidente boliviano com uma declaração importante. Ele disse que era a primeira vez na história da América Latina, desde a conquista européia, que os povos tomaram o destino de seus países em suas próprias mãos sem o controle de um poder estrangeiro, ou seja, Washington. Essa declaração não foi publicada nos EUA.

A América Central está traumatizada pelo terror da era Reagan. Não é muito o que ocorre nesta região. Os EUA seguem tolerando o golpe militar em Honduras, ainda que seja significativo que não possa apoiá-lo abertamente.

Outra mudança, ainda que acidentada, é a superação da patologia na América Latina, provavelmente a região mais desigual do mundo. É uma região muito rica, sempre governada por uma pequena elite europeizada, que não assume nenhuma responsabilidade com o resto de seus respectivos países. Isso pode ser visto em coisas muito simples, como o fluxo internacional de bens e capitais. Na América Latina a fuga de capitais é quase igual à dívida. O contraste com a Ásia oriental é muito impactante. Aquela região, muito mais pobre, teve um desenvolvimento econômico muito mais substantivo e os ricos estão submetidos a mecanismos de controle. Não há fuga de capitais; na Coréia do Sul, por exemplo, ele é castigado com a pena de morte. O desenvolvimento econômico lá é relativamente igualitário.

O enfraquecimento do controle dos EUA
Havia duas formas tradicionais pelas quais os EUA controlavam a América Latina. Uma era o uso da violência; a outra, o estrangulamento econômico. Ambas foram debilitadas.

Os controles econômicos são agora mais fracos. Vários países se liberaram do Fundo Monetário Internacional através da colaboração. Também foram diversificadas as ações entre os países do Sul, processo no qual a relação do Brasil com a África do Sul e a China desempenhou um fator importante. Esses países passaram a enfrentar alguns problemas internos sem a poderosa intervenção dos Estados Unidos.

A violência não terminou. Ocorreram três golpes de Estado neste início de século XXI. O venezuelano, abertamente apoiado pelos EUA, foi revertido, e agora Washington tem que recorrer a outros meios para subverter o governo, entre eles, ataques midiáticos e apoio a grupos dissidentes. O segundo foi no Haiti, onde a França e os EUA depuseram o governo e enviaram o presidente para a África do Sul. O terceiro, em Honduras, foi de um tipo misto. A Organização dos Estados Americanos (OEA) assumiu uma postura firme e a Casa Branca teve que segui-la e proceder com muita cautela e lentidão. O FMI acaba de aprovar um enorme empréstimo a Honduras, que substitui a redução da ajuda do governo dos EUA. No passado, estes eram assuntos rotineiros. Agora, essas medidas (a violência e o estrangulamento econômico) ficaram debilitadas.

Os Estados Unidos estão reagindo e dando passos para remilitarizar a região. A Quarta Frota, dedicada à América Latina, que tinha sido desmantelada nos anos 1950, foi retomada, e as bases militares na Colômbia são um tema importante.

A ilusão de Obama
A eleição de Barack Obama gerou grandes expectativas de mudança para a América Latina. Mas são ilusões. Sim, há uma mudança, mas o giro é porque o governo de Bush foi tão ao extremo do espectro político estadunidense que qualquer coisa que se movesse iria para o centro. De fato, o próprio Bush, em seu segundo período, foi menos extremista. Desfez-se de alguns de seus colaboradores mais arrogantes e suas políticas foram mais moderadamente centristas. E Obama, de maneira previsível, continua com esta tendência.

Tivemos um giro rumo à posição tradicional. Mas qual é essa tradição? Kennedy, por exemplo, foi um dos presidentes mais violentos do pós-guerra. Woodrow Wilson foi o maior intervencionista do século XX. O centro não é pacifista nem tolerante. De fato, Wilson foi quem se apoderou da Venezuela, tirando os ingleses de lá, em função da descoberta de petróleo. Apoiou um ditador brutal. E dali seguiu rumo ao Haiti e à República Dominicana. Enviou os “marines” e praticamente destruiu o Haiti. Deixou nestes países guardas nacionais e ditadores brutais. Kennedy fez o mesmo. Obama é um regresso ao centro.

A história se repete com o tema de Cuba, onde, por mais de meio século, os EUA se envolveram em uma guerra, desde que a ilha ganhou sua independência. No princípio, esta guerra foi bastante violenta, especialmente com Kennedy, quando houve terrorismo e estrangulamento econômico, ao qual a maioria da população estadunidense se opõe. Durante décadas, quase dois terços da população tem estado a favor da normalização das relações, mas isso não está na agenda política.

As manobras de Obama rumaram em direção ao centro; suspendeu algumas das medidas mais extremas do modelo de Bush, o que até foi apoiado por boa parte da comunidade cubano-estadunidense. Moveu-se um pouco em direção ao centro, mas deixou muito claro que não haverá maiores mudanças.

As “reformas” de Obama
O mesmo ocorre na política interna. Os assessores de Obama durante a campanha foram muito cuidadosos em não deixá-lo comprometer-se com nada. As consignas foram “a esperança” e “a mudança, uma mudança na qual acreditar”. Qualquer agência de publicidade teria feito com que essas fossem as consignas, pois 80% do país pensavam que este andava por trilhos equivocados. McCain dizia coisas parecidas, mas Obama era mais agradável, mais fácil de vender como produto. As campanhas são só assuntos de técnica de mercado; assim entendem a si mesmas. Estavam vendendo a “marca Obama” em oposição à “marca McCain”. É dramático ver essas ilusões, tanto fora como dentro dos EUA.

Nos Estados Unidos, quase todas as promessas feitas no âmbito de reforma trabalhista, de saúde e energia ficaram quase anuladas. Por exemplo, o sistema de saúde é uma catástrofe. É provavelmente o único país no mundo onde não há uma garantia básica de atenção médica. Os custos são astronômicos, quase o dobro de qualquer outro país industrializado. Qualquer pessoa que tenha a cabeça no lugar sabe qual é a consequência de um sistema de saúde privado. As empresas não procuram saúde, mas sim lucro.

É um sistema altamente burocratizado, com muita supervisão, altíssimos custos administrativos, onde as companhias de seguros têm formas sofisticadas de evitar o pagamento de apólices, mas não há nada na agenda de Obama para fazer algo a respeito. Houve algumas propostas “light”, como, por exemplo, “a opção pública”, que acabou anulada. Se alguém ler a imprensa de negócios, encontrará que a capa da Business Week reportava que as seguradoras estavam celebrando a sua vitória.

Foram realizadas campanhas muito exitosas contra esta reforma, organizadas pelos meios de comunicação e pela indústria para mobilizar segmentos extremistas da população. É um país onde é fácil mobilizar as pessoas com o medo e colocar na cabeça delas todo tipo de idéias loucas, como a de que Obama vai matar as suas avós. Assim, conseguiram reverter propostas legislativas já por si débeis. Se, de fato, tivesse ocorrido um compromisso real no Congresso e na Casa Branca, isso não teria prosperado, mas os políticos estavam mais ou menos de acordo.

Obama acaba de fazer um acordo secreto com as companhias farmacêuticas para assegurar-lhes que não fará esforços governamentais para regular o preço dos medicamentos. Os EUA são o único país no mundo ocidental onde não se permite que o governo use seu poder de compra para negociar o preço dos medicamentos. Cerca de 85% da população se opõem, mas isso não significa diferença alguma, até que todos vejam que não são os únicos que se opõem a estas medidas.

A indústria petroleira anunciou que vai utilizar as mesmas táticas para derrotar qualquer projeto legislativo de reforma energética. Se os Estados Unidos não implantarem controles firmes sobre as emissões de dióxido de carbono, o aquecimento global destruirá a civilização moderna.

O jornal Financial Times assinalou com razão que se houvesse uma esperança de que Obama pudesse ter mudado as coisas, agora seria surpreendente que cumprisse minimamente suas promessas. A razão é que ele não queria mudar tanto assim as coisas. É uma criatura daqueles que financiaram sua campanha: as instituições financeiras, instituições de energia, empresas. Tem a aparência do bom moço, seria uma boa companhia para o jantar, mas isso é insuficiente para mudar a política; afeta-a muito pouco, na verdade. Sim, há mudança, mas é de um tipo um pouco mais suave. A política provém das instituições, não é feita por indivíduos. E as instituições são muito estáveis e muito poderosas. Certamente, encontram a melhor maneira de enfrentar os acontecimentos.

Mais do mesmo
Os meios de comunicação estão um pouco surpresos de que esteja regressando para o ponto onde sempre esteve. Reportam, é difícil não fazê-lo, mas o fato é que as instituições financeiras se pavoneiam de que tudo está ficando igual a antes. Ganharam. Goldman Sachs nem sequer tenta esconder que depois de ter arruinado a economia está entregando generosos bônus a seus executivos. Creio que no trimestre passado reportou os lucros mais altos de sua história. Se fossem um pouquinho mais inteligentes tentariam esconder isso.

Isso se deve ao fato de que Obama está respondendo aqueles que apoiaram sua campanha: o setor financeiro. Basta olhar quem ele escolheu para sua equipe econômica. Seu primeiro assessor foi Robert Rubin, responsável pela derrogação de uma lei que regulava o setor financeiro, o que beneficiou muito a Goldman Sachs; assim mesmo, ele se converteu em diretor do Citigroup, fez uma fortuna e saiu justo a tempo, antes do desastre. Larry Summers, a principal figura responsável pelo bloqueio de toda regulação dos instrumentos financeiros exóticos, agora é o principal assessor econômico da Casa Branca. E Timothy Geithner, que como presidente do Federal Reserve de Nova York, supervisionava o que ocorre, é o secretário de Tesouro.

Uma reportagem recente examinou alguns dos principais assessores econômicos de Obama. Concluiu-se que grande parte deles não deveria estar na equipe de assessoria do presidente, mas sim enfrentando demandas legais, pois estiveram envolvidos em manejos irregulares de contabilidade e em outros assuntos que detonaram a crise.

Por quanto tempo podem se manter as ilusões? Os bancos estão agora melhor do que antes. Primeiro receberam um enorme resgate do governo e dos contribuintes e utilizaram esses recursos para se fortalecerem. São maiores do que nunca, pois absorveram os mais fracos. Ou seja, está se assentando a base para a próxima crise. Os grandes bancos estão se beneficiando com uma apólice de seguros do governo que se chama “demasiado grande para quebrar”. Caso você seja um banco enorme ou uma grande casa de investimentos, é demasiado importante para fracassar. Se você é o Goldman Sachs ou o Citigroup, não pode fracassar porque isso derrubaria toda a economia. Por isso podem fazer empréstimos de risco, para ganhar muito dinheiro, e se algo dá errado, o governo se encarregará do resgate.

A guerra contra o narcotráfico
A guerra contra a droga, que se espalha por vários países da América Latina, entre eles o México, tem velhos antecedentes. Revitalizada por Nixon, foi um esforço para superar os efeitos da guerra do Vietnã, nos EUA. A guerra foi um fator que levou a uma importante revolução cultural nos anos 60, a qual civilizou o país: direitos da mulher, direitos civis. Ou seja, democratizou o território, aterrorizando as elites. A última coisa que desejavam era a democracia, os direitos da população, etc., razão pela qual lançaram uma enorme contraofensiva. Parte dela foi a guerra contra as drogas.

Ela foi desenhada para transportar a concepção da guerra do Vietnã: do que nós estávamos fazendo aos vietnamitas ao que eles não estavam fazendo a nós. O grande tema no final dos anos 60 nos meios de comunicação, inclusive os liberais, foi que a guerra do Vietnã foi uma guerra contra os EUA. Os vietnamitas estavam destruindo nosso país com drogas. Foi um mito fabricado pelos meios de comunicação nos filmes e na imprensa. Inventou-se a história de um exército cheio de soldados viciados em drogas que, ao regressar para casa, converteram-se em delinquentes, aterrorizando nossas cidades. Sim, havia uso de drogas entre os militares, mas não era muito diferente do que existia em outros setores da sociedade. Foi um mito fabricado. É disso que se tratava a guerra contra as drogas. Assim se mudou a concepção da guerra do Vietnã, transformando-a em uma guerra na qual nós éramos as vítimas.

Isso se encaixou muito bem com as campanhas em favor da lei e da ordem. Dizia-se que nossas cidades se desgarravam por causa do movimento anti-guerra e dos rebeldes culturais, e que por isso era preciso impor a lei e a ordem. Ali cabia a guerra contra a droga.

Reagan ampliou-a de maneira significativa. Nos primeiros anos de sua administração intensificou-se a campanha, acusando os comunistas de promover o consumo de drogas. No início dos anos 80, os funcionários que levavam a sério a guerra contra as drogas descobriram um incremento significativo e inexplicável de fundos em bancos do sul da Flórida. Lançaram uma campanha para detê-lo. A Casa Branca interveio e suspendeu a campanha. Quem o fez? George Bush pai, neste período o encarregado da guerra contra as drogas. Foi quando a taxa de prisões aumentou de maneira significativa, principalmente a prisão de negros. Agora o número de prisioneiros per capita é o mais alto do mundo. No entanto, a taxa de criminalidade é quase igual a dos outros países. É um controle sobre parte da população. É um assunto de classe.

A guerra contra as drogas, como outras políticas, promovidas tanto por liberais como por conservadores, é uma tentativa para controlar a democratização das forças sociais.

Há alguns dias, o Departamento de Estado emitiu sua certificação de cooperação na luta contra as drogas. Os três países que foram “descertificados” são Myamar, uma ditadura militar – não importa, está apoiada por empresas petroleiras ocidentais -, Venezuela e Bolívia, que são inimigos dos EUA. Nem México, nem Colômbia, nem Estados Unidos, em todos os quais há narcotráfico.

Um lugar interessante
O elemento central do neoliberalismo é a liberalização dos mercados financeiros, que torna vulneráveis os países que têm investimentos estrangeiros. Se um país não pode controlar sua moeda e a fuga de capitais, está sob o controle dos investidores estrangeiros. Eles podem destruir uma economia se não gostarem de algo que esse país faz. Essa é outra forma de controlar povos e forças sociais, como os movimentos operários. São reações naturais de um empresariado muito concentrado, com grande consciência de classe. Claro que há resistência, mas fragmentada e pouco organizada e por isso podem seguir promovendo políticas às quais a maioria da população se opõe. Às vezes isso chega ao extremo.

O setor financeiro está o mesmo que antes; as seguradoras de saúde ganharam com a reforma de saúde, as empresas de energia ganharam com a reforma do setor, os sindicatos perderam com a reforma trabalhista e, certamente, a população dos EUA e do mundo perde porque a destruição da economia é grave por si mesma. Se o meio ambiente é destruído, os que mais sofrerão serão os pobres. Os ricos sobreviverão aos efeitos do aquecimento global.

Por isso a América Latina é um dos lugares no mundo hoje verdadeiramente interessantes. É um dos lugares onde há uma verdadeira resistência a tudo isso. Até onde chegará? Não se sabe. Não me surpreenderia com um giro à direita nas próximas eleições na América Latina. Mesmo assim, terá se conseguido um avanço que assenta as bases para algo mais. Não há muitos lugares no mundo dos quais se possa dizer o mesmo.

Tradução: Katarina Peixoto

domingo, 20 de setembro de 2009

I FLIPA - Festival Literário da Pipa

Veja a programação completa no blog:
www.heliogalvao.blogspot.com



SEXTA, 25 DE SETEMBRO DE 2009

17h30 — Tenda literária
Mesa 4: Hélio Galvão: A cultura praieira


Poucos intelectuais se credenciaram tanto à gratidão de sua terra e ao mesmo tempo dos estudiosos da História como o pesquisador, escritor e advogado Hélio Mamede de Freitas Galvão. No mundo confuso dos arquivos e cartórios, e no árduo universo da pesquisa histórica, Hélio Galvão percorreu quilômetros; da Fortaleza da Barra do Rio Grande à Tibau do Sul. Ao traçar a radiografia a trajetória humana e toda riqueza cultural produzida por ele, o jornalista contista, cronista, escritor e intelectual potiguar Sanderson Negreiros refaz essa trajetória tendo como debatedora a poeta e professora Diva Cunha, um dos nomes mais embasados da intelectualidade feminina potiguar, autora das obras poéticas ‘Canto de página’, ‘Palavra estampada’, ‘Coração de lata’ e o mais novo ‘Resina’; tendo ainda como mediadora a pesquisadora Gilmara Benevides, biógrafa de Hélio Galvão e autora do livro “Hélio Galvão - O Saber Como Herança” (edição Letras Potiguares/Funcarte).


Espaço Literário da Siciliano – Lançamentos e autógrafos
Autores das mesas: Todos os autores participantes das mesas literárias autografarão seus livros no Espaço Siciliano

Outros Autores locais:


Sexta, 25
19h – “Hélio Galvão, O Saber como Herança”, de Gilmara Benevides Costa

No ano passado, 3,8 milhões de brasileiros deixaram de ser pobres

Fotografia - Sebastião Salgado


Publicação: 20 de Setembro de 2009 às 08:59
Agência Brasil

A crise financeira internacional diminuiu o ritmo de crescimento econômico do Brasil a partir do final de 2008, mas não impediu que houvesse uma redução da pobreza. Segundo pesquisa da Fundação Getulio Vargas (FGV), um total de 3,8 milhões de brasileiros saíram da miséria no ano passado, o que representou uma queda de 12,27% no número de pessoas pobres.

Os dados constam da pesquisa Consumidores, Produtores e a Nova Classe Média, elaborada pelo Centro de Políticas Sociais (CPS) da FGV e que será apresentada na próxima segunda-feira (21).

A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) mostrou que, em 2008, os pobres sofreram menos com a desaceleração da economia provocada pela crise. Para os 10% das pessoas ocupadas com rendimentos mais baixos, o crescimento da renda média mensal foi de 4,3% no ano passado, enquanto para os 10% com rendimentos mais elevados houve elevação de 0,3%.

Segundo o levantamento da FGV, 19,3 milhões de brasileiros saíram da miséria desde 2003 com a melhoria do mercado de trabalho, o aumento do salário mínimo e os programas de transferência de renda como o Bolsa Família. Atualmente, o Brasil tem 16,02% da população abaixo da linha de pobreza, num total de 29,3 milhões de miseráveis.

Caso não houvesse a mundança dos últimos seis anos, a FGV calcula que o país estaria com 50 milhões de pobres. Em 1993, a economia brasileira tinha 35,03% da população na situação de miséria. Entre 1995 e 2003, esse indicador girou em torno de 28%.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Gaza: Misión Investigadora encuentra crímenes de guerra de israelíes y palestinos


15 de septiembre, 2009

http://www.un.org/spanish/News/fullstorynews.asp?NewsID=16488

Las evidencias indican que Israel cometió crímenes de guerra y contra la humanidad durante su más reciente incursión militar en la Franja de Gaza, mientras que los grupos armados palestinos también han cometido ese tipo de crímenes con el repetido lanzamiento de cohetes y morteros al sur de Israel. Así lo afirmó hoy en rueda de prensa el juez Richard Goldstone, líder de la Misión Investigadora de la ONU –integrada por cuatro expertos – encargada de analizar los posibles atropellos a las garantías fundamentales durante ese periodo (diciembre de 2008 y enero de 2009).

Goldstone señaló que estos crímenes no deben quedar impunes y explicó que la Misión considera que tanto israelíes como palestinos cuentan con los medios para procesar a los responsables, para lo que sugirió que sería suficiente un periodo de seis meses.

Pero si al término de ese lapso no se han tomado medidas, agregó, la recomendación de la Misión es que el Consejo de Seguridad de la ONU turne el caso al fiscal de la Corte Penal Internacional (CPI).

“Lo más importante es que se encuentre a los responsables. Debe haber justicia. Quienes cometieron crímenes de esta naturaleza deben ser investigados y, si hay evidencia suficiente, deben ser juzgados y castigados. También deben repararse los daños y algunas de las recomendaciones de la Misión son indemnizar a las víctimas. Es importante hacer justicia para las víctimas”, subrayó Goldstone.

Explicó que los hallazgos indicaron que durante la incursión en Gaza, Israel cometió violaciones graves de los derechos humanos y las leyes internacionales equivalentes a crímenes de guerra y posibles crímenes de lesa humanidad.

Según las pesquisas, Israel dirigió el ataque a la población civil palestina en su conjunto e impuso un bloqueo que provocó un castigo colectivo.

Asimismo, estableció una política de aislamiento y privaciones progresivos en la Franja de Gaza, además de causar la muerte de 1.400 personas y destruir viviendas, fábricas, pozos, escuelas hospitales y otras obras de infraestructura.

Por otra parte, el informe de la Misión sostuvo que el lanzamiento de cohetes y morteros por los grupos armados palestinos causaron terror en las comunidades afectadas del sur de Israel, además de provocar muertos, heridos y daños materiales.

Informe da ONU: Israel utilizou força excessiva durante conflito em Gaza


France Presse

Publicação: 15/09/2009 16:03


Israel fez uso desproporcional de sua força durante o conflito com o Hamas na Faixa de Gaza e não tomou as precauções necessárias para poupar os civis, segundo um relatório de uma comissão investigadora da ONU.

O relatório foi apresentado nesta terça-feira em Nova York por Richard Goldstone, presidente da missão do Conselho de Direitos Humanos da ONU encarregado de investigar as supostas violações ocorridas durante o conflito.

O documento indicou que Israel violou o direito humano internacional durante a ofensiva em resposta ao lançamento de mísseis procedentes de Gaza, há oito meses.

"As operações militares em Gaza foram dirigidas por Israel contra o povo de Gaza em conjunto, segundo uma política de castigo para a população de Gaza, e em uma política deliberada de força desproporcional dirigida à população civil", segundo o relatório.

"Israel não adotou as precauções necessárias requeridas pelo direito internacional para limitar o número de civis mortos ou feridos nem os dados materiais", acrescentou.

O documento considerou que o disparo de obuses com fósforo branco e o uso de artilharia altamente explosiva eram violações à lei humanitária.

Israel se negou a cooperar com a comissão investigadora argumentando que esta é contra seu país.

Quase 1.400 palestinos e 13 israelenses morreram durante os enfrentamentos, entre 28 de dezembro de 2008 e 18 de janeiro, quando Israel invadiu Gaza com o argumento de tentar deter o lançamento de mísseis contra seu território.

A comissão de quatro membros concluiu que o exército de Israel pode ser considerado responsável por "crimes de guerra e, possivelmente, em algum sentido, de crimes contra a humanidade", afirmou Goldstone.

Numa reação imediata à divulgação do informe, Israel rejeitou as "conclusões parciais" da comissão da ONU.

"Israel não julgou útil cooperar com a missão da comissão Goldstone porque seu mandato é claramente parcial e ignora os milhares de ataques com foguetes do Hamas contra populações civis no sul de Israel que tornaram necessária a operação contra Gaza", indica um comunicado do ministério israelense das Relações Exteriores.

"O mandato da missão e a resolução que a estabeleceu prejulgaram os resultados da investigação, deram legitimidade à organização terrorista Hamas", disse a chancelaria.

"A estratégia do Hamas, que consiste em utilizar civis palestinos como escudos para lançar ataques terroristas, foi ignorada deliberadamente", acrescentou o ministério.

"Apesar destas reservas, Israel estudará o documento com cuidado, como ocorre com todos os documentos preparados pelas organizações nacionais e internacionais", prometeu a chancelaria, que destacou que as Forças Armadas israelenses abriram investigações sobre o comportamento de suas tropas em Gaza.

O movimento Hamas também denunciou o relatório da ONU como "político e desequilibrado".

"Trata-se de um relatório político, desequilibrado e desonesto à medida que acusa tanto os que cometem o crime quanto os que resistem", declarou à AFP um dirigente do grupo, Ismael Radwan.

A Anistia Internacional (AI), por sua vez, pediu à ONU que recorra à Corte Penal Penal Internacional (CPI) se Israel e o Hamas não realizarem investigações a fundo sobre o conflito de Gaza.

"O Conselho de Direitos Humanos deveria aprovar este informe e suas recomendações e pedir ao secretário-geral da ONU que o transmita ao Conselho de Segurança da ONU", pediu, em nome da AI, Donatella Rovera, que investigou a ofensiva em Gaza para a organização de defesa dos direitos humanos.

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Unesco denuncia danos causados pelos EUA à Babilônia, no Iraque

09/07/2009 - 14h48
da Folha Online


A Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) denunciou nesta quinta-feira que as tropas americanas e forças de segurança privadas contratadas pelos Estados Unidos para atuar na Guerra do Iraque causaram graves danos ao sítio arqueológico da Babilônia.


Os vestígios arqueológicos da cidade sofreram deteriorações graves durante "escavações, desmantelamentos e nivelações de terreno", diz um informe elaborado pelo Comitê Internacional de Coordenação da Unesco para a Salvaguarda do Patrimônio Cultural do Iraque (CIC-Irak), divulgado nesta quinta-feira.

Soldados dos EUA fazem guarda na histórica Babilônia; Unesco denuncia dano ao local histórico durante ocupação americana


Situada a 90 km ao sul da capital Bagdá, a cidade da Babilônia foi a capital de dois famosos reis da Antiguidade: Hamurabi (1792-1750 a.C.) e Nabucodonosor (604-562 a.C.). Hamurabi é o autor de um dos primeiros códigos jurídicos da humanidade, e Nabucodonosor foi o rei que mandou construir os Jardins Suspensos da Babilônia, uma das Sete Maravilhas do Mundo.
Segundo o texto, as tropas e empresas contratadas por Washington cavaram centenas de metros de túneis pelas ruínas e usaram veículos militares pesados sobre o que eram caminhos frágeis de procissão.


"Houve dano considerável", disse o arqueólogo John Curtis, do Museu Britânico, que inspecionou o local após os EUA entregarem o controle de volta ao governo iraquiano.


O relatório afirma ainda que, durante a guerra, iniciada em 2003, a cidade arqueológica foi saqueada e coleções dos museus dedicados a Hamurabi e a Nabucodonosor, assim como na Biblioteca e nos Arquivos da Babilônia, foram destruídas.


O sítio arqueológico da Babilônia foi utilizado como base militar pelas forças armadas da coalizão no período entre 2003 e 2004.


Em informe próprio, o Museu Britânico compara os danos ao estabelecimento de um acampamento militar nas proximidades da Grande Pirâmide do Egito ou do pré-histórico Stonehenge no Reino Unido. O texto afirma ainda que foram produzidos danos consideráveis em alguns elementos estruturais importantes, como a Porta de Ishtar e a Via Processional.


A agência cultural da ONU (Organização das Nações Unidas) quer transformar a Babilônia em patrimônio da humanidade para evitar vandalismo semelhante no futuro. Os americanos afirmam que a destruição causada por vandalismo seria maior caso as tropas não estivessem no local.


Com France Presse e Associated Press

terça-feira, 1 de setembro de 2009

"Acho que não existe mais arte", disse Lévi-Strauss em entrevista ao "Mais!"


O antropólogo belga Claude Lévi-Strauss

Pintura corporal indígena brasileira (fotografia de Claude Lévi-Strauss, 1932).



01/09/2009 - 06h40

da Folha Online

O ano era 1993. Em entrevista ao caderno "Mais!" da Folha, o etnólogo e antropólogo Claude Lévi-Strauss (1908) afirmou que já não reconhecia mais a existência da arte em nenhum meio de expressão humana. "Há alguns modos de expressão, que continuamos chamando por nomes tradicionais --pintura, música, literatura--, mas creio que sejam outras coisas. Não são mais as mesmas artes", disse.

Conhecido como fundador da antropologia moderna, Lévi-Strauss --que completa 100 anos no dia 28 de novembro -- estava prestes a lançar o livro Saudades do Brasil, com fotos feitas no país nos anos 30, quando fez missões etnológicas em Mato Grosso e na Amazônia e esboçou as bases do estruturalismo, corrente que revolucionaria a antropologia em meados do século 20.

A sabatina do antropólogo, na qual ele fala sobre o papel da crítica de arte, o relativismo antropológico, as "idéias ecológicas" e o ceticismo está no livro "Artes do Conhecimento" e pode ser lida abaixo, na íntegra. O livro "Artes do Conhecimento" reúne, ao lado de "Conhecimento das Artes", as 100 melhores entrevistas da primeira década do "Mais!" com intelectuais, pensadores e grandes nomes do teatro, cinema, literatura, artes plásticas, música e dança.


Leia abaixo a íntegra da entrevista com Claude Lévi-Strauss publicada em 3/10/1993.

FOLHA - Por que o senhor decidiu concluir sua reflexão sobre o pensamento mitológico com História de Lince?
LÉVI-STRAUSS - Era preciso concluir em algum momento. Pensei que, se tinha conseguido mostrar alguma coisa sobre os mitos, o trabalho já tinha sido feito. Por que História de Lince em particular? Porque era um dossiê complicado, que eu carregava havia muito tempo, mas que tinha sempre deixado fora de meus livros, porque justamente colocava certos problemas de natureza muito específica que me teriam feito perder o fio da argumentação nos trabalhos anteriores. Era, portanto, o que chamamos em inglês an unfinished business [negócio inacabado]. Para fechar a minha reflexão, era preciso não haver mais essa lacuna, que era evidente. Várias vezes, na série "Mythologiques", tinha me referido a esse problema sem realmente tratá-lo.

FOLHA - A ideologia bipartida, o pensamento duplo dos ameríndios, que o senhor trata em História de Lince, é o que permite a integração do inimigo entre os povos indígenas da América. Seria um germe suicida dessas sociedades?
LÉVI-STRAUSS - É um problema imenso. É evidente que os ameríndios tinham, em seu sistema de pensamento, um lugar livre para o que não era ameríndio precisamente. Tudo depende então do que pode surgir para preencher esse lugar vazio. É uma divagação, mas poderíamos imaginar muito bem que, quando os espanhóis e os portugueses chegaram ao México, ao Peru e ao Brasil, tivessem tido outras intenções. Poderíamos imaginar uma grande aliança que se teria produzido no século 16 entre os Habsburgos [dinastia que na época reinava na Espanha] e os astecas. Se tivesse havido tal aliança, ela teria mudado a face do mundo.

FOLHA - O relativismo antropológico, do qual o senhor é um fundador...
LÉVI-STRAUSS - De jeito nenhum. Não sou fundador do relativismo antropológico. Ele existe desde Montaigne [1533-92].

FOLHA - De qualquer jeito, o relativismo antropológico não teria reproduzido nas sociedades ocidentais contemporâneas um pensamento análogo, uma estrutura equivalente hoje à ideologia bipartida dos ameríndios, já que propõe a co-habitação com culturas exteriores?
LÉVI-STRAUSS - Alguns podem fazê-lo e pensar dessa forma talvez. Mas eu não iria tão longe. Para mim, o relativismo cultural não tem conteúdo positivo. É simplesmente a constatação de que não dispomos de nenhum critério absoluto para julgar uma cultura em relação a outra. Eu paro diante dessa incapacidade. Não tento substituí-la por algo positivo, como seria a doutrina da Unesco, por exemplo.

FOLHA - O senhor acha que, hoje, o relativismo cultural corre perigo com essa retomada das identidades nacionais?
LÉVI-STRAUSS - De jeito nenhum. É natural - eu diria quase o dever moral de cada cultura - tentar continuar sendo o que é, preservando sua identidade.

FOLHA - Ao final de Olhar, Escutar, Ler, o senhor diz que, entre tribos ameríndias, havia "mulheres criadoras" inspiradas pelos deuses. Uma idéia semelhante à noção romântica do gênio artístico, à forma que vemos os artistas e a arte nas sociedades ocidentais. O senhor acha que essa noção ocidental da arte existia já entre os povos ameríndios?
LÉVI-STRAUSS - Não podemos generalizar os ameríndios. As populações podem ser tão diferentes entre si quanto cada um de nós. Essa idéia existia incontestavelmente entre certos grupos. Particularmente nas sociedades da costa oeste do Canadá, que eram um pouco à parte, por serem fortemente hierarquizadas do ponto de vista não apenas social, mas econômico. Havia nobres, pessoas comuns, escravos, ricos e pobres. Para esses ricos, os artistas não eram muito diferentes do que foram na Itália durante o Renascimento e mesmo em contextos mais próximos de nós. Mas não podemos generalizar. Se você toma, por exemplo, os tinglit, do Alasca, e os tsimshian, da Colúmbia Britânica, os primeiros consideravam, com razão, que os segundos eram grandes artistas. Faziam encomendas de esculturas aos tsimshian, que iam até os tinglit para construir monumentos.

FOLHA - No mesmo livro, o senhor diz que só a progressão da história da arte mostra que algo aconteceu entre os homens, que houve uma civilização. Essa idéia não desvalorizaria a noção de arte e demito entre os índios, uma vez que, no caso, não há progressão?
LÉVI-STRAUSS - Você poderia generalizar mais uma vez o problema e dizer que se trata da questão dos povos com ou sem história, mas sempre me manifestei contra essa concepção. Nossa diferença em relação aos ameríndios, aos melanésios ou aos africanos de outrora é que não damos a mesma importância, o mesmo lugar, à história. Esse juízo que fiz é evidentemente subjetivo, o juízo de membro de uma sociedade e uma civilização. Não estou generalizando, estou me referindo à arte na minha civilização.

FOLHA - Hoje, no Brasil, há um problema grave quanto à demarcação das terras indígenas. Há massacres de índios, como os ianomâmis. Há um conflito de interesses entre índios, militares, garimpeiros. Ao mesmo tempo, toda a sociedade brasileira está em estado de guerra civil. A polícia mata cidadãos a sangue-frio, em suas próprias casas. Como defender a questão dos índios nesse contexto? Por que eles devem ter status privilegiado em relação ao resto da sociedade?
LÉVI-STRAUSS São problemas para os brasileiros. Dizer que demarcar as terras dos índios é lhes dar um direito excepcional me parece completamente contrário à realidade. Só há um meio de tentar remediar o enorme mal que lhes foi feito no momento da colonização, quando foram exterminados por meios diretos ou indiretos. É preciso lhes devolver uma parte, ainda que pequena, do que foi o território deles, isto é, a totalidade do continente. Se eu tivesse o poder, devolveria aos índios o máximo que pudesse. Mas, ao mesmo tempo, reconheço que, do ponto de vista brasileiro, há problemas. Trata-se de um grande país, que tende a se modernizar até o seu interior mais profundo. Não tenho também argumentos decisivos a propor.

FOLHA - O que o senhor pensa das idéias ecológicas, que se tornaram fortes em todo o mundo e ganharam particular importância em países como o Brasil?
LÉVI-STRAUSS - Sou a favor, e de uma maneira tão extrema que acaba se tornando puramente teórica. O que norteia o pensamento ecológico é que ele proclama a vontade de defender solidariamente a natureza e o homem. Defender a natureza para as necessidades e dentro dos interesses do homem. Estou convencido de que as coisas são profundamente contraditórias. Se tivesse que tomar posições ecológicas, diria que o que me interessa são as plantas e os animais - e danem-se os homens. É óbvio que se trata de uma posição indefensável. Por isso, guardo-a para mim.

FOLHA - Na introdução de História de Lince, o senhor diz que é a ciência que faz o mito reviver hoje, que é pelos paradoxos científicos que vemos o equivalente do pensamento mítico nas sociedades contemporâneas. Mas a ciência não seria antes o contrário da mitologia?
LÉVI-STRAUSS - Claro. Ela é o contrário da mitologia. Nunca quis desvalorizar o pensamento científico, que respeito profundamente. Não falei da ciência, mas da maneira com que os cientistas tentam fazer os leigos compreenderem o trabalho científico e com que os leigos apreendem o que se passa na área da ciência. Atribuo um parentesco entre essa passagem de conhecimento e o mito. Não se trata da ciência tal qual os cientistas a praticam.

FOLHA - O senhor sempre tomou o partido da ciência, mas, na releitura de Montaigne que faz em História de Lince, mostra também suas distâncias em relação a uma fé no conhecimento. O senhor se tornou mais cético em relação à ciência?
LÉVI-STRAUSS - A lição que tirei de Montaigne é que estamos condenados a viver e pensar simultaneamente em vários níveis e que esses níveis são incomensuráveis. Há saltos existenciais para passar de uma outro. O último nível é um ceticismo integral. Mas não se pode viver com ceticismo integral. Seria preciso se suicidar ou se refugiar nas montanhas. Somos obrigados a viver ao mesmo tempo em outros níveis em que esse ceticismo está moderado ou totalmente esquecido. Para fazer ciência, é preciso fazer como se o mundo exterior tivesse uma realidade e como se a razão humana fosse capaz de compreendê-lo. Mas é "como se".

FOLHA Cada vez mais, questões que eram tratadas pelas ciências humanas, pela sociologia, pela psicanálise, ganham respostas e soluções pela biologia, pela neurobiologia etc. O senhor acha que outros discursos científicos,mais precisos, estão tomando o lugar das ciências humanas?
LÉVI-STRAUSS - Isso sempre aconteceu na história da ciência. Continua acontecendo, de forma muito lenta e restrita. Estou convencido de que muito de nossas pesquisas, da psicologia, da sociologia, são modos provisórios de apreender fenômenos que tratamentos mais sérios vão acabar solucionando. [O filósofo positivista francês] Auguste Comte [1798-1857] já tinha dito isso antes de mim.

FOLHA - O senhor diria então que ciências como a antropologia podem desaparecer de uma hora para a outra?
LÉVI-STRAUSS Não podemos desaparecer, porque não somos uma ciência [risos]. A biologia e a neurobiologia poderão explicar muitas coisas que a antropologia estuda há anos. Por exemplo, quando compreendermos exatamente o que é a linguagem, compreenderemos muita coisa que não entendemos da cultura. Mas a antropologia continuará a existir. Quando todos os povos exóticos que a antropologia estuda tiverem desaparecido - não fisicamente, mas a partir do momento em que entrarem no curso da civilização mundial, forem assimilados -, teremos em relação a eles um ponto de vista equivalente ao que mantemos hoje coma civilização egípcia, os gregos ou os romanos. Trabalharemos sobre documentos. A massa de documentos antropológicos existente e ainda virgem é absolutamente fabulosa. Há material para vários séculos de estudo.

FOLHA Em Olhar, Escutar, Ler, o senhor escreveu que há momentos na história da arte em que a qualidade estética diminui quando crescem o saber e a habilidade técnica. É o que acontece hoje?
LÉVI-STRAUSS Não. Quando escrevi isso, estava pensando na história da tapeçaria. A mais bela tapeçaria que conhecemos é a dos séculos em que o tapeceiro dispunha de número limitado de cores. Esse número de cores só aumentou nos séculos 18 e 19. Em vez de cem cores, hoje temos 10 mil ou 100 mil. A qualidade se enfraquece. O problema da arte moderna, ao menos nas artes plásticas, não é um enriquecimento dos meios técnicos, mas, ao contrário, um considerável empobrecimento. Isso é verdade para as artes plásticas, mas não para a música, que se torna cada vez mais erudita. Não gosto nem um pouco da música contemporânea, mas reconheço que ela é extremamente erudita.

FOLHA - Para que serve a crítica de arte hoje?
LÉVI-STRAUSS - Desde sempre, o papel da crítica foi tanto traduzir, por meios literários, a emoção do espectador diante da obra, quanto tentar compreender justamente as razões e os mecanismos dessa emoção. O problema é que acho que hoje não existe mais arte. Há alguns modos de expressão, que continuamos chamando por nomes tradicionais - pintura, música, literatura -,mas creio que sejam outras coisas. Não são mais as mesmas artes.

FOLHA - O senhor escreveu que a grandeza de Poussin vem em parte do "segundo grau" - é um pintor que pinta de maquetes, por exemplo, e não diretamente da realidade. Não seria exatamente uma exacerbação desse "segundo grau", um esquecimento do real, o problema da arte hoje, com o pós-modernismo, a arte como "segundo grau" de si mesma?
LÉVI-STRAUSS Você está misturando duas coisas: o fenômeno da criação de uma forma profunda, como em Poussin e outros; e o fenômeno epidérmico a que você faz referência. A grandeza de Poussin vem do fato de ele ser um gênio, e não de outra coisa. Mas isso não é suficiente para explicar a obra. É preciso saber como funcionam a obra e o gênio. O "segundo grau" permite compreender o modo pelo qual ele trabalha e o tipo de emoção que sentimos diante de seus quadros. Diante de uma tela de Poussin, temos a impressão de estarmos na frente de um pequeno teatro. Essa impressão vem de como o quadro é composto. Mas não basta isso para fazer um grande quadro.

FOLHA - O senhor define a arte moderna não-figurativa como um naufrágio. Por que a questão do realismo e da verossimilhança lhe interessa tanto?
LÉVI-STRAUSS O mundo é de tal riqueza, e estamos tão longe de esgotar todas essas virtualidades, que me parece ingênuo querer criar fora disso. Quando vejo um quadro não-figurativo, penso que é sempre menos belo que o espetáculo não-figurativo que me oferece a natureza, na forma de um cristal, um jogo de luz etc.

FOLHA - O senhor trata também da representação do sobrenatural em Poussin. Aonde foi parar o sobrenatural na arte contemporânea? O senhor acha que a representação do sobrenatural ainda existe na arte?
LÉVI-STRAUSS Quando falei do sobrenatural em Poussin, estava me referindo a suas paisagens. Uma paisagem de Poussin não se parece comas de [pintores impressionistas franceses como] Pisarroou Sisley. É uma paisagem monumental, que é mais bela do que qualquer paisagem real que possamos observar.

FOLHA - Mas o senhor analisa a representação da morte e do sobrenatural em Poussin também, com a imagem do crânio, por exemplo. Hoje, a arte abstrata não poderia ser a representação desse sobrenatural, do invisível, no mundo contemporâneo?
LÉVI-STRAUSS - Deixo essa questão aos amantes da arte abstrata.

FOLHA - Por que o senhor despreza a fotografia?
LÉVI-STRAUSS - Digamos que isso vem de uma pequena exasperação diante da espécie de veneração da fotografia que vimos aparecer há alguns anos. Fiz milhares de fotografias ao longo de minha vida. Algumas são bastante belas. Mas não se deve exagerar. A mais bela fotografia não existirá jamais diante de um belo quadro. Esse meu desprezo foi mais um movimento de mau humor.

FOLHA - O senhor está trabalhando num livro de fotografia sobre o Brasil.
LÉVI-STRAUSS Trabalhando é exagero. Quero selecionar de 3 mil negativos que fiz durante minha estada no Brasil cerca de 200 ou 300 fotos e publicá-las de maneira mais apresentável do que em Tristes Trópicos. São fotos de expedição e muitas da cidade de São Paulo, que não consigo mais situar. [A antropóloga] Manuela Carneiro da Cunha teve a gentileza de me trazer mapas de São Paulo da época para que eu consiga localizar onde as fotos foram feitas. É muito difícil. Temo que essas imagens tenham perdido o interesse. Não consigo dar início ao trabalho. Elas me chateiam.

FOLHA - O senhor acredita que todas as artes podem ser interpretadas pelo estruturalismo, pela linguagem- que toda arte é linguagem?
LÉVI-STRAUSS Em todas as artes, há autores e obras que se prestam melhor a uma análise estruturalista e outros que são, digamos,mais rebeldes. Se me pedissem para fazer uma análise estrutural de Em Busca do Tempo Perdido [o romance de Marcel Proust], acho que me veria em maus lençóis. Não digo que seja impossível, mas seria uma tarefa imensa.

FOLHA - Numa entrevista recente a CatherineClément,7 o senhor disse que todos os autores de verdade, em arte, são estruturalistas.
LÉVI-STRAUSS Não me lembro de ter dito isso. Creio que uma das formas de interpretar e compreender a criação artística é abordá-la pelo ângulo estruturalista. Mas não me lembro de ter dito que todos os verdadeiros autores são estruturalistas. Você me desculpe eu lhe dizer isto, mas, quando dou uma entrevista, respondo qualquer coisa [risos].

3/10/1993

1 Saudades do Brasil.Tradução de Paulo Neves. São Paulo: Companhia das Letras, 1994.
2 Essas fotos também dariam origem a um livro: Saudades de São Paulo. Tradução de Paulo Neves. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.
3 Tradução de Rosa Freire d'Aguiar. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.
4 Tradução de Beatriz Perrone-Moisés. São Paulo: Companhia das Letras, 1993.
5 Tradução de Beatriz Perrone-Moisés. São Paulo: Companhia das Letras, 1997.
6 Nicolas Poussin (1594-1665), o mais importante pintor francês do século 17; ArthurRimbaud (1854-91), um dos mais destacados poetas simbolistas franceses; Jean-Philippe Rameau (1683-1764), compositor e teórico musical francês, autor de 35 óperas e balés; André Breton (1896-1966), poeta, ensaísta e crítico francês, um dos maiores nomes do surrealismo.
7 A ensaísta e romancista francesa Catherine Clément (1939) é autora de vários títulos de sucesso, inspirados pela antropologia e pela psicanálise. Publicou na série "Que Sais-Je" o volume Claude Lévi-Strauss. Paris: PUF, 2002.

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Com licença, sim?


A disputa entre aqueles que defendem o uso dos softwares livres e dos que utilizam o softwares proprietários não envolve apenas questões tecnológicas. A escolha do usuário tem efeitos na política, na economia e no desenvolvimento sustentável de um país como o Brasil

Cíntia Guedes, Matheus Araújo

(20/05/2009)

Navegar é preciso, pagar não é preciso

É quase sempre proibido copiar, distribuir, reproduzir ou modificar a maioria dos produtos que tem como matéria-prima a informação, a tecnologia ou o conhecimento. Acostumamos com o tal dos ‘direitos reservados’, e é assim com a imensa maioria dos livros, CDs, softwares etc. Até pouco tempo, só com muito dinheiro era possível acompanhar o ritmo das inovações. Agora, proliferam-se no mundo inteiro movimentos que defendem a bandeira do sistema colaborativo de produção de conhecimento criando soluções palpáveis, inteligentes e rentáveis de produção, entre outras coisas, de Softwares Livres. Alternativas, aparentemente, mais acessíveis e bem mais justas [1].

A principal característica de um software livre é a abertura do código fonte. O usuário pode estudar como o software funciona e adaptá-lo às suas necessidades, alterando-o num sistema de soma e não de sobreposição, uma vez que um problema é solucionado ou uma nova adaptação é feita ela é divulgada e pode ser usada por todos, sem pagar nada. O software proprietário trabalha de maneira oposta: não permite que o usuário tenha acesso ao código fonte e cobra preços de softwares novos por pequenas inovações. Ou seja, enquanto o Software Proprietário é padronizado, o Software Livre permite adequações aos mais diferentes usos.

O exemplo maior desta disputa parece ser entre o Software Proprietário Windows e o Software Livre Linux, ambos, sistemas operacionais para computadores. Há diferenças bem marcadas entre os dois. A atualização do Linux é muito mais rápida, uma vez que não há necessidade de uma nova versão: os erros podem ser corrigidos por usuários em qualquer lugar do mundo. Já o Windows demora mais tempo para ser atualizado, pois o acesso às novas versões depende da Microsoft e do lançamento do produto no mercado. O Vista, a mais recente atualização do Windows, foi lançado em 2007, cinco anos depois de seu antecessor, a versão XP. Isso acontece porque o Windows utiliza a licença de reserva de direitos autorais enquanto o Linux utiliza outra licença - a GPL (General Public License ou Licença Pública Geral). [2].

Ao navegar pelo Software Proprietário que conferiu a Bill Gates o status de homem mais rico do mundo durante anos, encontramos uma interface altamente amigável, com ferramentas simples e práticas.- Além disso, o uso massivo do Windows faz com que ele seja, na maioria das vezes, muito mais familiar. Já o Linux, à primeira vista, parece coisa de outro planeta. O usuário comum, acostumado com a interface do Windows e sem conhecimentos aprofundados de informática, demora a habituar-se ao Linux. Segundo o estudante de jornalismo Breno Fernandes, que usa tanto o Windows quato o Linux, a maior dificuldade para um iniciante em Software Livre é dar-se conta de que não entende tanto de computadores como pensava. O exemplo é bastante ilustrativo: “imaginemos que a pessoa só usou o Internet Explorer toda a vida; e aí quando chega no Linux vai logo buscar o ezinho azul e o nome internet. Nesse momento, falta, ou tarda a vir, a informação de que Internet Explorer não é a Internet, mas um browser ou navegador, uma ferramenta, um software que te permite acessar a internet. ”. Ainda a superação do estranhamento inicial depende, em parte, da predisposição do usuário em conhecer um novo sistema.

Pensando justamente nesse tipo de consumidor, foi desenvolvido o Ubuntu - Linux for human beings (Linux para seres humanos) http://www.ubuntu-br.org/, um sistema operacional baseado no Linux e que promete ser muito mais fácil de usar.

O que chama atenção nesta disputa é que ela abrange não somente questões tecnológicas; toca também a política, a economia e a esfera do desenvolvimento social. “Construir e utilizar o software livre é uma maneira de trabalhar com a perspectiva de que o processo educacional tem que formar um cidadão para que ele seja autor, produtor de conhecimento e de culturas e não só um consumidor de informações”, afirma Nelson Pretto, professor da Faculdade de Educação da UFBA, fundador do Projeto Software Livre Bahia (PLS-Ba) e do projeto Tabuleiro Digital, que disponibiliza para a comunidade, na Faculdade de Educação, computadores em tabuleiros que se assemelham aos das baianas de acarajé. Os tabuleiros funcionam para navegação na internet por um curto intervalo de tempo – tempo de comer um acarajé – e todas as máquinas utilizam softwares livres.

Liberdade em verde e amarelo

"O software livre tem um significado fundamental para um país como o Brasil, porque tem como princípio a ideia de autonomia", afirma Pretto. Ao que parece, os empresários brasileiros já se deram conta dessa vantagem: segundo pesquisa publicada no blog Cultura Digital (http://www.cultura.gov.br/blogs/cultura_digital), do Ministério da Cultura, já em 2007, 53% das empresas no país utilizam Softwares Livres e esse número sobe para 73% quando contadas apenas as empresas de grande porte (aquelas com mais de mil funcionários).

O discurso governamental veiculado tanto em jornais de grande circulação no país quanto nos aparatos de comunicação do Estado (blogs do governo, por exemplo ) afirma que o Brasil tem ferramentas para despontar no desenvolvimento de SL, principalmente para o mercado de exportação. Nesse setor, a região nordeste tem chances de abocanhar grande fatia da produção, uma vez que no eixo sul-sudeste existem indústrias para exportação de software proprietário que absorvem muito mais mão de obra e, possivelmente, deixam o mercado menos suscetível às investidas do SL.

Atualmente Pernambuco desponta na produção de SL; Salvador, embora ainda não possua filiais de grandes empresas de produção de SL, é referência no desenvolvimento. Foi em terras soteropolitanas que surgiu, por exemplo, o primeiro Twiki do Brasil. SL que permite a interação de grupos usando um mesmo navegador, um Twiki é uma plataforma de criação colaborativa de conteúdo, a exemplo da Wikipédia. E o que tornou Salvador pioneira foi a criação do Twiki do Instituto de Matemática da UFBA, que permite uma melhor comunicação entre alunos e professores, pois todos são cadastrados e podem consultar informações sobre as disciplinas do curso, ler e baixar arquivos.

Parecendo andar na contramão, o governador da Bahia, Jacques Wagner, assinou no primeiro semestre de 2008 um protocolo de intenções com a Microsoft, em que acertavam a parceria do governo do estado com a empresa para o desenvolvimento de ações de inclusão digital. Entre as ações, está prevista a doação de computadores para escolas públicas, obviamente com o Windows já instalado.

A bandeira do SL foi levantada pelo Governo Lula desde a campanha presidencial de 1998, e quem não se lembra do ex- ministro Gilberto Gil, logo depois de assumir o Ministério da Cultura em 2003, usando um pingüim na lapela? Era o Tux, um pingüim farto após ter comido vários peixes, mascote escolhido por Linus Torvalds pra representar o Linux. O uso do SL nas instituições federais foi incentivado principalmente pelo MinC e pelo Ministério da Educação, contudo, a decisão da adoção do SL fica a cargo do gestor de cada instituição. Ainda não há nenhuma lei que regulamente a questão.

Bahia.br

"E o Linux começa a incomodar", é o que pontua Daniel Cason, estudante do curso de Ciências da Computação da UFBA e membro do Graco (Gestores da Rede Acadêmica de Computação) que gerencia parte da rede de computadores da sua faculdade desde 2005. O grupo de gestores funciona como uma oficina de redes prática, ou seja, o aluno trabalha efetivamente com o desenvolvimento e a manutenção de uma rede - o que para Cason deveria ser uma disciplina da grade curricular de qualquer curso de computação.

De acordo com Cason, a opção do Graco pelo uso de soluções livres é fundamental não só para o seu aprendizado acadêmico ou pelo fato de não serem cobradas licenças pelos softwares, mas também para uma eficiente manutenção da rede. A cada nova necessidade ou ideia que é apresentada e a cada falha encontrada os alunos têm a possibilidade de intervir nos softwares e de adequá-los às suas intenções. Afinal, eles próprios, através de um processo de criação conjunta, podem solucionar os problemas que encontram.

Vale ressaltar que o uso de um software livre não significa um uso necessariamente não comercial. No mercado de Salvador algumas empresas já apostam no uso do SL, seja buscando benefícios financeiros ou por ideologia, elas podem encontrar suporte em cooperativas que trabalham exclusivamente com tecnologias livres, e que oferecem desde serviços relacionados ao desenvolvimento de softwares até a migração de Software Proprietário para Software Livre. Este é o caso da Colivre www.colivre.coop.br , cooperativa soteropolitana, que oferece seus serviços desde a pessoas físicas, políticos, órgãos governamentais, ONG’s até mesmo a empresas privadas.

A cooperante Joselice de Abreu chama a atenção para a relação entre SL e Economia Solidária: "a gente desenvolve o software aqui e, se a população consome o nosso software, isso vai desenvolver a economia local". Para ela, a questão é simples. Trata-se do consumo consciente, já que o capital que é investido localmente, num bairro, cidade ou estado tem um retorno muito mais rápido. “Quando usamos o suporte de uma empresa a qual podemos contatar por telefone ou ‘bater na porta’ é diferente de usar os serviços de uma multinacional, cujo suporte está em outro país”, exemplifica Abreu .

O caso parece simples: as tecnologias desenvolvidas próximas à comunidade possibilitam o retorno mais rápido do capital investido para a própria comunidade. Em Salvador, o movimento Software Livre cresce quase que escondido, em meio ao frenesi pelos pseudo-super-novos Softwares Proprietários que economizam seu tempo, ou seja, pela sempre nova (e cara!) solução dos seus problemas. A grande sacada é sempre a da multinacional, que pensa de maneira organizada e inteligente na inserção dos seus produtos no mercado. Ainda assim, mesmo para aqueles não muito dispostos com a causa do Software Livre, ele pode ser uma opção econômica e tanto ou mais eficiente do que o Software Proprietário. Mas quem sabe valha a pena inverter a lógica e refletir sobre o caso, ou como disse o professor Nelson Pretto: "Farinha pouca, um pouquinho de farinha pra todo mundo".



[1] Esta reportagem foi publicada originalmente na revista Fraude: ano p5 - n.06 - Salvador/Bahia. Essa publicação é realizada pelos bolsistas do Programa Educação Tutorial da Faculdade de Comunicação da UFBA

[2] Em termos gerais, a GLP se baseia em quatro liberdades:
Liberdade n.o 0: A liberdade de executar o programa, para qualquer propósito;
Liberdade n.o 1: A liberdade de estudar como o programa funciona e adaptá-lo para as suas necessidades. O acesso ao código-fonte é um pré-requisito para esta liberdade;
Liberdade n.o 2: A liberdade de resdistribuir cópias de modo que você possa ajudar ao seu próximo;
Liberdade n.o 3: A liberdade de aperfeiçoar o programa, e liberar os seus aperfeiçoamentos, de modo que toda a comunidade se beneficie deles. O acesso ao código-fonte também é um pré-requisito para esta liberdade
Fonte: Wikipédia

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

"Francamente, Querida, Não Estou Nem Aí"

A partir da esquerda, Vivien Leigh, Clark Gable e o diretor Victor Fleming no set de filmagens.
Conflito de egos marcou a premiação da produção



Revista BRAVO! | Agosto/2009

O diretor Victor Fleming dirigia atrizes usando métodos heterodoxos. Com essa idiossincrasia e várias qualidades, criou dois dos maiores clássicos do cinema americano, “...E o Vento Levou” e “O Mágico de Oz” — que completam sete décadas neste ano

Por David Denby

O milionário americano Howard Hughes, cuja perspicácia em determinados assuntos (excetuando-se a aeronáutica e as belas mulheres) raramente era levada a sério, disse, uma vez, algo inteligente sobre os méritos de dois diretores de cinema. Sua opinião foi dada no início de 1939, quando George Cukor principiava as filmagens de ...E o Vento Levou. O filme — uma adaptação do sucesso de mil páginas de Margaret Mitchell, lançado em 1936, sobre o sul dos Estados Unidos, a Guerra Civil e a Reconstrução — era a maior e a mais cara produção de Hollywood até aquele momento. Tinha elenco numeroso, sets gigantescos (a cidade de Atlanta foi queimada e, depois, reconstruída) e centenas de figurantes barbados e enfaixados perambulando pelo cenário. A produção, no entanto, rumava para o desastre. O roteiro podia ser gentilmente descrito como uma bagunça, e o astro — Clark Gable — não se sentia confortável nas filmagens. Os primeiros rumores desagradaram David O. Selznick, produtor lendário e meticuloso que dominava cada aspecto do filme. Ele acabou por demitir Cukor.

Em seu lugar, Selznick colocou Victor Fleming, que, na época, dirigia outro grande filme, O Mágico de Oz. Fleming era um homem vigoroso e engenhoso, mas poucos o consideravam um artista. A mudança agradou a Clark Gable, mas não às duas atrizes principais — a jovem Vivien Leigh, recém-chegada da Inglaterra e ainda não muito famosa, e Olivia de Havilland, que era, então, namorada de Howard Hughes. Ambas confiavam em Cukor, conhecido como "diretor de atrizes", e Olivia de Havilland levou suas apreensões para Hughes, que disse: "Não se preocupe. Tudo vai dar certo. George e Victor têm o mesmo talento, só que o de Victor foi esculpido em barro, não em mármore".

Hughes estava correto. O talento de Fleming não era "o mesmo" que o de Cukor, mas ele era o homem certo para ...E o Vento Levou, depois de ter feito um trabalho inventivo e poderoso em O Mágico de Oz. Mas Fleming, cujo talento não fluía suave e sutilmente, mas sim brutalmente, em ondas de energia e sentimento, foi praticamente esquecido — e poucos se lembram dele neste 2009 em que se completam 70 anos dos dois clássicos do cinema americano. Nos anos 60 e 70 do século passado, os críticos franceses que inventaram a expressão "cinema de autor" só falavam de Cukor, Hitchcock, Preminger, John Ford, Howard Hawks, Ernst Lubitsch, Josef von Sternberg, Frank Capra — e ignoravam Fleming. Isso apesar de suas produções de 1939 serem, provavelmente, as mais vistas na história do cinema americano — não apenas bons filmes, mas com temáticas que fazem parte do inconsciente de gerações de espectadores.

...E o Vento Levou, com seus escravos felizes — símbolos da nobre labuta — contra um céu avermelhado, tem seus momentos enfurecedores e embaraçosos; o racismo kitsch é, infelizmente, parte do passado da nação. O que permanece marcadamente atual no filme é o combate central entre a Scarlett O'Hara de Vivien Leigh e o Rhett Butler de Clark Gable, ambos querendo estar por cima em qualquer situação. Margaret Mitchell criou o conflito, mas foi Fleming que fez com que os atores o personificassem. Já com O Mágico de Oz, a versão cinematográfica da mágica terra de Oz, com sua combinação de liberdade e desconforto, felicidade e medo, tornou-se a visão universal da própria imaginação. Por ser o elemento comum aos dois filmes, já é hora de a contribuição de Fleming sair da sombra.

No aniversário de 70 anos desses clássicos, há o lançamento nos Estados Unidos de novas edições em DVD (no Brasil, há versões de colecionador dos dois filmes disponíveis no mercado) e a chegada de dois bons livros: Victor Fleming: An American Movie Master (Victor Fleming: Um Mestre do Cinema Americano), uma biografia que renova a reputação do diretor, escrita por Michael Sragow, crítico de cinema do Baltimore Sun; e Gone with the Wind' Revisited (...E o Vento Levou Revisitado), de Molly Haskell — cujo estudo de 1973, Da Reverência ao Estupro, continua sendo um texto-padrão sobre a mulher no cinema. Molly Haskell vive em Manhattan há mais de 40 anos, mas cresceu em Richmond, Virgínia, e, quando menina, ficou obcecada com a bela sulista rebelde de Margaret Mitchell, Scarlett, personificada no filme por Vivien Leigh — egoísta, gananciosa, namoradeira, intratável demônio de olhos verdes, que é uma heroína em tudo.

Quando Selznick o chamou, Fleming não havia lido o livro de Mitchell, mas deu uma olhada no roteiro e disse ao produtor: "É uma droga". Selznick detinha os direitos do livro desde sua publicação e, em 1936, contratou o dramaturgo e roteirista Sidney Howard para que o adaptasse. Howard entregou uma versão fiel, mas muito longa, e Selznick começou a mexer nela. Em 1939, quando a produção começou e centenas de assalariados esperavam sem ter o que fazer, Selznick procurou Ben Hecht, o maior e mais cínico roteirista de Hollywood. Hecht concordou em fazer o trabalho contanto que não tivesse de ler o livro. Pegaram, então, a versão de Howard. Hecht ia ouvindo enquanto Selznick e Fleming liam em voz alta — Selznick como Scarlett, Fleming como Rhett. Estranhamente, pode ter sido a chave do sucesso do filme: Selznick, um incansável mulherengo, tinha, apesar de tudo, uma compreensão delicada e genuína dos sentimentos femininos e, de maneira crucial, identificava-se com Scarlett. Fleming, alto, forte e muito belo — Selznick referia-se a ele como "o homem mais atraente de Hollywood " —, não perseguia as mulheres; elas o perseguiam. O diretor era tido por todas como "o homem ideal" — astuto, engraçado, franco e exigente —, um temperamento muito parecido com o do pragmático Rhett Butler. O extraordinário equilíbrio entre Scarlett e Rhett pode ter-se formado nesse momento.

Gable sempre se preocupou com sua habilidade em personificar Rhett, um papel emocionalmente exigente, e ansiava pelo apoio de Fleming. Já haviam trabalhado juntos, em 1932, no delicioso drama romântico Terra de Paixões, quando o ator contracenou com Jean Harlow — Gable já havia absorvido muito do humor masculino brusco de Fleming. Cukor, por outro lado, como foi observado na época, deixava o ator nervoso. Gable temia que o filme pendesse para o lado das atrizes, especialmente Vivien Leigh. Recentemente, surgiram especulações mais picantes: o ator, no início de sua carreira, fora um gigolô e tivera alguns relacionamentos homossexuais. Nessa versão, consta que pessoas do círculo de Cukor faziam fofocas sobre seu passado e Gable, cioso de sua reputação de rei "hetero" de Hollywood, ficou preocupado. Assim, a presença de Fleming restituiu a autoconfiança do astro. O diretor era um padrão de masculinidade a ser seguido. Aos 20 anos, Fleming aproximou-se de Howard Hawks e, no espírito "macho" de competição, aprenderam aviação, construí­ram e voaram em aviões capengas que espatifavam o trem de pouso ao chegar ao solo. As estripulias arriscadas, a diversão vigorosa e radical, são parte essencial do caráter destemido que aparece em inúmeros filmes e, por bem ou por mal, fazem parte do ideário masculino americano no século 20.

A crítica "autorista" procura padrões recorrentes, a união incandescente da ideia e do estilo visual - o tal talento esculpido em mármore menos adaptável. Não se acham esses padrões nem um tema visual consistente nos filmes de Fleming, o artista moldável como barro molhado. Mas pode-se sentir a energia poderosa da fábula — a evolução emocional de alguns personagens claramente delineados através de uma história bem montada, seguindo para uma série de confrontos dolorosos e um clímax satisfatório. Em resumo, parece difícil imaginar alguém que não Fleming dirigindo O Mágico de Oz, o maior dos filmes com temática infantil. No entanto, ele também não foi a primeira opção para a empreitada. Em outubro de 1938, as filmagens começaram nos estúdios da MGM sob a direção de Richard Thorpe, que havia dirigido uma produção de Tarzan em 1936. As filmagens de Thorpe eram insípidas, e o produtor, Mervyn LeRoy, desprezou-as. (Curiosamente, Cukor também trabalhou em Oz. Depois que Thorpe foi demitido, Cukor apareceu, mudou a maquiagem e o penteado de Judy Garland e sumiu; o assunto não o interessou.) LeRoy, então, procurou Fleming, que a princípio disse não mesmo estando a produção já pronta, incluindo o roteiro e os cenários. No entanto, Fleming havia se casado — com Lu Rosson, que havia sido mulher de um amigo seu — e tinha duas filhas pequenas que eram sua paixão. Ele deixou poucos bilhetes e cartas, mas, pelo que escreveu sobre Oz para uma publicação interna da MGM, tem-se a impressão de que mudou de ideia porque queria fazer um filme que adultos e crianças pudessem ver.

Os roteiristas Noel Langley, Florence Ryerson e Edgar Allan Woolf adaptaram O Maravilhoso Mágico de Oz, romance clássico de L. Frank Baum, de 1900. Fleming não dirigiu as cenas iniciais do filme, feitas em preto-e-branco. Elas foram rodadas posteriormente por King Vidor, pois Fleming a essa altura já estava fazendo ...E o Vento Levou. Mas a parte principal, a partir do momento em que Dorothy abre a porta para Oz e o filme adquire um tecnicolor brilhante — um espanto em 1939 e maravilhoso ainda hoje —, pertence a Fleming.

A imortalidade de Dorothy, personificada por Judy Garland, não foi alcançada facilmente. Sua dedicação e suavidade ainda são tocantes, como a imagem idealizada da criança; mas Fleming queria que Dorothy fosse durona também, e a atriz deu-lhe muita dor de cabeça. Em uma cena, Judy dá uma paulada no focinho do Leão Covarde. O gemido do ator foi tão engraçado que a atriz não aguentou, perdendo o controle e caindo na gargalhada durante vários takes. Ela ficava atrás de uma árvore do cenário dizendo a si mesma: "Não vou rir, não vou rir". Porém, quando estragou mais uma cena, Fleming deu-lhe um tapa na cara e disse: "Agora chega! Vá para seu camarim" (tapas eram marcas registradas de Fleming, dentro e fora de cena). Ela voltou um tempo depois e continuou a filmagem. No fim, sua Dorothy, criada pela tia na época da Depressão (o tio mal aparece), mostra-se surpreendentemente forte. O modo como Fleming a dirigiu fez dela uma garota simplória que se agarra ferozmente a seus desejos e esperanças em meio a bruxas, macacos voadores e pessoinhas esganiçadas.

Esse método heterodoxo de dirigir aparece também em ...E o Vento Levou. Nas filmagens, Fleming importunava Vivien Leigh; algumas vezes, chegavam a discutir tanto quanto Rhett e Scarlett. Depois de um dia duro, ele disse: "Senhorita Leigh, enfie esse roteiro no seu real traseiro inglês", uma variação pouco elegante de "Francamente, querida, não estou nem aí", a famosa frase de Rhett Butler na cena final do filme. Essa antipatia mútua pode ter mantido vivo o filme. Em uma das cenas em que Rhett abraça Scarlett, Fleming a orientou: "Resista, mas não muito". Então, quando Gable se aproximou, ela lhe deu um tapa. Essa atitude, imagina-se, pode ter sido uma retaliação dirigida tanto a Fleming quanto a Rhett. De qualquer modo, Fleming gostou da cena. Essa rispidez era dirigida a Gable, também, com resultados sem precedentes. O ator começou o filme temendo que seu passado lhe desse uma aura efeminada, mas acabou cedendo às insistentes orientações de seu mentor para feminilizar as emoções como nunca fizera antes (nem depois), o que incluiu perplexidade por ser rejeitado por uma bela mulher, desespero crescente e pesar lacrimoso.

O melhor filme de Fleming após seus exaustivos trabalhos de 1939 foi uma nova versão de O Médico e o Monstro (1941), com Spencer Tracy no papel principal e a incrivelmente sexy Ingrid Bergman — última atriz namorada de Fleming — como a vítima do monstro. Ele morreu oito anos mais tarde, com problemas cardíacos, aos 59 anos, nos braços de sua esposa, Lu, caindo imediatamente no esquecimento.

Como a história o vê? Fleming não dirigiu totalmente nenhum de seus dois clássicos e não era, por definição, um autor. Mas sua ausência na lista dos monstros sagrados indica uma falha na teoria de autor, não nele próprio — um preconceito contra os generalistas, os não obcecados, os "camaleões", como diz Steven Spielberg, os que se reinventam em cada novo projeto, fazendo bons filmes com diferentes estilos. Quando o talento de um diretor é esculpido em barro, impõe-se com um humor nu e cru, resiliência, vigor e força. Os historiadores do cinema deveriam celebrar, como a audiência, não apenas os gênios obcecados, mas também os valentões adaptáveis que fizeram os maiores filmes de entretenimento de Hollywood.

David Denby é repórter e crítico de cinema da revista americana The New Yorker, na qual esta reportagem foi publicada originalmente. Tradução de Diana Ricci Aranha.

OS DVDS
...E o Vento Levou, de Victor Fleming. Com Clark Gable, Vivien Leigh, Leslie Howard e Olivia de Havillan. Edição especial com imagens restauradas, em quatro DVDs (Warner Home Video)

O Mágico de Oz, de Victor Fleming. Com Judy Garland e Ray Bolger. Edição de colecionador com imagens restauradas, em três DVDs (Warner Home Video)

Crítica - Encontro no Labirinto



Revista BRAVO! | Julho/2009

Cineasta francês evoca o mito grego do minotauro numa instalação criada a partir da obra do pintor Iberê Camargo

Por Renata Peppl

• Assista ao filme-instalação Dédale, de Pierre Coulibeuf

Por três anos, a convite do curador brasileiro Gaudêncio Fidelis, o cineasta francês Pierre Coulibeuf debruçou-se sobre a obra do pintor gaúcho Iberê Camargo. Encerrou sua pesquisa encantado com as telas escuras da década de 1960 e o movimento circular sugerido na maioria das composições. Mais tarde, numa visita à sede da Fundação Iberê Camargo, em Porto Alegre, percebeu que a dinâmica cíclica do artista também havia impressionado o arquiteto português Álvaro Siza, que projetou um edifício curvilíneo para abrigar a produção de Iberê.

A filme-instalação Dédale, primeira criação de Coulibeuf rodada no Brasil, reforça e enriquece essa interpretação. O título remete ao mito do labirinto construído pelo arquiteto grego Dédalo para conter a fúria do minotauro. Os personagens — interpretados pelo ator brasileiro Matheus Walter e pela performer portuguesa Vania Rovisco — percorrem a forma em espiral do prédio da fundação como se alternassem incursões por dois planos: o exterior e o interior. Perdida entre os corredores e rampas, em confronto com as pinturas de Iberê, a figura feminina é a Ariadne da lenda, em busca de si própria e de seu par, Teseu. A densidade de Iberê Camargo é o próprio olhar do homem com cabeça de touro, a desafiar a inquietação da personagem.

Montada no quarto andar da instituição, Dédale reafirma o caráter experimental e crítico de Coulibeuf, um cineasta e artista visual de grande repercussão internacional, mas ainda pouco conhecido por aqui. Idealizador de trabalhos que se inspiram com frequência no processo criativo de outros artistas, ele já explorou o universo de colegas como a sérvia Marina Abramovic, o italiano Michelangelo Pistoletto e o belga Jan Fabre.

Apresentada em quatro projeções de larga escala nas paredes, exibidas repetidamente em momentos diferentes da história, e acompanhada por dez fotografias de frames excluídos da edição final, a peça de pouco mais de 26 minutos convida o espectador a se perder junto com os personagens e a preencher as lacunas da narrativa com sua bagagem pessoal, deixando-se levar pelas emoções. Trata-se de um pedido para também sentir — e não só pensar — o encontro de Coulibeuf com Iberê. Além de oferecer uma nova ótica sobre o legado de um dos maiores nomes da arte moderna brasileira, Dédale pode ampliar ainda o alcance do trabalho dos dois artistas, estimulando não só o interesse brasileiro pelo cineasta francês, mas também a projeção internacional da obra de Iberê Camargo.


Renata Peppl é jornalista.

terça-feira, 21 de julho de 2009

Tribunal internacional condena sérvios que queimaram muçulmanos vivos

20/07/2009 - 13h13

colaboração para a Folha Online

O Tribunal Penal Internacional para a Antiga Iugoslávia (TPII) condenou nesta segunda-feira o ex-paramilitar sérvio-bósnio Milan Lukic à prisão perpétua, e seu primo, Sredoje Lukic, a 30 anos de detenção por terem queimado vivos ao menos 119 muçulmanos no leste da Bósnia durante a guerra ocorrida entre 1992 e 1995. Eles foram condenados por crimes de guerra e lesa-humanidade.

Segundo a Promotoria, Milan era o líder dos chamados "Águias Brancas", um grupo de paramilitares locais da cidade de Visegrad que agia em conjunto com a polícia local e unidades militares. Os juízes consideraram os crimes de Milan de "extraordinária brutalidade" e concluíram que as acusações apresentadas foram "provadas sem sombras de dúvida". Ambos os sérvio-bósnios foram condenados por terem participado pessoalmente do assassinato de ao menos 119 bósnios em dois incidentes separados em junho de 1992.

O juiz Patrick Robinson afirmou que as mortes "exemplificam os piores atos contra a humanidade que uma pessoa pode infligir a outras". Eles também agrediram prisioneiros muçulmanos detidos no campo de detenção de Uzamnica, em Visegrad. O juiz disse que Milan Lukic foi o líder em ambos os incidentes, ajudando a levar as vítimas para dentro das casas, incendiando-as e atirando naqueles que tentavam sair das chamas. Testemunhas "relembraram vividamente os terríveis gritos das pessoas nas casas", disse Robinson. Ao ouvir a sentença, Milan fez um sinal negativo com a cabeça.

Sredoje Lukic se inclinou para trás na cadeira, com o rosto pálido. Robinson, um veterano juiz do TPII que, nos últimos 15 anos, tem trabalhando apenas em julgamentos sobre crimes de guerra cometidos nos Bálcãs, se mostrou impressionado pelas atrocidades cometidas em Visegrad. "A perpetração por Milan Lukic e Sredoje Lukic dos crimes desta caso é caracterizada por um insensível e feroz desprezo pela vida humana", disse. Milan foi preso em agosto de 2005 na Argentina e enviado para julgamento em Haia. Seu primo se entregou às autoridades e transferido para a cidade holandesa algumas semanas depois.

terça-feira, 14 de julho de 2009

Curador da Bienal de 2010, Moacir dos Anjos quer arte política

http://www1.folha.uol.com.br/folha/ilustrada/ult90u594668.shtml

14/07/2009 - 07h42

FABIO CYPRIANO
da Folha de S.Paulo

Política, sem a institucionalização de um museu ou o afã pelo novo de uma feira de arte. Em síntese, essas são as linhas gerais que vão direcionar a organização da 29ª Bienal de São Paulo, segundo o curador Moacir dos Anjos, anunciado nesta segunda-feira (13) pelo presidente da Fundação Bienal, Heitor Martins, conforme a Folha havia adiantado.


De Londres, via Skype, o pernambucano Dos Anjos, 46, explicou o projeto inicial que irá conduzir a preparação da mostra, ainda sem data de abertura definida, mas que deve ocorrer em fins de setembro ou começo de outubro do próximo ano.

"O Moacir é o coordenador do grupo curatorial, outros cinco nomes ainda devem ser incluídos, três deles estrangeiros. O conceito de equipe é importante para marcar um pluralismo de visões", afirmou ontem Martins, na sede da Fundação Bienal. Os demais curadores serão anunciados em agosto.

A 29ª Bienal não terá um tema específico, mas será organizada como uma "plataforma discursiva", disse Dos Anjos. "Um tema costuma constranger as obras a um ponto específico e por seu tamanho." De acordo com o projeto apresentado pelo curador, isso significa que "o aspecto central dessa plataforma será o reconhecimento do caráter ambíguo que a arte exibe desde que se viu liberta de sua função de meramente representar o mundo".

O curador trabalha a exposição com um título ainda provisório, "Há sempre um copo de mar para um homem navegar", verso do poeta alagoano Jorge de Lima. "Vamos dar ênfase à arte como produtora de uma visão de mundo que, em potência, pode transformar a realidade", disse o curador, ao explicar o caráter político da mostra.

Ao preparar o projeto da 29ª Bienal, Dos Anjos falou que teve em mente outras mostras, com as quais pretende dialogar: "Não sou ingênuo ou arrogante para achar que vou inventar a roda. A Documenta 11, de 2002, a última Bienal de Sydney, e a 24ª e 27ª Bienais de SP são as mostras que tive em mente para elaborar o projeto."

Sobre a Documenta 11, Dos Anjos ressaltou a mescla entre os vínculos estabelecidos da arte feita no presente com a produção do passado, o que deve ocorrer também na 29ª Bienal. Outro viés importante da exposição, também segundo o curador, será seu caráter experimental, que foi lembrado a partir da concepção do crítico Mário Pedrosa em sua famosa formulação "a arte é o exercício experimental da liberdade".

A produção brasileira também será fortalecida, sem ser organizada em gueto. "Pretendo romper com a leitura crítica dominante que a arte política brasileira ocorreu só nos anos 1960 e 70."

Segundo Martins, a exposição deve custar cerca de R$ 25 milhões, além de R$ 5 milhões para o setor educativo. O curador volta amanhã para Recife. Ele não terá residência permanente em São Paulo.

segunda-feira, 6 de julho de 2009

Casa onde viveu Luiz Gonzaga pode desabar por falta de manutenção

RENATA BAPTISTA
da Agência Folha

A casa onde o cantor e compositor Luiz Gonzaga (1912-1989) viveu em Exu, município do sertão pernambucano, a 613 km de Recife, corre risco de desabar por falta de manutenção.


Inflitrações ameaçam desabar a casa onde viveu o cantor e compositor Luiz Gonzaga.

O espaço onde fica a casa, palcos para apresentações e lanchonete, que é conhecido como Parque Aza Branca, foi comprado pelo músico, chamado de "rei do baião", na década de 1970.

Após sua morte, o local foi transformado em um memorial com objetos pessoais do artista --como sanfonas, fotos, armas e trajes de cangaceiro que ele colecionava--, além dos mausoléus dele, da mulher e dos pais.

A administração da casa é hoje feita pela ONG Parque Aza Branca, que adquiriu a maior parte da propriedade. O dinheiro para manutenção provém dos visitantes, que pagam R$ 2 pela entrada. Em janeiro, julho e dezembro, o parque recebe entre 1.500 e 2.000 pessoas por mês, mas nos outros períodos do ano as visitas são mais esporádicas.

O dinheiro arrecadado é insuficiente para cobrir as despesas do local, segundo uma das administradoras, Clemilce Parente. Ela diz que no ano passado precisou negociar uma dívida de R$ 5.000 com a Compesa (Companhia de Abastecimento de Água de Pernambuco) e que, desde então, por contenção de despesas, só é utilizada a água coletada em chuvas.

Para Parente, no entanto, um dos problemas mais graves é a deterioração da casa onde Luiz Gonzaga morou. Há vários pontos de infiltração e os cupins estragaram o forro e parte do suporte do telhado. Há risco de desabamento.

"Precisamos de pelo menos oito funcionários para manter o lugar em ordem, mas não temos orçamento para isso", diz.

A diretora de preservação cultural da Fundarpe (Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco), Célia Campos, afirmou que o estudo para tombamento do Parque Aza Branca está adiantado e deve seguir para o Conselho Estadual em agosto --mês em que a morte de Luiz Gonzaga completa 20 anos.

Campos afirmou ainda que há uma visita técnica ao local programada para a próxima semana. "O bem é particular, mas mesmo assim vamos tentar reunir o montante necessário para as reformas emergenciais", disse.